22.11.08

admirável mundo novo


Li tardiamente o romance Admirável mundo novo, de Adous Huxley. Ou melhor, acabei ontem de lê-lo. É definitivamente um clássico, em várias das definições que Italo Calvino propôs em seu livrinho Por que ler os clássicos?, dentre as quais aquela que diz mais ou menos que "um clássico é um livro que você sempre estará relendo" foi a que mais me perseguiu. Explico. Todas as vezes que eu mencionei nunca ter lido Admirável mundo novo, a reação era "Oh, você nunca leu? Tem que ler". Ler este livro pela primeira vez aos 24 anos parece ser chocante. Será que todo mundo leu quando era criança? Que é um clássico infanto-juvenil e eu perdi meu tempo com a série Vagalume? Bem, era isso que eu queria descobrir nesses recentes dias de folga.

Receio estar com minha sensibilidade embotada, porque o livro não me impressionou. Talvez o fato de eu esperar ficar chocada atrapalhasse, mas nada naquelas páginas me estimulou. Reconheci, sim, a sociedade de controle, o hedonismo maquinal, programado e permitido, a ciência a favor do consumo. Aí acaba a parte interessante. Que, para ser franca, achei superficial. Vou sempre por em conta essa minha sensibilidade embotada por discursos críticos da sociedade moderna, pós-moderna, ziper-moderna, desmoderna, e vou manter em mente que o livro foi publicado em 1932, e que isso demonstra o potencial crítico e ousado do autor para a sua época. Mas, olha, também vou manter em mente que Marx já tinha feito importantes críticas à sociedade moderna e que na época da publicação do romance essas críticas já estavam razoavelmente bem digeridas. E que o Kafka, então falecido há 8 anos, já tinha escrito toda sua obra e a maior parte dela já estava publicada e traduzida. Relativizações feitas, vamos à minha infâmia.

