28.11.08

de como meus pais se conheceram

Eu já contei aqui sobre meus avós, mas a história de casal mais legal da minha família ainda é dos meus pais. Porque ou eu acredito em predestinação, ou me entrego ao acaso. E o acaso flerta deveras comigo. Diverte-me tanto pensar que por uma questão de minutos eu nem estaria aqui postando esse texto. Aliás, eu nem estaria existindo. Oh!

É que foi assim. A causa primeira do casamento dos meus pais é o trânsito de São Paulo. Que, em meados de 80, nem era uma coisa assim, grave. Mas tinha semáforo e a Rua Augusta era apertada mesmo. Então eles pararam lado a lado, com o respectivos carros. Esperando o sinal abrir. Se olharam e se curtiram, tão entendendo? Aí meu pai perguntou o nome da minha mãe. E ela disse. E eles tiveram tempo até de trocar telefones. Na verdade, só minha mãe deu o telefone dela. O sinal abriu, eles seguiram.
A causa segunda do casamento deles é o jeito enrolado do meu avô. Mineiro. Minha mãe deveria se chamar Heydi, por causa de algum filme que meus avós viram no cinema. Mas na hora de registrar, meu avô pronunciou o nome Heydi de modo que. O escrivão ouviu "Edi". E escreveu assim, "Edi". Talvez a causa segunda do casamento deles seja a surdez deste escrivão. Ou até sua preguiça em perguntar "Como é, meu senhor? O nome de vossa filha é qual, mesmo?" Fato é que registrou-se Edi.
Vejam vocês meu pai, ainda rapaz, dois meses depois daquele episódio da Rua Augusta. Limpando a carteira, ou qualquer coisa que combinasse com sapatos de bico fino e calça boca de sino. E mullets. Bem. Ele estava limpando a carteira, certo? E jogando fora alguns papeizinhos com nomes e números de moças. Que ele nem conhecia direito. Paqueras, rolos, pegadas. E então ele viu um com o nome "Edi". Cuja dona ele não sabia quem era. Nenhuma lembrança, nenhum rosto, nenhuma referência. Edi. Ele achou que era um nome diferente. E que talvez sua dona fosse interessante. Por que não? Ligou.
Minha mãe, dois meses depois, também não lembrava daquele episódio fortuito da Rua Augusta. Quando recebeu o telefonema do Mauro, ela riu. "Não conheço nenhum Mauro, não." Ela ficou curiosa, topou o convite. Por que não?

Vão lá 27 anos de casados, hoje. Eu sei que minha mãe lê meu blog. Olha mãe, obrigada por ter aceitado o convite daquele rapazote. Foi de grande ajuda.
Ah, sim. E parabéns, 27 vezes parabéns.

***

Eu gosto tanto dessa história que isso virou um tema de redação corrente nas minhas turmas de francês. Quando eles aprendem o passé composé e o imparfait, a primeira coisa que eu os faço escrever é como os pais se conheceram. Ou os avós, ou os tios. Sempre há uma história bacana. Alguns alunos descobriram histórias interessantes por causa dessa redação. Porque nunca tinham nem perguntado. Teve uma que chegou desanimada pra mãe, dizendo que não sabia o que escrever porque a história deles era comum. Tinham sido primeiros namorados no interior, casado logo e etc. E ela precisava "encher" 15 linhas. Aí a mãe ficou super brava. Sentou a menina num banquinho e contou várias coisas. De como eles tinham conquistado um ao outro. Aquelas pequenas trapaças e gambiarras que a gente faz pra ficar pertinho, como se fosse por coincidência. A menina descobriu no pai um romântico e um malandro, olha só. Na aula seguinte ela estava toda empolgada em contar isso pra mim. E a redação dela tinha 24 linhas. Eu achei uma coisa. Teve outra aluna, que era neta de poloneses. E os avós se conheceram no campo de concentração. Eles se perderam um do outro depois que foram libertados. E se reencontraram por acaso numa rua da Freguesia do Ó. Assim, na rua. Essa aluna tinha o maior orgulho dessa história. Claro, né?

Alguém tem uma história assim pra contar? Eu disse: eu adoro saber.

7 pessoas pararam por aqui:

Edi disse...

É claro que as lágrimas estão correndo pelo meu rosto.... mas valeu tanto, tanto tudo isso, que eu não mudaria nem uma vírgula, tanto pelo seu pai, meu maridão, meu colo, meu ombro, como por vocês, valeu muito, muitíssimo tudo. Vou comemorar muito, de novo, como todo ano. Amo vocês de paixão.Obrigada minha filha.... bjs

Daniela disse...

Que coisa mais linda...

Thiérri disse...

A história é ótima... mas quem diria que um cara bacana ia, tantos anos depois, se tornar o Mauro que eu conheço?!?

A história dos meus pais também é bacana (não tanto)... qualquer dia eu te conto.

Parabéns para casal, apesar dos filhos!!!
ahuahauhauhauhauhauah

lu disse...

nossa, que história linda, a dos seus pais! que legal saber que se pode conhecer alguém tão importante assim, no farol da rua augusta!
meus pais se conheceram no bandejão. minha mãe deixou cair o papelzinho dela e meu pai pegou. Eles sentaram juntos e conversaram sobre que horror que é se ter filhos num mundo como esse...
claro que isso virou *a* piada, porque 2 anos depois eles já estavam casados e eu já estava a caminho.
o jeito que eu conheci maridão eu acho fantástico. vou te contar agora mesmo no email que tou te escrevendo.
beijo beijo!

Gabriela Galvão disse...

Por essas e outras q qd alguém me diz ingênua (por dar bola prum total estranho ou acreditar numa histórias 'mirabolantes') eu digo nanani.

Nanani!!! Eh soh q a realidade eh mt mais rica q qq ficção.

(Uma minha tia achou seu amor aos 60, casou aos 61; viajou o mundo com ele, ele ficou doente, ela cuidou dele, ela ficou doente, ele cuidou dela... E era um amor bonito de ver. Se conheciam desde criança, mas um ahora 'plin','dindon','belémbelém'...)

Mais uma arma pro meu arsenal (me chamem de ingênua e eu dou o linque desta postagem, hah!).


Bisous

aline disse...

Oi, mãe! :)

Daniela, obrigada. Eu tenho ido sempre no seu blog, simplesmente adoro. em breve eu participo mais por lá. Um abração.

Thi, vc e meu pai se merecem! ahahahahaha
Agora eu quero saber a história dos seus pais. Conta aqui, vai?!

aline disse...

Lu, eu tbm adorei a história dos seus pais. Muito fofo. O bandejão, assim como fucõ, é santo casamenteiro. Eu tenho lá minhas histórias de bandejão. Acho que é o cheiro do feijão. Ou o suco amarelo, que deve ser afrodisíaco. hahahha
beijos!

Gabriela, em se tratando de acasos, eu acho que não existe ingenuidade. Conheço casais que se formaram dos jeitos mais inusitados. Então, fique a vontade pra linkar e contar essa história. De repente as pessoas se olham mais nas ruas, nos lugares incomuns. Seria tão mais divertido.
um abraço.

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