21.10.08

do fascínio que a morte causa: II

Eu entendo que a morte causa tantas reações e que nossa relação com ela pode ser muito complicada. Entendo que em mim especificamente ela causa fascínio e repulsa, ao mesmo tempo. Todas as vezes em que eu estive próxima de um corpo morto, tive dificuldade de tirar os olhos. O que na criança era curiosidade, persiste na adulta como morbidez. Entendo que eu possa ser uma pessoa com tendências mórbidas, dado o fascínio que a morte causa em mim. Em minhas tentativas de encontrar no vivo aquilo que lhe adianta a morte e, no morto, aquilo que lhe lembra a vida. Acontece às vezes com os peixes do meu aquário, quando morrem: um peixe morto boiando não é a mesma coisa que um peixe vivo nadando. Mas, às vezes, por uma fração de segundos, parece que lembra. E essa fração de segundos em que os movimentos de vida e morte se assemelham, esse instante me fascina. Que fique claro, um fascínio muito específico. Que vem do pavor, do sentimento ambíguo de que algo deixou de existir – a pessoa andando, falando, sorrindo, retribuindo meus sentimentos – e ao mesmo tempo de algo que nunca vai desaparecer por completo – meu afeto, minhas lembranças, minhas saudades, meus remorsos. É muito difícil, pra mim, lidar com essa dualidade da morte, porque ela sempre surge mais forte na frente de uma evidência incontestável: o caixão na minha frente, a mão gelada, meu amigo machucado, minha avó encolhida.
E então é chocante pra mim ver as pessoas tirando fotos do caixão e do corpo da Eloá. Esse é um traço de morbidez que eu não entendo, por mais que me esforce. Porque parece uma espécie de atração, ver o que sobrou de uma menina que apareceu na tv dias atrás, cuja vida foi exposta em rede nacional, por cujo destino as pessoas rezaram e etc. Os últimos dias dela estão sendo repetidos à exaustão, cada imagem, cada som, tudo cercado de especulações e minúcias. A fetichização da intimidade passa dos limites, nessas horas, porque não bastando apropriar-se da vida, as pessoas apropriam-se da morte. Mesmo daquilo que há de mais ínfimo e mais poderoso: um corpo num caixão. Eu fico com uma sensação de ter assistido a um ritual de antropofagia, mesmo, com as pessoas passando numa fila em frente da moça e parando pra captar uma imagem dela. Pra guardar a imagem, sem nenhuma metáfora. Talvez pra postar a imagem web afora, pra que outros possam procurar e ver.
Eu sou atéia, mas até pra mim isso é profanação demais.

3 pessoas pararam por aqui:

Thiérri disse...

sem comentários... odeio tanto essa menina Eloá quanto odeio a Isabella!!!
muita gente morre e ninguém liga... só porque a TV mostra ela não torna especial... é frio mas a conta é uma só... morreu uma menina ela doou sete órgãos e salvou sete pessoas... SALDO DE POSITIVO!!!

lu disse...

é chocante pra mim também que tantas milhares e milhares de pessoas tenham ido ao enterro, gente que nem conhecia eloá nem a família. vira um circo, onde bater foto da menina morta é só mais um elemento... sei lá. muito errado isso tudo, mto estranho.

aline disse...

Thierri, eu não odeio a Eloá pq, bem, ela está morta. Na história, ela se ferrou mais do que qq outro, mais do que eu e você que tivemos q aturar a imprensa. Vc tem razão, ela não é especial, mas tbm não é insgnificante como todos os outros mortos parecem ser para a sociedade. E as condições em que ela morreu, tudo isso, pra mim, deve ser debatido sim. Por uma série de motivos, que estão bem discutidos num link que a lu deixou no blog dela.

Lu, eu tenho muita dificuldade em lidar e aceitar a morte. Mas me pareceu que esse povo não tava elaborando luto coisa nenhuma, eles estavam mais é querendo participar desta realidade romancizada da menina. O horror.

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