10.10.08

luisa não esquece

Tudo começou com uma crônica. A revista Trip publicou um texto do tal Henrique Goldman, em que ele pede desculpas a Luisa, uma antiga empregada da família que ele estuprou. Quando ele tinha 14 anos. Acontece que a revista e o babão esqueceram de mencionar que se tratava de um texto ficcional. E causou o rebuliço entre os leitores, óbvio. Há 431 comentários, até agora, e certamente outros virão. E os posts e comentários de posts, blogosfera afora. A retratação da revista e do babão não amenizaram a indignação das pessoas. E nem deveria.

Pra começar, a "crônica" é de uma obviedade cansativa, pois o babão tentou criar um narrador-personagem cujo perfil psicológico seria equivalente aos dos garotões de classe alta e média alta que espancam prostitutas e queimam mendigos depois da balada. O estereótipo, mesmo. Mas o que o babão conseguiu foi dar um tiro no pé, já que a platitude do texto só aponta a platitude do autor. "Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego." - ele diz. Quer dizer, o ex-playboyzinho-hoje-marmanjo-mais-jeitosinho-com-as-mulheres tem alguma consciência política, nem que seja a do movimento "Cansei". É assim que ele - o babão radicado na Europa - faz uma crítica à elite endinheirada e indiferente à classe pobre e trabalhadora. Expondo o cinismo deles. Com citação do título Casa-Grande e Senzala, ainda por cima. O requinte da ironia, da mente esclarecida. Sacaram? No ano em que a gente celebra Machado de Assis, por conta dos 200 anos de morte dele, o babão vai e faz uma cagada dessas.

Mas tem outra cousa que me intrigou nesta história toda: a adesão em massa de pessoas revoltadas com a revista e o babão. A leitura do texto não resiste a uma segunda vez. É absurdo, clichê, ofende a inteligência dos leitores. Um nojento desses fazer uma coisas dessas, esperar que anos passem para, enfim, escrever uma coisas dessas, num tom desses. Uma piada de mal gosto, e mal elaborada. Contudo, muita gente - eu incluída - acreditou que era verdade. Claro que a responsabilidade é da revista e do babão, que deveriam - já que insistiam em publicar o lixo - avisar que se tratava de um texto ficcional e blá.* Mas, ainda assim, acho que a reação forte e imediata das pessoas diz algo sobre o tipo de coisa que nós esperamos do machismo, do sexismo, do preconceito de classe no país. Acho que a gente espera o pior, mesmo. Porque estamos meio que habituados a horrores como espancamentos, estupros, assédios, humilhações. A única coisa que eu gostei, afinal, é que as pessoas não são refratárias a esta história (verídica ou não), e se posicionam, reproduzem o fato e as críticas a ele, discutem e mantém-no em pauta, para que a violência contra a Luísa não se naturalize, não seja digerível e aceitável - nem de brincadeira.

* Eu ainda me pergunto se este texto poderia existir, assim, exatamente como está, onde está. Mesmo com o aviso de que é fictício. Porque há liberdade de expressão, e tal, mas o texto é ofensivo. Ele causa - pelo menos em mim - uma reação bem forte. Não sei, não sei.

update. há um post muito bom, aqui, a respeito. E o texto na íntegra, eu sei que tem aqui, na Mary. Porque a epígrafe sem noção eles já tiraram no site da Trip. Vai saber o que mais eles vão "cortar".

2 pessoas pararam por aqui:

Camila disse...

aline, discordo de você no seguinte ponto: enquanto texto ficcional, acho a carta fantástica, e bastante representativa sim do playboy-que-espanca-mendigo (esse é um estereótipo, claro - mas, como todo estereótipo, baseado em algo da realidade; e a carta não ficou nada estereotípica, a meu ver, tanto que quase todo mundo acreditou na não-ficcionalidade dela). O problema é que ninguém ficou muito convencido de que o texto é ficcional, dada a postura bizarra da revista de avisar isso apenas depois da chuva de reações indignadas...

Vou te citar lá no Alex, porque ao que parece ele copiou o texto já editado da Trip. Beijos!

aline disse...

Oi Camila!

Olha, acho que o fato de as pessoas acreditarem que a carta não dá a ela um estatuto de, sei lá, "profundidade psíquica" ou verossimilhança. Alias, é justamente o que eu disse: é meio impressionante que tanta gente tenha achado que é verdade, pq lendo uma segunda vez, fica meio óbvio que não é. Que não tem nexo: ele se arrepende, e ironiza, insinua que tvz ela ria.Pq acho que arrependimento e ironia são falas que vêm de lugares diferentes. De situações diferentes. Mas, que seja.
É que entre o estupro e o, sei lá, reconhecimento, teve uma tomada de consciencia: eu tenho raiva do brasil, eu to falando agora pq tem muitas luisas.... Acho que se não tivesse isso, essa consciencia política social no meio, ficava mais fácil de digerir enquanto texto literário. O cara achou que deu mancada, e pede desculpas. O que passou, passou, e resolve - isso seria um estereótipo da figura do playboy. Mas o viés social ficou artificial, pq o autor quis coloca-lo no meio da fala pra ridicularizar o narrador. Tipo, "olha como os ricos pensam o brasil, ignoram que são eles os culpados, que sao eles que fodem tudo". E aí fica forçado. Pq é como um estereótipo do estereótipo.


Eu vi a discussão no LLL, queria muito, muito participar, mas eu to meio atrapalhada pra ler tanto. é uma pena, pq qdo eu tiver mais livre, vai ter passado a hora, e etc.
POde linkar a vontade.
bjos

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