2.10.08

metáforas na hora de ir embora


Atualmente, vou e volto do Rio como fazia, há um ano, o roteiro Butantã - Vila Madalena. Acho que viajei quase todas as semanas, nos últimos dois meses. E tenho achado tudo um pouco difícil demais. No Rio, olho as ruas, os ônibus e o mapa na minha mão, fico achando que meu lugar não é lá. E, voltando, tenho a impressão de que são Paulo também já não é mais.
Conheço minha dificuldade em criar laços em cidades novas. Eu tinha nove anos quando meus pais saíram de São Paulo e foram morar na praia. Eu odiei. Hoje, eu curto a idéia de morar perto do mar, mas continuo detestando a cidade. Aos 17 eu voltei pra sampa pra estudar, e até que foi bom. Mas eu voltava quase todo fim de semana pra praia. E agora eu saio de São Paulo, de novo, e vou morar no Rio.
E eu fico tentando achar metáforas pra explicar pros outros como eu me sinto. Porque a linguagem que eu sempre usei não tem dado conta de tanta, tanta coisa. Preciso de constantes aproximações, comparações. Digo as coisas que amo de maneira simplificada. "São Paulo é igual a: minha estante de livros, a coleção de filmes, as músicas que eu ouço com a Dani, o feijão da minha avó, o aquário do meu pai, com os peixes de nomes franceses (Benoît, Maurice, Mathieu), as piadas do Filipe, as conversas com a minha mãe, a voz terna e a risada do meu avô, o corredor do crusp, os passeios com Paulo, as ruas que a gente percorria de manhã, os encontros casuais com amigos e colegas, o restaurante japonês na Cunha Gago". Cada uma dessas coisas são muito significativas em si, mas de alguma forma estão ligadas ao resto. Como um móbile. Que eu contemplo. Tudo suspenso, singular e seguro por uma base comum. É uma bobagem, claro, tentar listar tudo o que é importante ou bacana pra mim, porque não dá. Eu não gosto apenas de deterimandas cenas, ou pedaços das pessoas. É algo bem maior, mais profundo e caótico. E é bobagem cristalizar uns poucos recortes, como um pequeno santuário sentimental. Eu me sinto meio boba, mesmo, atualmente. Colecionando coisas das quais quero e, pior, preciso lembrar. Porque quero que estejam intactas quando eu voltar. É ridículo, mas houve um pequeno momento em que me senti confortável num taxi parado no trânsito da Teodoro Sampaio, semana passada. Super compreensiva com aquele trânsito e aquela demora. Eu, que nunca gostei da pedra no meio do caminho.
Eu acho que é porque eu não consigo sair daqui por inteiro. E não consigo estar lá por inteiro. Tem coisas aqui que eu não quero abandonar. Eu sei, não estou abandonando. Mas, no fundo, acho que estou, sim. Enfim. E tem coisas lá que eu estou disposta a amar. Mas que ainda não são, assim, fundamentais. Ainda. Eu mesma estou no meio do caminho.

Tenho sonhado com coisas estranhas: ontem à noite eu tentava andar pela casa, mas ela estava cheia de areia, até o nível da cintura. Era muito difícil me mexer. Eu não podia sair do lugar. Outro dia, eram meus dentes que se desfaziam na boca. Viravam areia. Uma coisa horrorosa.
Outras metáforas, claro.


Quadro Sangue de Peixe, de Gustav Klimt.

3 pessoas pararam por aqui:

Theo Weissmann disse...

Fossemos crianças resolveríamos bem algum problema de areia, sobretudo a presença ostensiva dela, afinal, comeríamo-la sem culpa. Ela é peculiar, tem textura pérfida, fofa (ou pedregosa) e às vezes tem cocô, que é -notemos - muitíssimo familiar a nós quando crianças; quando conhecemos detalhadamente nossos ranhos e subtrações corporais em geral.

Mas nada tema: meu blog relaxa (a priori). É uma questão de tempo: você lê, fica nervoso e depois se lembra de como era melhor não ter lido. Aí é o momento do para-si e do um-para-o-outro, isto é, felicidade.

Thiérri disse...

Não fiz psicologia mas darei o diagnóstico segundo Freud... esses sonhos com areia tem algo a ver com um problema sexual qualquer!!!

De Praia Grande para o RJ... não sei qual é pior... que vocês consigam ir para Bahia!!!

Paulo disse...

É... por essas e outras eu tenho minha antipatia por Freud.

Dentes virando areia provavelmente dariam em 99% da humanidade um desespero alucinante, medo pânico de lembrar que dependemos do corpo - esse pedaço de carne torta e hesitante - pra continuar pensando, sentindo, tocando nossos assuntos e planos pra frente. E a cereja do bolo nesse pânico: não saber se quer se o processo para por aí e vamos viver - sem dentes - pra tirar mais uma lasquinha da nossa vida.

Mas tudo bem... isso também se resume a sexo (ou cocô, para esse efeito).

:P

Postar um comentário

Diga lá.