12.11.08

escola é pra vida



Eu tinha 17 anos e estava no terceiro colegial (ainda chamava assim) de uma escola pública federal quando a coordenadora e a psicóloga da escola foram na sala dizer que os programas das disciplinas seriam modificados porque o governo tinha um projeto segundo o qual a "escola é pra vida" e não pro vestibular. Veja bem, dizer isso a um grupo de adolescentes com aspirações sérias à universidade pode causar alguma revolta. Pois causou mesmo. Elas tentaram, mas não conseguiram explicar o que significava uma escola pra vida. Acho que nem elas sabiam bem do que se tratava. Diziam que a gente não devia se preocupar em decorar os conteúdos, que o vestibular não era a coisa mais importante na vida. Fácil dizer, quando você tem 40 anos, um diploma e um cargo público. Aos 17, eu e meus colegas achamos o cúmulo do absurdo.
Eu fui entender melhor do que se tratava esse "novo" projeto de escola pra vida quando estava cursando matérias de pedagogia na faculdade. Aí uma professora explicou que o objetivo da escola não é a prova do vestibular, mas tem um processo de subjetivação por trás, de socialização, de ensinar os alunos a se relacionarem com o mundo e as informações que existem, etc etc.
E meu senso de absurdo apitou. Como diabos os professores iriram reestruturar um projeto pedagógico de uma turma meses antes de seu processo escolar acabar? Olha, gente, esqueçam os três últimos anos, pensem no suporte social e psicológico que a escola pode oferecer pra vcs... Não rola.
Daí que as eleições pra prefeito trouxeram à baila todos esses assuntos "marmita de domingo": saúde, educação, moradia, segurança, transporte. O Alckimin ficava batendo na tecla "o PT implementou a progressão continuada", o Kassab falava das escolas de lata, a Marta dos CEUS. Tantas e tantas vezes a gente ouve que os alunos com ensino fundamental completo ainda são analfabetos funcionais, mesmo os formados no Ensino Médio não superam muito isso. O que fazem os alunos na escola, que depois de 8, 9 anos, eles ainda parecem não saberem aquilo que deveriam saber (nem perto disso)?
Não acho que o problema da escola seja apenas de alcance numérico: quanto mais escolas, melhor. E que o número de crianças na sala seja tbm o principal. Ou o salário dos professores, a qualidade da lousa. Acho que é porque a gente não sabe mais lidar com conhecimento. Não imagino como a escola que ensinou meu pai a ler seja igualmente efetiva com crianças que usam o orkut e celular. Quer dizer, a relação das novas gerações com a linguagem é outra. Entre os alunos e o mundo há uma camada de tecnologia, informação, publicidade que não havia há 30 anos. Mesmo sem ter um computador em casa, mesmo sem serem consumidores, a maioria das crianças no Brasil já não tem com o mundo uma relação de descoberta. Ele se lhes mostra, escancarado. A China estava logo ali, em agosto. Toda a cultura condensada e resumida entre uma luta de judô e uma partida de futebol, antes da novela. Acho que é mais uma relação de desconstrução, hoje. As coisas todas se encaixam, se misturam. Eu não consigo imaginar uma escola que seja interessante sem levar em conta os processos de linguagem que estão em jogo no mundo. As crianças sabem ler coisas que os professores, diretores, funcionários não conseguem. Como é que o conhecimento não vai passar por tudo isso antes de virar um discurso com intenções educadoras?

Toda vez que eu penso que logo eu vou voltar a trabalhar e que talvez tenha que lecionar português para turmas de crianças e adolescentes em escolas normais... isso me assombra.

4 pessoas pararam por aqui:

Theo Weissmann disse...

Quando eu já havia meio-que-tipo-assim desistido de falar sério, li este post com grande interesse. Descobri que você pode gostar bastante de Merleau-Ponty (li, recentemente, as Conversas de 1948. Foi um curso dado pelo autor através do rádio, então é muito agradável, leve e consegue ser, também, fantástico).

Passamos, junto com o filósofo, pela literatura, pela pintura, pelo cinema, e obviamente pela filosofia. Assim, desisti de fazer alemão. A desvantagem é que me perdi em Hegel..

De fato, andei pensando muito em escrever sobre a linguagem e, embora Lacan seja muito melhor que eu, gostaria de tentar produzir um discurso sobre o assunto. É bem verdade que existe um descompasso entre as gerações e é verdadeiro também que a modernidade é difícil. Partindo daí, tudo é assustador, porque não existe um "mas" que se sustente diante do mundo escancarado e inacabado. Os tradicionais, então, se entreolham e perguntam sobre o absoluto. Os modernos oferecem-lhes a internet e dizem: "e tem mais.. -pausa - a priori é o caralho!".

aline disse...

haahahhahahahahhahha
eu amei seu comentario t.!!

eu sempre fico achando que deveria falar mais de literatura e sobretudo de linguagem, aqui. mas eu tbm sempre acho que nunca tenho o que falar a respeito. as vezes é preguiça, as vezes é receio mesmo. essa semana eu decidi que só passaria se fosse com alguma leveza. nem aparei o texto, foi exagerado, do jeito que está.
Mas eu sei que é uma das grandes coisas deste tempo, a linguagem. Acho que a linguisitica e a filosofia da linguagem estão no centro do conhecimento, hj. É o jeito mais interessante de se aproximar de algo. Sei lá.
já me disseram que Merleau-Ponti é legal. Tenho muita curiosidade, é uma das coisas q está na fila. Essas conversas parecem ser otimas, mesmo (conteúdo e forma, entende?)
Bem,
Faça francês E alemão. =)

Theo Weissmann disse...

Fica registrada minha promessa de escrever algo sobre a linguagem. Já possuo até o intróito na cabeça, que produzi um outro dia, e escrevi num papel. Isso ocorrerá assim que eu ficar sabendo das notas e tal.. mas posso escrever entre o período pós-provas (terei 2 dissertações, 1 prova e 1 seminário) e pré-notas.

Vou pôr um link pra esse post, também.

Eu gostaria de ler coisas meio ensaísticas por aqui, de fato, tal como gosto de ler os textos de um economista (que não é pedante) escrevendo sobre economia, um advogado escrevendo sobre direito, um matemático falando de matemática. Ou quaisquer outras combinações possíveis.

Recomendei as Conversas por ser algo muito interessante e, sobretudo, por ser leve. Apesar d'ele estudar fenomenologia, é leve. E tem certo charme; coisa que nunca imaginei existente na filosofia, por ser algo bem pesado.

Não acho que o texto precise de revisão.
É mais provável que eu me volte aos idiomas de tronco latino mesmo. Não vou ter saco de entender nada de alemão; italiano, francês e espanhol têm, pelo menos, alguma semelhança.

aline disse...

Bom, eu desejo boa sorte no amontoado de tarefas acadêmicas. Mas eu acho que vc se sai muito bem, quando quer. :)
Gostei das sugestões - a de leitura e a de escrita. Vou tentar ser mais ensaística, vencendo minha preguiça e minha vergonha de falar das coisas q estudo. Meu superego é um chato. :P
Merleu-Ponty virá. E aí eu te encho o saco pra entender melhor, que nem o bom e velho Espinosa. hihi
eu tnm pretendo ler mais o seu blog e principalmente comentar. mas confesso que seus textos exigem mais concentração do que eu to conseguindo ter, atualmente.

um abraço pra vc, t.

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