6.8.08

do assalto

Entre os desserviços que a televisão causa, hoje, creio que o conceito de "mundo cão" é o de maior e pior efeito. Detesto aqueles programas sobre violência urbana e cotidiana, apresentadores exaltados e reportagens de "denúncia".
Em primeiro lugar, porque geralmente o apresentador incorpora o "cidadão de bem" e incita essa mesma persona que há dentro de nós, no seu lado mais perigoso: o pagador de impostos indignado, pronto a julgar e disposto a linchar os bandidos , universalisando (e atribuindo a si próprio) padrões ideais de decência e honestidade. É o mesmo perfil a que apelaram, há alguns anos, os contrários à lei de desarmamento.
Em segundo lugar, não gosto do clima de histeria coletiva. Certas emissões parecem fazer um pacto coletivo de medo. Individualmente, os cidadãos sentem indignação e revolta, publicamente (coletivamente) sentem medo. A sensação de ameaça constante, a insegurança quanto ao futuro e à integridade física, tudo isso paralisa. As pessoas podem se tornar receosas, desconfiadas, sem que nunca tenham sido vítimas de algum tipo de violência.

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Eu sempre tive medo de assalto. Até sábado passado, nunca tinha me acontecido. Mas eu sempre tive paúra de uma situação dessas. Pensando a respeito, percebi que não era medo de perder a carteira ou o dinheiro que porventura portasse. Nem medo de um tiro (ou algo do gênero) porque não consigo nem imaginar tal cena. Ela é tão "irreal" na minha cabeça que me dá tanto medo quanto um encontro com o Lorde Voldemort. O medo é da abordagem. O que me apavorava, sempre, era o momento em que alguém se aproximasse de mim, tentasse chamar minha atenção com a finalidade de assaltar. Racionalmente eu sei que a possibilidade de um tiro, numa situação dessas, é o grande perigo que se corre. Mas não era assim que eu sentia, seguia temendo o olhar agressivo, o momento, meio caricato, de estabelecer a situação "é um assalto".
Então, no sábado, aconteceu. Na lagoa do Abaeté, em Salvador. Dois caras chegaram gritando "vocês vão morrer, passa tudo, cala a boca". E a arma, apontada pra nós. Num primeiro momento, pensei "então é assim que acontece". Notei que eu não estava com medo, aquele medo paralisante, estava impressionada. Olhei em volta, um monte de gente assistiu à cena. Quietos, vidrados.

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Estou há dias com isso na cabeça. Não a sequência toda, mas a abordagem. Não foi tão horripilante quanto meu medo me fazia crer. Penso na feição das pessoas à volta, dos policiais que vieram depois. Não sinto raiva dos assaltantes, não sinto pena. Senti e ainda sinto forte desconforto com a arma, com a relação que se estabelece por vias estritamente de violência, de ameaça. Entendo, até certo ponto, a passividade daqueles que viram tudo acontecer e não pediram ajuda. Voltamos pra casa cansados, quietos, meio tristes. De resto, vou resistindo à facilidade de reduzir tudo ao "mundo cão", de pensar que as coisas vão de mal a pior e salve-se quem puder.

Mais do que isso eu ainda não sei dizer, não.

2 pessoas pararam por aqui:

Thiérri disse...

se você tivesse um Death Note, você receberia seus pertences 40 segundos após o assalto.
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Teve uma vez que eu tinha R$2... no caminho até o Compre Bem...

Resumindo... negociei e o cara levou R$1 só

aline disse...

Thi, eu precisaria ter o Death Note e os olhos do Shinigami, porque nenhum assaltante se apresenta antes de pegar as coisas. (Que papo nerd!)

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A gente tentou negociar os documentos. Eles deixaram tudo do paulo, mas levaram minha bolsa. A pior coisa que pegaram foi minha agenda, com todas as anotações do mestrado. Eu tinha R$ 10 na carteira, pensei que eles iam esculhambar com a gente. (isso aconteceu com um amigo que foi assaltado e tinha pouca grana. pode, isso?)

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