20.10.08

Consumo Sustentável

Acho que há um grande mérito na intenção de alguns trabalhos relacionados ao consumo sustentável e, em parte concordo com o que tentam trazer à baila. Mas....

... mas não consigo esquecer de alguns comentários que ouvi um tempo atrás sobre a criação do conceito de consumo e de consumidor. E acho que muito dos problemas que enfrentamos são graves e continuarão graves e sem uma solução fácil enquanto forem postos em termos de consumo. Vou me explicar:

Assim como o conceito de desenvolvimento sustentável nasceu da parte de pensadores econômicos, bem cedo, em resposta à discussão sobre a sustentabilidade - que nasceu sem desenvolvimento na frente, e teve sutilmente embutida, daí para frente, a idéia de crescimento como necessidade - o conceito de consumidor nasceu em resposta similar à idéia, incômoda e restritiva ao mercado, de cidadão. O consumo daí pra diante associou nossos direitos e nosso poder de decisão a um produto comercial e não mais a uma infraestrutura útil como seria se chamássemos de (e tratássemos como) uso.

Ironicamente, há empresas de serviços que começaram a adotar uma nova nomenclatura - usuário - para preparar campo de manobra para uma possível abertura de brecha legal na pedra fundamental de muitos dos nossos direitos: o código do consumidor. Isso, evidentemente, só pode acontecer - e torna evidente o problema - porque o código diz respeito aos nossos direitos enquanto - e apenas enquanto - nos encaixamos no papel de consumidor. Deixe de consumir e nada do que está escrito se aplica.

Você não acredita que a situação seria essa? Imagine e tente descobrir a que mecanismo, entidade ou suporte você poderia recorrer se ganhasse um computador de presente e ele pifasse. O código do consumidor se aplicaria se você fosse o atual dono do produto, o que deve ser comprovado sempre através de nota fiscal da compra. Fora desta hipótese (a de comprovar seu encaixe como consumidor num sistema comercial), não há na nossa sociedade nenhuma forma organizada e dedicada a consertar computadores e assim suprir a necessidade da pessoa que o usa.

E quanto a algo mais básico e mais essencial, cuja necessidade por parte de todas as pessoas é inegável, não pode ser posta como futilidade ou luxo reservado "aos que podem" ou aos que "fazem por merecer"? Temos algumas coisas como educação, saúde e de quando em quando transporte, oferecidas gratuitamente e regidas por regras de saúde, de educação, etc. No entanto, o que é mais inegavel e iminentemente essencial a qualquer ser humano é a alimentação e esta - surpresa! - não é oferecida de graça de forma sistemática a todos, não é regida por leis de alimentação. Fique sem dinheiro e será impossível seguir as recomendações médicas para uma alimentação saudável.

Pior pro ambiente, na medida em que consumir pressupõe a inutilização do que se consome, enquanto a preservação do ambiente pede o exato oposto, o uso de forma que cada coisa dure o máximo possível, evitando ao máximo repetir o impacto de nova fabricação.

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