30.4.08

filhos do brasil

Este é bem o tipo da coisa que me deixa ressabiada: um concurso para eleger a melhor foto de uma criança em situação de risco, flagrando uma realidade nacional triste, focado em trabalho degradante "muitas vezes forçado ou escravo, ligado a tráfico de entorpecentes, exploração sexual, conflitos armados e atividades ilícitas, em geral."

É justamente disso que eu falava no post anterior. Algumas crianças, como Isabella, João Hélio, Ives Otta, mobilizam as pessoas ativamente, sobretudo nos momentos acalourados de clamor por justiça na frente da delegacia. Mas a violência é uma constante na vida de muitas crianças, e mesmo as que não são expressamente assassinadas acabam tendo sua infância destruída. Sofrem uma espécie de aniquilação simbólica, sentimental. Para com estas, a abordagem da denúncia é bem diferente. As fotos do concurso são belas, esteticamente acuradas, tratadas, com iluminação, foco, perspectiva, profissionalidade. São um "alerta à sociedade". O que isso diz dos nossos sentimentos em relação ao sofrimento delas? Certamente, que não se manifestam de maneira tão genuína, abrangente, intensa - como acontece com as outras crianças de que falei, individualizadas por sua dor. As milhares de crianças em situação de violência não têm rosto nem nome, elas são objeto de uma linguagem que se quer intelectualizada e racional, que pode esperar as medidas políticas, econômicas e judiciais cabíveis, para regularizar sua situação. Não há, entre a classe média e os "filhos do brasil", nenhuma relação de identificação, e, assim, nenhum sentimento de igualdade. A dor deles é outra dor, e os coloca numa posição passiva, tutoriada, carente e deficiente.

Não concordo com o linchamento público, mas ele parece resistir aos séculos, demonstrado na atual catarse popular e seus cartazes na porta dos prédios, seus chutes nos carros da família e gritos pró-pena capital. E não concordo com esta outra abordagem, cuja pretensão de beleza fere e supera a circunstância de frente à câmera. A fotogenia, em especial, forja beleza e eternidade onde não há absolutamente nada disso, com o consentimento e admiração dos expectadores, definitivamente afastados das cenas retratadas - longe, portanto, do sentimento de compaixão.

Pessoalmente, não sei bem como lidar com o sofrimento alheio. Mas me esforço em não transforma-lo em histeria, nem em experiência estética. As duas coisas só fazem reforçar a solidão destas crianças.

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