21.2.08

mergulho

Viver é muito cansativo, e morrer pode ser um jeito de pôr um fim nisso. Ernesto estava cansado, mas não conhecia ainda os limites do desespero ou da exaustão. Mas o vemos num barco, sozinho, numa manhã cinzenta. O que pode enfim motivar um homem, quando embriagado de tédio? Talvez, a curiosidade. Há algo de infantil nos suicidas, o gosto irresistível pelo desconhecido, a falta de paciência de esperar que cada coisa suceda, em seu devido tempo. Ernesto estava menos cansado do que curioso. A meia-idade não veio com louros, ao contrário: as horas engoliam umas às outras e não parecia haver um porvir. Apenas mais e mais horas, ações e pessoas com as quais acostuma-se. Enfim. Não estava cansado, mas no fundo, estava, sim. Não suportando a dor ou o drama, decidiu criar uma metáfora para si, e quis morrer no mar. "Mergulhou", disseram os amigos anos mais tarde, "para sempre". Se em vida pouco ou nada tinha visto que lhe aprouvesse, quem sabe a morte encerraria olhos com as aventuras desejadas? Ernesto não levou nada consigo, nem nada deixou. Apenas queria saber se havia mais. Não acima, que não era religioso. Mas abaixo, se nas profundezas podia-se respirar. Mergulhou, e o frio que sentiu em alto mar, carregou consigo. Mergulhou mais e mais, medindo a distância pelos tons de azul que o iam esmagando. E cada vez que seu corpo exigia a superfície, ele dava mais uma braçada: deve haver mais. Faltou-lhe ar, forças, lucidez. Mas ele queria saber, apenas saber. Por um instante, uma fresta de segundo... E então ele soube como era morrer, viu o que se vê nas profundezas mais geladas deste mundo. Mas no momento exato em que ele soube, deixou imediatamante de saber.

1 pessoas pararam por aqui:

marcio cenzi disse...

era o caos, não o cais

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