15.8.08

Família: Zé e Tida

A ninguém, na minha família, cabe mais a frase "você conhece a figura" do que a meus avós. Chegam a ser caricatos, os dois, tamanha a insitência de suas inclinações. Curioso é que, durante tantos anos, eu os achei tão diferentes, tão contrários, um e outro.

Isabel, ela, foi linda a vida toda. A ascendência italiana deu-lhe aparência clara, pele, olhos, cabelos, tons suaves que mal combinavam com o temperamento irredutível. Isabel era linda e brava, e vivia no subúrbio paulistano, lá pros lados do Ipiranga. Fez questão de ser daquelas mocinhas que não davam atenção a qualquer um. Não gostava de paquera nem elogios, a desconfiada. Casou-se logo com o maior boêmio da praça. Ele, Zequinha, era mineiro e a aligria do Moinho Velho. Boa praça, exímio jogador dos esportes de boteco, bocha, dominó, bilhar. Costumava dobrar seu salário apostando em si, em qualquer uma das modalidades. Como era caipira e tinha um problema de formação nas mãos, os ingênuos entravam na aposta com grandes quantias, certos do lucro. Armadilha. Mulato dançador, cabeça fresca. O casamento, parece, abalou os já irritadiços nervos dela - por causa daquele papo de responsabilidades e tal. Os nervos dele sempre estiveram intactos.
Ela, a nossa Tida, insistia para que eu e meus irmãos fôssemos educados e responsáveis. Sem deixar de ser zelosa, mostrava-se firme. Mas o Zé estragava tudo com sua simpatia e inclinação pela farra: ria das travessuras com gosto e cumplicidade. Cresci achando que eles estariam sempre preservados sob essa égide das respectivas personalidades, cada um ensinando aos netos posturas em face à vida. Tão opostos, os dois.

Minha avó guarda uma caixa velha no armário, cheia de fotos da família em preto e branco, cartões de natal e aniversário. Folhetos, boletins da minha mãe. Com um jeito meio displiscente, meio precioso. Eu já era adolescente, e por algum motivo eu olhava a caixa perto dela. Notei, pela primeira vez, que os cartões que meu avô tinha lhe mandado, durante o namoro e nos primeiros anos de casado, eram escritos com uma caligrafia caprichada. Espantei-me. As mãos de pintor do Zé dificilmente teriam mobilidade pra tantas voltas e enfeites. Ele devia fazer um esforço dos diabos pra escrever pra sua Zá.

- Que letra bonita o Zé tinha!
- Não é dele - ela riu-se. Ele pedia pro irmão escrever.
- ...
- Mas não conta pra ele que eu sei.

O malandro nunca desconfiou que a Zá soubesse do segredo de seus galanteios. Nem sei como ela descobriu, embora a trapaça fosse quase óbvia. Mas a delicadeza dela me deu um estalo; porque ela fez parecer que essa história, velha de uns 50 anos, era uma bobagem. Mas não era. Meu avô encomendava os cartões pro irmão mais letrado, achando que assim conquistaria a moça enfezada; mas desde sempre foi ela - quem diria! Foi ela, discreta na sua malandragem, que fez o flerte durar.


4 pessoas pararam por aqui:

Edi disse...

Só prá variar, fiquei muito emocionada com o seu texto. E orgulhosa de ser fruto dessa história, e me divertir, todos os dias, com os dois... "paxão"

Thiérri disse...

vale um livro

aline disse...

vale mesmo. a história deles é fo-da.

aline disse...

ah, mãe... :)

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