As ficções científicas, geralmente, vêm carregadas de um descontentamento com a situação presente. Há quase sempre uma transposição temporal, seja ao passado, seja ao futuro. E quase sempre há modificações estruturais nas sociedades encontradas, assim como alguma manutenção de elementos do presente de que se escapa. Pra que a comparação seja viável, pra balizar o enredo e as personagens. Então a estrutura do livro não me incomodou. Incomodou o conteúdo, mesmo.
O romance é tão moralista, que logo eu comecei a enrolar pra continuar a leitura. Cansei, mesmo. Eu estava achando divertida toda aquela desconstrução dos valores sociais vigentes tipo núcleo famíliar, comportamento sexual, monogamia, religião. Quer dizer, a moral e os costumes são elementos variáveis e culturalmente dados (ótimo, ótimo, vamos em frente). E apostei que o Bernard Marx ia virar uma espécie de anti-herói e que iria bagunçar o coreto. Que nada. Ele encontra os selvagens, presencia uns rituais malucos que misturam tudo que é religião (ok, legal, vamos em frente) e leva o bastardinho-meio-selvagem-meio-civil pra Londres e... tenta se adequar. Depois de conhecer novas formas de vida, o cara vai e quer aderir ao sistema que ele mesmo detesta. E então cria-se um maniqueísmo: o selvagem de um lado, a civilização de outro. No romance, os caras são normais e o selvagem é um elemento exótico. Mas aos olhos dos leitores, a polarização não se dá da mesma forma. O selvagem é o cara sensível, lúcido, corajoso, crente. Aquela sociedade é degenerada, cruel, castradora. E Huxley não poderia ignorar que seus leitores se identificariam com o selvagem. A partir de então, o romance tem uma função moralizante. Sai para fora de si mesmo, com uma defesa implícita aos valores vigentes na sociedade real, e uma crítica irônica aos valores vigentes na sociedade fictícia.
Quero dizer, o que se torna chocante no "mundo novo" são os mecanismos de controle, de opressão à individualidade, à criatividade ligados exclusivamente a um sistema de valores. E como o romance oferece um contra-ponto a este modelo (que é a sociedade arcaica, ou seja, a nossa) ele passa a ser o único. Ou existe a sociedade doentia das famílias, da monogamia, da mortalidade - ou existe a sociedade da liberdade, da felicidade, da beleza. E o leitor é levado a preferir a primeira, aceitando contente os valores que ele já conhece. Como se esta sociedade arcaica não dispusesse de mecanismos de controle e opressão. O selvagem, que é então o herói, pasa o resto da vida se auto-flagelando. Purificando-se como um monge da Idade Média. Ele até chama a Lenina de rameira, vagabunda e tudo, quando ela quer transar com ele. Porque a relação dela com o sexo é natural. E depois ele chicoteia uma mulher, porque a turba que vai assisti-lo fica extasiada. E pedem pra ele chicotear, e ele chicoteia mesmo. Como se fosse purifica-la. Não achei provocação, achei que o livro se torna profundamente moralizante.
Tem uma passagem que chamou especialmente minha atenção. O Bernard Marx tá super a fim da Lenina. E ela pode e quer sair com ele, assim como ela pode e sai com outros caras. Ele ouve uns colegas comentarem que ela é bonita e gostosa, eles a recomendam uns aos outros. E o Bernard fica puto com isso. E depois ele fica ainda mais bravo, porque ela aceita o convite dele e deixa claro que vai haver sexo. E ela age com naturalidade. E ele fica remoendo que "até ela se considera só um pedaço de carne, isso é o que doi mais". O livro fica martelando isso o tempo todo. Que com o sexo liberado as mulheres são tratadas como mero pedaço de carne. Eu não sei interpretar isso, senão como uma concepção extremamente machista. Aliás, a sociedade arcaica tinha algo melhor a propor? As mulheres na década de 30 eram plenamente livres, respeitadas, tinham várias possibilidades abertas na vida? Não, né?!
Porque é disso que o livro fala, de modelos de existência e sociedade melhores. De qualidade de vida. De escolhas que poucos fazem em nome de muitos. Da aceitação do coletivo. De trocar a consciência e a liberdade de escolha pela felicidade. O livro não propõe nada de ruim que já não exista. Só exagera, conjugando a piora de condições a um sistema de valores diferente. Machismo, massificação, alienação, reificação, tudo isso existe sem precisar de poligamia, sem abolir a religiosidade, a arte e a família. Então por que fazer a gente preferir a monogamia e o cristianismo?


Vou ler 1984 de George Orwell. Mas agora eu já não estou esperando nada, nada.

3 pessoas pararam por aqui:

lola aronovich disse...

Oi, Aline! Eu também só li Admirável Mundo Novo depois de adulta, e adorei! Gosto muito mesmo do livro, mas concordo que ele cai quando o selvagem aparece. Preciso relê-lo. Tenho pensado em colocar e discutir algumas passagens no meu blog pra discuti-las. Enfim, eu gosto mais de Admirável que de 1984. Mais por causa do estilo mesmo. Gosto da ironia do Huxley.

aline disse...

Oi Lola :)

Eu concordo com vc, há umas passagens bem irônicas no livro. Mas elas aparecem em quantidade quando o Selvagem entra na história. Eu tbm ia comentar sobre a participação do Sheakespeare no livro, acabei deixando de fora. De modo geral, eu não gostei do romance. Assim, não está na lista dos imprescindíveis. Mas eu reconheço que é importante, que influenciou muita gente, que lançou idéias, etc etc. Um clássico, sem dúvidas.

um abraço

Johnny na Babilônia disse...

Interessantíssima essa tua interpretação. Eu li "Admirável..." quando tinha uns 18 anos...confesso que àquela época adorei o livro e coloquei-o na minha lista de imprescindíveis. Mas depois desse post vou reler o livro pra ver se minhas idéias continuam as mesmas (provavelmente não!). Parabéns pelo post e PELO BLOG! Excelentes!

bjos!

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