16.3.08

do tempo à flor da pele

Sei lá que fazer do meu tempo, o que importa é o que ele faz comigo. Desde a adolescência eu tenho a sensação de desperdiçar a vida ao tentar vivê-la. Como se, escolhendo algo de que ocupar meu tempo, eu abdicasse de todas as outras coisas boas e interessantes que poderia fazer. Não aprendi grego, não sei tocar saxofone, não assisti nem metade dos filmes que queria, ainda não me entreguei de alma à uma causa que considere justa. Mas parei por muito tempo diante de coisas que me emocionaram, e que me tornavam uma pessoa diferente do que eu era antes de. Foi assim com o desenho dos corpos de sete crianças em frente à Candelária, com a primeira vez que eu vi uma peça de Bach ser tocada por uma orquestra ao vivo, com um ensaio do Montagne chamado "Que filosofar é aprender a morrer", com o enterro do meu melhor amigo, com todas as vezes que eu vi o mar. Cheguei aos 24 lembrando bem demais dos 18, e me pego muita vez em estado flutuante e melancólico, sentindo como se o mundo todo passasse com a sutileza de um sopro sobre a pele do meu braço, e isto fosse todo o tempo necessário para a epifania que me falta, e não vem. Há uma espécie de consciência de vida que nunca chega, mas as horas sim, sucedem todas.
Há talvez mais pessoas vivas hoje no mundo do que mortas em toda nossa história, mas o tempo passa quase do mesmo jeito. São as mesmas horas e muitas pessoas, muitas cidades, muitas maneiras de fazer qualquer coisa. E eu, que acho o tempo uma coisa bela e atroz, que respeito a morte e aflijo-me tanto com ela, que faço com o calafrio que me corre a espinha? Não suporto as horas, nem o tempo que me é dado, porque é demais, e pouco. Há um fascínio na velhice, no fim de todas as pessoas e na fragilidade que se lhes aflora necessariamente, nem que por um ínfimo de segundo. Pois no fim das coisas é sempre o tempo, sempre, que reduz tudo a mito, ou a coisa nenhuma, sem que nem o tempo mesmo exista, sem que ele sofra ou perceba nada, tão diferente do espaço que acolhe e das emoções que nos movem. Sei lá que coisa é o tempo, mas ele é minha vida inteira, a pauta, o limite, e, enfim, a surpresa final que aguarda a mim, e a ninguém mais.

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marcio cenzi disse...

omnes vulnerant, ultima necat.
é uma frase que prolifera pelos relógios de sol.
diz que "todas as horas te ferem, a última mata"
e no fundo, creio que a que mata, ou deixa viver, é a soma de todas as outras.
mas sempre é pouco tempo para tanto relógio

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