9.6.08

o papa e a turma da mônica

Cresci lendo revistinhas da Turma da Mônica e, depois de crescida, passeio vez em quando pelo site para ler as histórias que lá estão disponibilizadas (coisa boa de se fazer sobretudo com o irmão, por perto).

Aí deparo-me com uma coisa estranha: dentre algumas histórias à disposição dos leitores (como as superelaboradas, inspiradas em filmes ou grandes histórias como Horacic Parc, Batmenino Eternamente, Os doze trabalhos da Mônica, Comandante Gancho), há o que eles chamam de histórias antológicas, como Romeu & Julieta, que, de fato, acabou por se tornar uma das mais importantes da turminha. A outra antológica é, contudo, uma chamada "Um dia de abril", e fala... do papa. Sim, sim, o santíssimo João Paulo II, nosso último papa, homenageado com boa dose de bajulação: "aquele que tanto lutou pela grandeza da humanidade... e sua união pela fé, independente de sua raça, cor, ou religião! Aquele que foi o símbolo do amor incondicional ao ser humano... " Os epítetos continuam, mas o roteiro é o mais assombroso: no caso, a história é protagonizada pela Dona Morte, no dia em que ela deve buscar o santo velhinho. Ela está deprimida, introspectiva, e chora ao encontrar o papa disposto a morrer. E ela o acompanha até os portões do céu, onde aguarda um São Pedro camarada e íntimo do velhinho. E, no fim, a Morte recebe um presente do papa, e divide com toda humanidade: a paz (uma pomba branca numa caixinha). Tá.

A mim parece que a formulação que orienta o roteiro é típica da sensibilidade cristã. Em menor escala, evidentemente, é a projeção da figura do próprio Cristo. Trata-se de um homem que deu o exemplo em vida e sobretudo na morte; excepcional por sua capacidade de amar, que defende os valores humanos (tomados em sua polaridade positiva) como um todo.

Tudo isso como se fosse possível reduzir as condutas humanas a uma unidade defensável, quero dizer, como se a bandeira da "união apesar das diferenças" fosse de fato possível (ainda mais dentro da igreja católica...). Ora, a maior parte das religiões são dificilmente compatíveis e, no que concerne a sagrada apostólica romana, não se pode dizer que ela elogie ou favoreça o sincretismo (aliás, não há uma única personagem feminina representando nenhum tipo de religião ou qualquer outro papel social. Ah, sim, há. A Dona Morte...). Quanto à "grandeza da humanidade", há pouca coisa fora do âmbito da religião, e mesmo nos aspectos mais gerais das práticas humanas, eles falam daquelas que condizem com os valores cristãos, sobretudo a bondade.
A historinha também parece ignorar que este homem Karol não era mais do que um homem como qualquer outro, a não ser pelo detalhe de ocupar o topo de uma hierarquia fortíssima dentro de uma instituição poderosa cujas posições quanto à diversidade e liberdade são bem inflexíveis. Como se sua morte tivesse alguma coisa a ver com martírio ou sacrifício, já que a coragem e receptividade do papa emocionam até a Indesejável. Uma historinha assim, banal, acaba por mistificar uma personalidade, criando uma figura maior do que existiu e moldando uma admiração fundamentada num tipo de espiritualidade superficial, meramente intuitiva e iconoclasta. Como eu disse, típico.

Não entendo um papa que seja um exemplo de simplicidade e amor incondicional nesse contexto. Mas creio que entendo uma historinha desse tipo numa revista infantil.

4 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

..."a não ser pelo detalhe de ocupar o topo de uma hierarquia fortíssima dentro de uma instituição poderosa cujas posições quanto à diversidade e liberdade são bem inflexíveis."
muito bom. sempre me espanta como, dentro da Igreja, parece que ninguém sabe disso.
que coisa a turma da mônica agir como se todos seus leitores fossem católicos.

aline disse...

Pois é, mas acho que o aparato discursivo dos fiéis inclui sobretudo a distorção das posições mais autoritárias. Não é que "ninguém sabe disso", mas as pessoas sujeitam-se voluntariamente à idéia de que certas restrições são benéficas, certas, divinas...

Quanto à turma da Mônica, acho que ela nunca pôde ser considerada contestadora ou algo do tipo, a tendência "classe-média conservadora" nela é forte, forte. Mas desta vez foi exagero. Essa normalização dos valores de um grupo (a ideologia, enfim) em materiais infantis me preocupa.

Theo é Tristan disse...

Também cresci lendo Turma da Mônica. Nunca lia o que precisava, tipo literatura ou (na época) ciências. Quadrinhos eram muito mais legais, coloridos e curtos.

Sou ignorante até hoje, mas penso que não sofri tanta influência classe-mediana -pelo menos não pelos quadrinhos.

Houve um papa muito sincero e "liberal". Não vou arriscar nenhum nome agora; estou pra ler A História do Papado (e outras 9 obras de história). Em 20 anos eu respondo.

Thiérri disse...

A Turminha vai perder muitos leitores evangélicos... se é que eles podem ler esse tipo de coisa!!!

he he!!

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