17.3.08

gente que faz


Estão saindo, aos montes, os filmes biográficos que contam grandes histórias, ou melhor, que contam a história de grandes pessoas. Assisti interessada a "À procura da felicidade", mais por simpatia ao elenco do que à obra. O filme emociona, isso é quase irresistível, e aí está o problema. Lembro agora de "Jonny e June", "Piaf", "Ray", "Quase deuses", "Frida", "2 filhos de Francisco"... Os filmes variam muito entre si, eu sei, em composição e qualidade, mas não tanto em objetivos. De um jeito ou de outro, eles mostram no melhor estilo o que é ser um "vencedor", o que alguém é capaz de fazer com um pouco de talento e muita vontade (e boa parte deles é sobre negros, note-se). Aprecio fortemente a não-vitimização dos indivíduos, sobretudo no cinema, e gosto mesmo de ouvir uma boa história. Mas não gosto, nesses filmes, da oferta explícita da pessoa por trás da história, posto que é este o chamariz: não é uma obra de arte, é uma vida editada, envernizada e fetichizada para a turba, sedenta de um pouco de sucesso, felicidade e possibilidade, tudo isso em duas módicas horas. Filmes assim acabam por 1) fazer você se sentir um inútil ou 2) te estimular a ser diferenciado, brilhante e notável. E eu não gosto nem dum nem dotro.
Não quer dizer que todo filme baseado em fatos e personagens reais seja necessariamente apelativo ou entorpecente. Nesse sentido, reforço meu gosto pelo cinema asiático: há uma sensibilidade na montagem, direção, atuação e imagens que não tende para a catarse típica do ocidente. Assistam à "Nenhum a menos" ou "Ninguém pode saber". São histórias tristes, ligadas à miséria, solidão, medo, discriminação e todo o resto. Um deles nem é uma história de, digamos, um "vitorioso". Mas são filmes que se tornaram obras de arte, apoiadas numa grande história.

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