30.10.08

do racismo

Em frente à escola em que meu pai trabalha, uma funcionária foi roubada por um rapaz quando ela chegava de manhã pra trabalhar. Pegaram o cara. Era um rapaz negro, que depois e tomar uma surra, devolveu as coisas da mulher. A Rose, uma das merendeiras - uma mulher negra - diz: "Era preto o bandido? Filho da puta. Não é possível. Agora que a gente tá aparecendo na tv, em comercial, agora que a gente tá bem na fita, vem um desgraçado desse e suja nossa cor. Se fosse branco eu não ligava. Mas preto não pode fazer essas coisas, não."



O Alex fez uma série de posts* que abordam o racismo. Passei por lá pra conversar, e cá estou linkando e escrevendo mais um pouco. Eu acho que urge falar disso. Histórias pra contar há aos montes, cada um tem uma. Geralmente, a gente conta a história de um ex-colega da escola, da faxineira, etc. A blogosfera - quero dizer, este círculo de blogs mais críticos, de esquerda - conta, de modo geral, com a participação de internautas da classe média esclarecida e politizada, que foge das novelas, desconfia da imprensa e não se organiza em movimentos sociais. Estou imaginando, assim, uma maioria de internautas brancos. De onde vêm este monte de histórias a respeito de conhecidos que já foram discriminados, mas pouca experiência efetiva no assunto. Ainda de modo geral, as críticas ao racismo vêm sempre elaboradas, com um suporte teórico e uma clareza de entendimento dos processos discriminatórios bem razoável.
Aí eu lembro da história que resumi logo acima. A Rose não tem estudo. Ela encarna a classe C da maneira mais completa que eu imagino: casada, negra, quatro filhos, moradora de periferia, evangélica, prestadora de serviços básicos na prefeitura, vende avon e bijuteria, corta cabelo e faz a unha da mulherada da direção da escola, anda de bicicleta e busão. Sem contar com todo o suporte teórico de que dispomos eu e a maioria dos internautas nestas bandas, a Rose tem uma noção muito clara do que é o não-espaço na sociedade. Ela estava brincando. Mas não estava tanto assim. Porque ela *sabe* que, de fato, os negros só começaram a ter algum espaço nos veículos de comunicação agora. Só recentemente foram incorporados em comerciais e novelas. E que isso indica algum grau de aceitação do negro - algum. E ela *sabe* que a ligação entre pobreza, criminalidade e raça é feita quase imediatamente, e que isso ameaça constantemente esse espaço dos negros na sociedade, conseguido a duras penas. Sob o crivo da concessão dos brancos.
Então o que a gente consegue formular com a ajuda de livros, professores e pensadores de esquerda, a maioria das pessoas negras entende desde sempre, porque é assim com elas. Eu corcordo com o Alex, quando diz que seus leitores acham que não existe racismo porque nunca sentiram na pele. Não é metáfora. O racismo se sente na pele, é o olhar do outro sobre seu corpo, seguido de desaprovação. De alguma restrição, de algum "mas".

Eu acho muito difícil "colocar-se no lugar do outro". A alteridade não é uma cidade vizinha que se visita no fim de semana. Não é uma experiência facilmente acessível. Eu temo um movimento meio brócolis-otimista que combate o racismo pela via do "somos iguais". Não acho que somos. Pelo menos num país em que a escravidão ainda tem mais tempo de casa que a liberdade, e que os mecanismos de exclusão ainda agem fortemente, acho uma hipocrisia sem tamanho dizer que somos iguais. Como se as diferenças muito bem marcadas até agora simplesmente desaparecessem e dessem lugar ao Édem racial, em que todos convivem e se reconhecem uns nos outros. Eu tenho medo da igualdade na medida em que ela força a aceitação aniquilando as diferenças - "somos todos humanos". Bem, quisera eu que as pessoas todas pudessem viver em sociedade sob essa chave metafísica de Ser Humano, mas ainda não dá.
Por isso eu acho que há coisas que não se deve ceder. Travestir o racismo em preconceito social - e jogar a batata quente pras medidas econômicas do governo. "Sem pobreza, eliminamos o fator causador do preconceito". Uma ova.

Prezo muito o espaço da resistência, do enfrentamento. As pessoas são diferentes, têm passados individuais e coletivos diferentes, e devem poder coexistir socialmente, num mesmo patamar de dignidade e possibilidades. Eu digo isso porque não tenho nenhuma idéia de solução pro racismo. Nenhuma. Só acho que o debate deve ser colocado constantemente, no âmbito doméstico, privado, e no público e político. Acho que enquanto as pessoas e comunidades não puderem observar essa coexistência, de fato, é porque alguma coisa está errada, e as práticas e estatutos devem ser postos à prova - de novo e de novo.


*Links pra série do Alex, no LLL (com destaque pras caixas e comentários, que são sintomáticas).

Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório

4 pessoas pararam por aqui:

Thiérri disse...

Racismo é coisa séria... eu não sou racista, mesmo porque um dos meus amigos de infância, o Diogo, é negro...
Fato é que até hoje ninguém descobriu uma maneira de acabar com essa praga.
O que deve ser feito é continuar tratando racismo e todo preconceito como crime.

mas se tem uma coisa que me irrita são termos como "de cor", "de pele"...
o termo "negro", embora correto me incomoda, é como se o termo fosse usado para não dizer "preto"...
pra mim é branco, preto, amarelo e quando os ETS estiverem entre nós, serão os verdes!

Thiérri disse...

deleta esse e o primeiro comentário pois ele começa no Cismo... esqueci de escrever o RA
beijos

aline disse...

Oi Thi

Isso que vc falou é uma coisa importante, de criminalizar. Dá conta de boa parte das expressões e ações discriminatórias, inibe certas grosserias.
Mas não dá conta de tudo. Porque a lei (ainda bem) não atua sobre os sentimentos e idéias das pessoas. Mesmo que nunca fale, alguém pode ter preconceitos contra os negros. Eu acho isso ruim em si, ainda que muito pouco importante se, afinal, a pessoa mantiver o devido respeito. Mas esse sentimento ainda pode gerar discriminações mais veladas ou despercebidas pela lei, como um critério de seleção de emprego. Ou a quantidade de atores negros na novela. Esse tipo de coisa. Acho que junto com a crminalização é importante que as pessoas pensem a respeito de seus preconceitos, é um processor de análise e descontrução. Longo, trabalhoso.

Eu não tenho nada contra a palavra "preto", a princípio. Isso é arbitrário, em francês o poiticamente correto é "noir" (=preto) e é ofensivo dizer "nègre" (=negro). Mas, de novo citando o Alex, quem sabe da ofensa é o ofendido. Se a comunidade afro-descendente diz que o termo é ofensivo, eu concordo sem pestanejar.

Jurandir Paulo disse...

Perfeito post, ótimo o blog de vocês. E sejam bem-vindos a ainda cidade maravilhosa.

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