27.11.08

escrita feminina, ainda (e além)

Eu não acredito em unidade. Isso é uma escolha epistemológica minha. Pra acreditar que é possível encontrar uma unidade, por ínfima que seja, num grupo de pessoas, é preciso acreditar que as generalizações existem. Que você pode, com um número que satisfaça estatisticamente uma pesquisa, chegar a uma fórmula, uma partícula indestrutível de identidade entre pessoas. Encontrar o que nelas é inerente. Inato. Eu não acredito nisso. Na verdade, acredito que talvez seja possível encontrar esses traços. Mas eles correm o risco de serem datados, sabe? É o tipo da coisa que não se faz mais em outras áreas de conhecimento. Porque é uma prática fascista. Você aceitaria se reunir com mais 2 mil mulheres para que psicólogos ou sociólogos tentassem descobrir o que há em comum entre todas? Se dissessem que todas têm medo de barata, todas gostam de chocolate, ou que todas usam mais verbos no subjuntivo do que no indicativo, pareceria relevante, ou válido, ou mesmo interessante? Eu não.

Então também acho que isso não pode ser uma prática válida nas artes, que é o campo da expressão criativa, da liberdade de estilo e bla. Se, reunindo todos os romances escritos por mulheres na história da humanidade, descobríssemos que todos - todos! - possuem traços (ou unidades) de linguagem comuns, eu pergunto.. e daí? Se todos eles são marcados por frases subordinadas mais longas, maior quantidade de adjetivos, mais discursos reflexivos e menos descrições, eu pergunto... e daí? Que tipo de conhecimento pode ser proveniente - ou pior - aproveitável? Concluir que as mulheres servem-se de uma linguagem mais oblíqua? Que são mais dadas às reflexão e ao subjetivo, em detrimento da descrição e do objetivo? Eu não vejo como uma análise dessas pode escapar do que eu chamei de busca pela essência feminina. Mas projetada no campo literário. Porque, em última instância, a linguagem é nosso suporte sentimental. E então dizer que as narrativas escritas por mulheres tem uma unidade linguística, é o mesmo que dizer que elas tem uma estrutura emocional semelhante umas às outras. Eu volto no que tenho dito: isso é datado. E limitador.

Tem mais. Não acho problemático e limitador apenas com o grupo de artistas que compõem o tal grupo identitário. Acho problemático como método de análise literária. A gente perde quando divide as obras em "escolas literárias", porque ensina aos estudantes a pensar em "ismos". E a tentar encaixar cada livro que eles lêem numa lista de características mais ou menos fixa. E aí a gente pira. Porque aprende que Machado de Assis é um realista. E que "Memórias póstumas de Brás Cubas" inaugura o realismo no Brasil. E só aqui mesmo, o realismo ser inaugurado com um livro cujo narrador está morto.
Eu não queria que isso acontece com as escritoras. Porque algumas são excepcionais. Tipo a Clarice Lispector. Num curso de pós, o professor levou uma crônica dela, em que ela escreve uma carta ao Presidente da República pedindo mais vagas nas universidades. Discutindo políticas educacionais com ele. É uma crônica, saiu num suplemento literário, e alguns alunos acharam o texto surpreendente. O texto podia causar tudo, mas não surpresa: "nossa, ela escreveu isso?". Pois ela é considerada uma escritora instimista, até alienada. É a mulher da epifania. Clarice é o maior chavão dessas palestras de "escritura feminina" que eu já vi. Eu acho mesmo, e é uma escolha minha, que a ficção tem potencial para superar os dados de realidade. E problematiza-los de um jeito ainda mais interessante que os textos não-ficcionais. Por isso eu escolhi fazer letras e não ciências sociais. E por isso as obras e autores que eu mais admiro são impossíveis de serem classificados e cristalizados em padrões estéticos mais gerais. Quando muito, a gente tenta analisar e interpretar. Mas nem sempre dá.

7 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

mais um post uau.
essas unidades e identidades etc. são feitas e mantidas por nós, e pior, a gente acredita, sem se dar conta de como ela é feita, e perpetua a coisa como se ela fosse algo prévio... e fica se comportando de determinada forma porque oras, pertence àquele grupo, que faz as coisas assim e sente assim. aí pronto, os caras fazem essa pesquisa pra provar a premissa equivocada de que mulheres gostam de rosa e de chocolate, e as mulheres estão todas gostando de chocolates porque é assim que são as coisas, e logo mulheres q não gostam de chocolates estão sendo apedrejadas e excluídas da turma e tal, onde já se viu uma mulher não gostar de chocolate, isso não é natural!, etc etc...

aline disse...

é, é isso o que eu to querendo dizer. que não é válido nem se fazer certas perguntas.
obrigada!

:*

Daniela disse...

Eu nunca tinha visto as coisas por esse ângulo, mas é uma análise perfeita. E a verdade é que as escolas literárias sao tao..enfim...cheias de exceçoes que me parece um desserviço criar categorias para coisas que precisam fazer malabarismos para caber ali.

Por isso que eu adoro literatura, mas como leitora e jamais como crítica. Tanta escola e características mil me enchiam o saco desde o ensino médio e mais ainda na faculdade de letras.

aline disse...

Daniela, não acho que sejam só as escolas literárias. Acho que são as classificações de um modo geral. Em outras áreas como a sociologia, ou a antropologia, a história, a filosofia, as pessoas tem muito cuidado antes de fichar uma coisa e limita-la a uma etiqueta. é mioe evidente que existem nuances. Há proximidades e diferenças nas obras, e ambos devem ser respeitados. O problema do pessoal que defende uma escrita feminina é que eles querem determinar uma dessas etiquetas, mesmo que isso reduza o sentido da obra. É um desserviço aos leitores, aos outros críticos, ao escritor, à obra.
Isso é uma das coisas legais que eu aprendi no meu curso, sobre a fragilidade das características que compõe um grupo estético. Porque o que é bom varia, retrocede, avança, enfim, é mais amplo do que a cabeça de certos literatos.

Camila disse...

Chegando atrasadérrima na discussão, mas vamos lá...

"a ficção tem potencial para superar os dados de realidade."

aline, considero esse ponto fundamental. E acho que nunca é demais repeti-lo, principalmente num mundo em que se valoriza cada vez mais o artista e cada vez menos a obra. Porque o chavão-Clarice, para além das questões de gênero, também é resultado disso - de uma superestimação de quem escreveu o texto. Como se os dados de realidade da vida do autor fossem ser espelhados com pouca ou nenhuma distorção em tudo o que ele escreve. Então eu acho que você está falando de dois pressupostos equivocados diferentes. O primeiro é de que as mulheres são intrinsicamente sensíveis, frágeis, complicadas e sei lá o quê. E o segundo é que elas vão reproduzir essas características na escrita delas tal e qual, sem nenhuma transformação, nenhuma mediação inconsciente, nada...

aline disse...

Camila

vc tem razão, são dois pontos equivocados diferentes. o primeiro eu acho que deixei claro aqui. o segundo, ficou mais claro até pra mim, de tão bem que vc colocou. De todo jeito, acho que manter essa distância crítica, lembrar desse espaço de intermediação criativa e sobretudo desconfiar sempre do narrador são sinais de uma leitura madura. Acho que os melhores escritores esperam isso dos leitores e vice-versa.

Tha disse...

Perfeito!

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