21.10.08

do fascínio que a morte causa: I

Eu tinha 6 anos quando eu soube que existia a morte e que as pessoas podiam simplesmente desaparecer. Minha vizinha morreu atropelada, num dia em que eu fiquei esperando ela chegar na escola com uma boneca pra gente brincar no recreio. Eu lembro que a Roberta faltou, e no fim da tarde a professora contou pra gente que ela tinha sido atropelada. Em casa eu vi minha mãe chorando e conversando com a tia dela pelo telefone. Eu fui ao velório muda, e assim permaneci, porque eu olhava pro caixão fechado e não conseguia estabelecer nenhuma relação entre ele e minha amiguinha. Era como se ela não estivesse mais em lugar nenhum, e sobretudo não naquele caixão branco.
Na segunda vez, eu tinha 9 anos e minha tia mais querida descobriu que estava com câncer em fase muito avançada. As poucas vezes em que eu a visitei, nos 3 meses que sucederam até sua morte, eu a olhava de um jeito diferente. Tentava descobrir o que nela demonstrava que ela iria morrer. A calma com que ela aceitou tudo – ou demonstrou aceitar – me deixava perturbada, porque diferia muito das reações das pessoas da família quando não estavam com ela. Foi no velório dela em que eu toquei pela primeira vez um corpo morto, e a gelidão de sua mão me assombrou.
A terceira vez foi a pior de todas. Há 3 anos, no fim do último semestre da faculdade meu melhor amigo se suicidou. Eu não esperava, eu sequer podia suspeitar que as coisas tinham atingido tal dimensão pra ele. Eu sabia que ele estava meio transtornado com algumas coisas, mas nunca, nunca eu sequer pensei que talvez ele pulasse da janela. Até hoje eu lembro demais do jeito com que o irmão dele ligou pra dizer “Aline, o Leandro fez uma besteira”. O que mais doeu foi ver o nome do Cepacol na placa do cemitério da Consolação, indicando a sala do velório. E quanto mais eu olhava pro corpo, menos conseguia refazer mentalmente o trajeto que o teria levado da casa do pai em frente à praia até um quarto de hotel nos fundos de São Paulo. Quanto mais eu sabia os detalhes das últimas horas de vida dele, menos eu reconhecia meu amigo de adolescência. O corpo parecia um boneco de cera, maquiado em demasia. Meio roxo, meio disforme. A imagem já reapareceu em diversos, diversos sonhos. É meu pior pesadelo.
Meu último e mais recente contato direto com a morte foi ano passado, com minha avó. Depois de meses em coma, ela morreu no hospital. Morreu do mesmo jeito que passou a maior parte da vida: sozinha, completamente sozinha. Meu pai estava tão abalado que nós todos descemos até a parte do hospital em que ficam os corpos antes de serem encaminhados ao IML. Eu não tinha conseguido visita-la em todo o período de coma, mas agora eu tinha que lidar com seu corpo morto, na minha frente, áspero como um cacto.
Eu sei que essas imagens de morte estão voltando todas agora por causa da Eloá. E eu decidi escrever um post porque na tv estão mostrando as pessoas que foram ao velório. Algumas passam olhando mais para as câmeras do que para o caixão. Outras ainda param para tirar foto com celulares ou aparelhos digitais. E isso me deixou muito perturbada, e antes que eu fale – de novo, aqui – sobre morte, eu preciso lembrar de onde eu falo, e porque eu falo.

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