7.6.08

albergue espanhol (e as línguas dentro dele)

Embora eu conheça vários filmes franceses bons (dos bacanas aos muito importantes) e adore propor atividades de vídeo com meus alunos, é sempre uma encrenca escolher qual filme passar. Tanta coisa deve ser considerada... Hesitei muitas semanas antes de decidir passar O Albergue Espanhol, neste semestre. O filme, além de simpático e divertido, é pertinente ao meu "público-alvo": minhas turmas são compostas em sua maioria por jovens universitários, muitos deles recém chegados a estas terras paulistanas e ansiosos por partir em intercâmbio. Mas: além do francês, fala-se espanhol, inglês, catalão, dinamarquês neste filme. Pior: todas estas línguas (com exceção, óbvio, do dinamarquês) são mais compreensíveis do que o francês, a língua que de fato interessa que entendam, num contexto como este.
Teimei na escolha, e preparei as sessões. Eles gostaram, de modo geral. Conversando a respeito, formulei uma resposta simplista, dizendo que (além de o inglês e o espanhol serem mais acessíveis e conhecidos) todos os personagens que falam estas duas línguas, no filme, são estrangeiros, ou seja, não falam com perfeição e, para se bem fazer entender, pronunciam mais pausadamente, e tal. E por isso nós, aqui, ouvimos com tanta clareza esses idiomas.

Bobagem. Percebi mais tarde que as conversas em inglês e espanhol, afinal, são triviais e objetivas, travadas com vocabulários e expressões de acesso imadiato. Mas as partes em francês dão conta, na maioria das vezes, de uma narrativa, pois são a voz do personagem que tenta explicar seus sentimentos e lembranças relacionadas ao seu intercâmbio - quer dizer, à experiência de exilado (que implica em uma série de coisas que eu não vou abordar agora). Nada mais difícil de fazer e entender, do que a expressão da subjetividade. Ela há de ser em língua materna, sob o risco de sair manca, incompleta, artificial; não por uma questão básica de hábito, mas porque nossa subjetividade é toda moldada pela linguagem, e pelo idioma que nos acompanhou desde sempre. Xavier reorganiza uma série de elementos de sua vida e, ao fazê-lo dispende de recursos, estruturas e vocabulários que, claro, meus alunos não poderiam achar evidentes. Enigma esclarecido.

E eu lembrei que cogitei escrever este blog em língua estrangeira. Idéia tola, que passou rápido como veio. E noto, agora, a inviabilidade da tarefa: para alguém que, como eu, lapidou a sensibilidade com versos de Chico Buarque, Drummond e Vinícius de Moraes, que ia fazer com a língua de Proust, na blogosfera ? Nem imagino... Muito do que eu sou, sei ser em português. Eu já estou quase falando do exílio, mas isso vai mesmo ficar pra outra hora.

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Matheus disse...

Legel o post. O filme é legal e acho que se o tivesse visto na minha época de faculdade, daria um jeito de fazer intercâmbio. Sugira a eles a continuação: Bonecas Russas.

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