23.8.08

divagações tristinhas, míticas e olímpicas

Eu vi, pela tv, a declaração do Fábio logo depois da partida de vôlei de praia que ele e o Márcio perderam. Ele disse, com a voz muito embargada, que "a prata no Brasil não vale nada." E que eles queriam levar a medalha de ouro pro Brasil, que nós somos um povo muito sofrido, sem expectativas, e cuja alegria só existe no esporte, e tal. Que é só o que temos, o esporte. Eu nem concordo com ele, porque se é pra generalizar assim, ainda tem o carnaval e as novelas, mas vá lá. É que fiquei meio deprimida com o que ele disse. Se ele leva essas duas prerrogativas a sério mesmo, e parece que sim, deve ser bem difícil lidar com a dualidade: nossa alta exigência (só ouro vale) com nossa alta carência (só o esporte alegra).
É de embargar a voz mesmo.

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Não sou esportista, mas mas a natação e a dança já estiveram muito presentes entre minhas atividades semanais e paixões. Faz um bom tempo, isso. Claro, o fato de eu ter levado ambos apenas como lazer mudou tudo, configurando um tipo de envolvimento diferente. O que eu gostava era de fazer aquelas coisas. Gostava de dançar, gostava muito mais de nadar. Poderia passar horas na água, mergulhando, boiando, vendo os dedos enrugar. E eu detestava as competições, mesmo as mais requenguelas. Porque o entusiasmo da vitória estava reservado a poucos, mas a sensação de fracasso era democrático: se você não for o primeiro, pra alguém você perdeu. Às vezes a gente perdia pra um só. Às vezes, pra todos.
E o prazer de fazer aquela coisa virava um monte de coisa que não era mais prazer.

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Mas, olha só, tem um aspecto nas competições que me interessa: o caráter, digamos, mítico da coisa toda. Acho curioso que os padrões de comportamento de todos os participantes seja tão análogo a certos padrões ritualísticos. Há um universo finito e muito bem determinado de movimentos que os esportitas devem executar. E todos os que estão lá concordam com as interdições, e levam a sério como se fosse real. Mas não é, porque na "vida real" você pode fazer o que quiser, até tocar uma bola com a mão, se te der na veneta. Mas se no futebol não pode tocar a bola com a mão, isso está completamente aceito. Pronto, acabou. Por isso é divertido. E não importa o quanto dure o jogo, aquela quantidade de tempo é totalmente dedicada às regras e ao acordo comum. Nós podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas nunca jogar. Não há concorrência de atenção ou prioridades. O tempo e o espaço do esporte tem significados muito diferentes. Os quinze minutos na prorrogação da final do futebol não são os mesmos de quando você acorda, de manhã. Andar 100 metros até o ponto de ônibus não é o mesmo que a pista de corrida. Além disso, não é só a atenção e os corpos dos esportistas que o jogo apreende, os da torcida, muitas vezes, também. Ficamos parados, estáticos, concentrados (estar em casa quebra um pouco isso). Enfim. Gosto da mobilização que o esporte provoca. É um grande simulacro, uma encenação. Para não deixar a bola cair, fazer a bola passar no aro, chutar a bola na rede, correr, pular, nadar. Gosto de pensar na suspensão do tempo, da distância, do cotidiano, até da necessidade de falar. Gosto de pensar também nas infinitas possibilidades de expressão do corpo dentro de repertórios tão fixos.
Com tanta coisa interessante envolvida, há mesmo que se fazer um vencedor e vários perdedores?

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