18.8.08

é doce morrer



A primeira vez que eu vi o mar de Salvador, pensei que Caymmi tinha razão: é verde, verde. Ele me perdoasse, pois eu, crescida no litoral paulista, estava acostumada com um mar de cor escura, ora azul, ora marrom, em profundo silêncio de falta de ondas.
Mas da janela de casa eu vejo, o mar verde escancara minha janela, bate nas pedras e borbulha e é verde, muito verde. Em vários tons de verde. Diferente a cada hora, a cada metro de profundidade.
Olhando pra este mar, que tantas vezes lhe inspirou, pensei nos versos de é doce morrer no mar. Apenas ontem eu percebi que a doçura de que a música fala, afinal, não é do mar. É da morte.

Parece que Caymmi ficou muito mal depois que Stella entrou em coma. Ele morreu dez dias depois. Não é a primeira vez que eu ouço a respeito de velhinhos que morrem pouco depois de perderem seus companheiros. Que fascínio, para mim, pensar num vínculo desta natureza - porque aos meus olhos, ele está desprovido de influências espirituais ou extra-humanas. Não entendo absolutamente como acontece, mas me soa como uma extensão de um corpo no outro, de uma resistência mútua contra o tempo e as dores comuns. Vai-se um, o outro abdica. E vai-se também.
Não sei dizer ao certo, mas isso me parece um jeito doce de morrer.

3 pessoas pararam por aqui:

josue mendonca disse...

ah, esqueci de falar que adorei teu blog...tanto a linguagem poética quanto a forma como faz crítica.
(gostei tb de seu comentário lá, clareou um pouco mais minhas idéias...)
acho que posso me inspirar bastante aqui.
e, claro,to linkando lá no meu
abraço!

Jair Fonseca disse...

Delicado seu comentário sobre a delicadeza (tão confundida com dengo) de Dorival Caymmi, delicado até na morte.

aline disse...

obrigada, josue, jair, pelos elogios. mesmo. :)

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