28.4.08

dos sentimentos que Isabella desperta


Além das manifestações de revolta e incredulidade, pouco vi que interessasse a respeito da morte da menina, afinal. Não tenho sequer a intenção de queixar-me sobre a sanha dos "populares" por vingaça disfarçada de justiça, com mais sangue e drama. E tampouco me interessa a prontidão com que a mídia os alimenta. É abusivo, é sensacionalista, blá, blá, blá...

Mas li este post. Em resumo, Camila critica uma linha de raciocínio que parece ter se tornado uma máxima nos episódios de violência: "se fosse com um pobre ninguém ligaria", e suas variantes com raça, religião (e etc) porque a considera injusta e amenizadora com as vítimas factuais. De certa forma, eu devo concordar. Quando surge um caso de violência extrema, parece que das conversas a respeito emerge certo cinismo ácido e ressentido. Diz-se "Se fosse com um pobre, ninguém ligaria" como se à indiferença deste grande grupo uniforme ("ninguém") o tal indignado não pertencesse ele mesmo. Obviamente, a imprensa não está isenta nisso. De um modo geral, sabe-se que o assassinato de uma criança de classe média alta vende muito mais do que as crianças que morrem nas periferias, nos hospitais, nos assentamentos. Mas eu teimo em achar que a mídia orienta-se muito mais pelo interesse de seu público do que o contrário (se não, alguém explique por que o melhor dos programas da TV Cultura tem um ibope menor do que qualquer edição do Zorra Total, BBB, Pânico na TV, Ídolos). A violência não é um fator raro na sociedade brasileira, mas a cada vez que alguém rico, branco e instruído sofre ou comete um crime, sentimos a massa espantar-se como se estivéssemos na Suíça. O horror vende, mas é preciso mostrá-lo como tal. E é preciso senti-lo como tal, identifica-lo como horror, na sua forma mais pura - o MAL, com letras garrafais e capa na Veja. E então confundem-se o Mal, absoluto e fascinante, com a antipatia entre classes, cínica e analítica. São sentimentos contraditórios e complementares, debatendo-se a cada episódio trágico que aparece na televisão.

Ainda assim, desta vez a repercussão tomou proporções de catástrofe, como se com a menina também a moral, a pureza e a família tivessem sucumbido. Creio que mesmo a linha da curiosidade foi passada, na medida em que a comoção tornou-se trauma, e nem tudo foi televisionado: uma colega, mestranda na Escola de Enfermagem da USP, estuda as experiências de violência entre adolescentes da periferia. Há algumas semanas, os relatos de rivalidade entre gangues, abuso sexual e moral, necessidades físicas e psicológicas não supridas cederam lugar à morte de Isabella. 30% dos adolescentes entrevistados declararam que esta foi a experiência mais violenta que já tiveram. A jovem pesquisadora se perguntava o que fazer com esse novo dado. Trabalha-lo, ué. Mas não é tão simples: como entender uma identificação tão imediata entre adolescentes pobres e esta menina? Trata-se então de ideologia, aceitação excessiva do conteúdo midiático...? Não sei. Não creio que estes adolescentes sejam apenas consumidores de notícias, como muita gente parece ser. E neste ponto, eu discordo da Camila. Não acho que o pensamento "se fosse com pobre, ninguém ligaria" seja reflexo de um pensamento permissivo ou pouco piedoso para com as vítimas. Ao menos não apenas isso. Pois acho que há, sim, uma adesão a certas dores, a certas vítimas, a certas causas. Infelizmente, os dramas de grande parte da população não são matéria de jornal, são mais consumidos como material estético (tome-se o exemplo de "Cidade de Deus", "Tropa de Elite", "Estamira", etc). A dor dos pobres, dos pretos, dos não-judeus, assim, existe em outra esfera e desperta outras reações, outros sentimentos. Algo mais parecido com o entusiasmo de uma crítica bem-feita, mas nunca vividos como uma experiência nossa, própria, fundamental.



acréscimo posterior: este post do Rafael Galvão é muito bom.

4 pessoas pararam por aqui:

Camila disse...

