5.3.08

mulheres

A discussão, agora, é sobre o uso de embriões em pesquisas médicas. Estão os homens - sim, os homens - todos a falar a respeito do que diabos é a vida (ops), onde começa, se é sagrada, ilusória, carnal ou blá. Autrement dit, estão tentando definir quem veio primeiro : o ovo ou a galinha? , como se estas perguntas não tivessem sido postas há muitos séculos, e sobre as quais os filósofos mais respeitáveis também já não tivessem se debruçado. É meritório, claro, que o pensamento siga seu curso e nós, pessoinhas do século XXI, tentemos formular respostas para questões tão dignas e instigantes. Enfim.
O que me choca, na verdade, é outra coisa: o que motiva este debate "profundo e enriquecedor" tem menos a ver com nossa capacidade de auto-conhecimento, do que com uma briga ideológica besta, entre os mais religiosos e os menos, os do leste e os do oeste, os vermelhos e os azuis.
E então segue-se uma enxurrada de argumentos prontos e surrados de cada lado, pois, de modo geral, aqueles que defendem a pena capital e a redução da maioridade penal - sempre tão inflexíveis e graves - costumam dizer que a vida é sagrada. Sei... Os que se mostram a favor das pesquisas com embriões, por sua vez, esquecem que a lei de biossegurança é uma, e põe na roda também os transgênicos (contras os quais costumam insurgir-se). Há um objetivismo extremo quando falam de laboratórios e pesquisas experimentais, e tratam qualquer tentativa de limite imposto à ciência como um retrocesso, e ponto.
Longe de ter uma resposta definida e segura a respeito (embora tenda a ser a favor), fico observando de longe os homens todos a falar sobre a vida.

Está próximo o Dia Internacional da Mulher, e este ano, temos um brinde: a não menos polêmica e imediatamente correlata discussão sobre o aborto. Pois é, esse assunto. Os argumentos dos prós e contras não fogem daqueles mencionados na discussão sobre os embriões, o começo da vida e etc. Mas a marca ideológica (religiosa) aparece aí com força total: pobres daquelas que matam seus filhos... Ora, pro inferno! Pouquíssimas vezes eu vi o argumento sobre a saúde da mulher ser devidamente considerado, creio que nunca o vi ser respeitado. Como se a condição feminina fosse já uma questão secundária e circunstancial, como se o corpo da mulher fosse mero depositário do problema filosófico que nos abate. "Escolhe, pois, a Vida", diz a CNBB este ano. Bem, não a minha, certamente. Não a de milhares de adolescentes, jovens que não podem ou simplesmente não querem manter uma gravidez. Mas a obrigação de amar a cria, o instinto maternal logo se lhe impõe e pronto: temos um ser destinado a gerar vida, ainda que a sua sofra uma reviravolta, um colapso, um estrago enorme.
Não se trata, claro, de uma questão (tão somente) científica, mas ética.

suspiro.

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