14.10.08

reedição: domésticas

A verdade sobre o céu da Irene
(pode ser cantarolado em melodia de marchinha)

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença. A vassoura tá aí no canto, pode começar a varrer...


É a primeira vez que o Jusqu'ici republica um post, e eu acho que este vem a calhar. Eu escrevi essa paródia do Bandeira faz uns anos, já. Foi um dos meus primeiros posts, e um amigo gostva muito dele. O resto é inédito.



O Alex tem razão, no Brasil, a relação que se estabelece com as empregadas domésticas tem um ranço forte da escravidão. E, olha, nem é só com as domésticas, é com o baixo escalão todo: serventes, lixeiros, faxineiros, frentistas, copeiras, garçons, caixas de mercado, balconistas, lavadeiras, entregadores, pedreiros, pintores, porteiros. Mas com empregada doméstica é pior. Porque elas sofrem, como os outros, uma espécie de reificação, uma assimilação completa de sua função à sua existência. Quem lava os pratos parece que nasceu fazendo isso, vai morrer fazendo isso e nenhuma subjetividade lhe é concedida. Nem bom dia. Eu sei, porque meus sou filha e neta deles. De peão. Meu pai sofre muito com isso, porque na escola em que ele trabalha nem os professores dão bom dia. Ele serve a comida e é tratado como se fosse só isso, o cara da comida. Mas então, com as domésticas também é assim. Mas elas ainda têm acesso à intimidade dos patrões, e é tempo integral. São meio que invasoras, o outro dentro de casa, aquela que limpa, varre, cozinha, mas pode cobiçar, roubar quebrar. Cujo corpo está disponível às investidas dos homens, à vigília das mulheres. O filme Domésticas é ótimo, porque mostra isso muito bem - sem, contudo, o assédio sexual que existe em muitas casas. E adoro também o fato de não aparecer nenhum patrão sequer. As personagens todas são empregadas ou pessoas do baixo escalão. E as músicas de rádio, os problemas, várias coisas. Não sei se a intenção do filme é mostrar que elas são gente como a gente (as vezes eu acho que sim, e isso me deixa um pouco irritada), pq a identificação pode ser perigosa. Gosto que se marquem as diferenças, que sejam claras e que gerem aceitação do outro, nem repulsa nem condescendência. Mas isso já é outra coisa. Eu acho muito engraçado quando as universitárias saem do Brasil pra ser babá na Europa ou nos EUA. Porque trabalhar com serviços domésticos lá é muito diferente daqui. Quando se é universitária, claro. Aí a função ganha um status. Porque aqui o problema não é varrer lavar passar, acho. É ser pobre, negra - ser doméstica e não estar doméstica (essa é uma frase do filme que eu gosto muito), além do fato de a palavra doméstica estar tanto na profissão dessas mulheres quanto na expressão de animal doméstico. Com todo o amor que eu tenho aos cães, gatos, peixes, pássaros, lagartos e chinchilas, animal doméstico não é pessoa, pessoa. E a doméstica as vezes também não é, então, a coisa é complicada mesmo.


Eu ainda vou escrever algo mais decente a respeito, mas não às 4 da manhã. Porque pra mim é uma questão, mesmo.

Eu ando lendo tanto a Mary W. que eu acho que estou pegando um pouco o estilo dela escrever, que deve ser parecido com o jeito dela de falar, e que é parecido com meu jeito de falar também. Aliás, eu acho muito legal o jeito que ela escreve, só espero que ela não se sinta plagiada, porque não é deliberado, eu simplesmente comecei a escrever aqui como se estivesse conversando. Mas, claro, é só o estilo, porque a capacidade crítica e interpretativa dela, a cultura, e tudo isso, eu não chego nem perto.

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