Aline, o final do seu post é excelente. É fato que o sofrimento dos ricos acaba sendo consumido como "legítimo sofrimento psicológico", e o sofrimento dos pobres vira objeto de crítica social. Um dos textos que mais me marcou durante a graduação trata justamente da dificuldade de se ouvir psicanaliticamente o discurso de jovens pobres e pretos, pois a tendência dominante é tratá-lo como produto de uma exclusão social. O problema é que, ao ouvir esse discurso apenas como produto da exclusão social, o psicanalista nada mais faz que reforçar esta mesma exclusão - excluindo o jovem, desta vez, da sua condição de sujeito!

Este é o outro grande motivo pelo qual o raciocínio do "se fosse com pobre, ninguém ligaria" me incomoda: trata-se de um raciocínio que, implicitamente, lida com o sofrimento dos pobres como tendo única e exclusivamente uma raiz social - e qualquer coisa que se afaste disso vira ideologia. É como diz o maravilhoso texto do Antonio Prata sobre os "meio intelectuais, meio de esquerda": o pobre legal, o "pobre autêntico" (!) é aquele que usa sandálias de couro e ouve samba de roda - já o pobre que usa rider, dança o créu e chora pela Isabella, esse é um pobre dominado pela ideologia. Acho isso de uma desumanização tremenda. E é óbvio que quem diz "se fosse com pobre, ninguém ligaria" não está pensando em nada disso que acabo de escrever - mas, ainda assim, esse raciocínio me remete a tudo isso. Nem tenho condições de afirmar com certeza se tudo isso está mesmo presente no tal raciocínio, ou se eu é que estou extrapolando demais. Mas é fato que a negação da subjetividade do pobre existe, e sempre me fere profundamente. Principalmente quando me percebo agente desta negação.

Camila disse...

Seguem as fontes dos textos que citei:

Da Miriam Debieux Rosa,
http://66.102.1.104/scholar?hl=en&lr=&q=cache:lPV7YmQRMboJ:www.ip.usp.br/docentes/debieux/%255Cpdf%255C2004escutavidassecas.pdf+debieux+rosa

Do Antonio Prata,
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=225

Beijos!

Camila disse...

Ah, é claro que não ia dar certo. Seguinte: pro texto da Miriam, é só colocar no google scholar "uma escuta psicanalítica das vidas secas". Pro do Antonio - "Bar ruim é lindo, bicho".

aline disse...

Camila,
obrigada pelas indicações, em primeiro lugar. A parte final do post é de fato a que eu considero mais importante, pq muitas vezes eu já me perguntei se filmes como os que eu citei deveriam mesmo ser feitos. Não gosto muito da estetização da dor, sobretudo porque ela é feita com um recorte social muito claro. Adorei Estamira, ams saí do cinema com uma sensação assombrosa, eu me senti uma ilha depois de vê-la.
E, agora que vc escreveu tudo aquilo, também eu comecei a pensar em uma porção de outras coisas. Meu contato com a psicanálise é muito parco, mas cruza em algum momento com o que vc disse sobre excluir a subjetividade do "excluído". Enfim, uma vez li dois textos que diziam que certos discursos "psi" destruiam a subjetividade de certos grupos, na medida em que os fragilizava e vitimizava em relação à sociedade. Algo do tipo "coitado, é pobre", "coitado, é transssexual", "coitada, é prostituta", e que formulações do tipo viabilizavam a violência física e moral de todas pessoas que pudessem se encontrar neste ou naquele perfil, na medida em que eles sempre foram vistos como "passíveis de violência e não-inclusão". Trata-se de uma suposta piedade que os torna, de primeira, em não-sujeitos: incompletos, desorientados, vitimizados pelas circunstâncias. Também não sei se as pessoas que reproduzem certos raciocínios pensam nisso. Acho que não. Mas as vezes as intenções mais louváveis geram consequências crueis e de difícil rastreamento, ainda que sensíveis. Algo como o poder formador das piadinhas sexistas, racistas, etc.
A referência aos dois textos eu fico devendo, neste momento. Mas eu trago, juro.
abraço.

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