26.11.08

escrita feminina, o caramba

Recebo do departamento da faculdade um convite para uma mesa redonda sobre Escrita Feminina. Com os medalhões e as medalhonas habituais. Vago como se apresenta, o tema pode causar espanto, curiosidade, perplexidade. Eu fico injuriada. De injúria mesmo. Acho ofensivo, falar em escrita feminina. Senão ofensivo, limitador. Mas comecemos pelo começo.
Os estudiosos em literatura, como sóem os estudiosos, dividem-se em grupos, escrevem e leem uns aos outros, crivam nomes, expressões e classificações aos objetos que lhes interessam. Como está em alta o estudo de obras feitas por mulheres, alguns insistem em defender a existência de uma escrita propriamente feminina. Que, na verdade, é a projeção na literatura daquilo que se chama de "essência feminina". Eu não sei exatamente o que é a essência feminina. Sei que está de alguma forma ligada à maternidade, à sensibilidade, à fragilidade e à cor de rosa. Ou seja, a essência feminina é também ela uma espécie de projeção daquelas características que são atribuídas às mulheres; e seu alcance é generalizado e democraticamente distribuído: se é essência, toda mulher tem. E tem mais, viu. A essência feminina se apresenta como uma coisa positiva. É a parte boa das mulheres, aquilo que resume sua alma e as torna tão adoráveis. Eu acho que a essência feminina é uma prisão. É um jeito disfarçado de limitar a personalidade e principalmente o comportamento. Então as mulheres são essencialmente doces e frágeis? Ferrou, porque eu sou estourada e brava. Cor de mulher é rosa? Pois a minha é azul. Mulher tem instinto maternal? Deviam conhecer minha ex-sogra. Tão maternal quanto um polvo.
Quer dizer, eu queria começar deixando claro que, pra mim, a tal essência feminina é uma bobagem, é um artefato machista, socialmente construído, etc. Sendo assim, a escrita feminina também é. Tudo isso aí.
Porque, olha só. Não estou falando do estudo de personagens femininas. Estou falando em demarcar um conjunto de obras que foram escritas por mulheres e tentar achar, nelas, traços que reforcem essa alma feminina. Que não existe. Que não pode existir sem fazer de todas as escritoras uma espécie de desobramento umas das outras. Ou melhor: fazer de todas um desdobramento da alma feminina universal. Mas é isso o que os medalhões e medalhonas propõem nessas palestras. Que há um léxico, uma sintaxe, um conteúdo específico da escrita feminina. Um ultraje. Quem diria que existe uma medicina feminina? Ou engenharia feminina? Educação física feminina? Mesmo no campo das artes, não vejo uma segregação parecida (se bem que eu não frequento os círculos acadêmicos de outras artes; alguém me corrija se eu estiver enganada...). Nunca ouvi falar de musicalidade feminina. Ou pintura feminina. Claro, é possível gostar de pintoras, compositoras, atrizes, cineastas. E suas obras podem tratar de temas femininos. Mas daí dizer que existe um conjunto de traços em comum em todas as produções artíticas de mulheres num determinado gênero, como isso não soaria limitador? Pois em literatura, pode. Como se fosse um subgênero. Com traços, processos, objetivos comuns (e eu me pergunto se não ousaríamos dizer que há um(a) leitor(a) comum, pra esse subgênero).
Há quem diga que a escrita feminina não é feita necessariamente por mulheres. Ou seja, há homens que mimetizam as estratégias da escrita feminina. Então piora. Porque escancara a artificialidade da coisa. Elimina a origem da idéia - a essência feminina - sem eliminar seus "efeitos pétreos" - a sensibilidade, a maternidade, etc etc. Não que essas coisas não estejam presentes na escrita dos escritores homens. Mas que sorte a deles não serem atrelados a determinadas características a priori. De não terem suas páginas pré-inscritas num gênero.

Eu fico com a Cecília Meireles. Que não queria ser chamada de poetisa. "Não sou alegre nem triste", ela disse. "Sou poeta".

22 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

aline, meldeus, que post bom! quanta clareza! nem tenho o que dizer, só me resta correr no meu bloguinho e ir divulgá-lo.

aliás vou dizer sim. Essência feminina é a comadre da tua madrinha!, seus acadêmicos cretinos.

obrigada pelo post, fez minha semana!

menina fê disse...

segui o conselho da lu e constatei que essa menina tem bom gosto! rsrs

o jornalismo prega a imparcialidade no discurso... tive um professor que discorria horas sobre a impossibilidade de sermos imparciais, somente podemos não ser subjetivos. para começar, cada um tem um estilo, isso denota uma característica individual, o que elimina qualquer chance da tal imparcialidade. ele sempre falava que a escrita não tem sexo, não tem cor, não tem cheiro, mas tem alma e alma não tem sexo, como mencionei acima.

logo, é balela impor gêneros à qualquer ciência!

adorei o blog: bem intencionado, inteligente e autêntico.

bj grande da fê =D

Alex Castro disse...

eu tb fico puto quando o melhor escritor da lingua portuguesa de todos os tempos é reduzido à dimensão do seu gênero... cada ensaio sobre a escrita feminina em clarice lispector só falta me fazer vomitar....

aproveito pra te convidar vc e a lu a darem uma olhada no meu romance... ele é narrado por uma mulher e me esforcei muito pra tentar justamente fugir dessa porra de escrita feminina, nao ser uma "mulher" estereotipada.... se quiser ver, me avisem.... "lll.alexcastro", lá no gmail.

aline disse...

Oi Lu, puxa, obrigada. Enfim, uma vez eu disse à Camila, que algumas pessoas desta blogosfera se tornaram constantes interlocutores meus. Direta e indiretamente. Vc é uma dessas pessoas. Então tem contribuição no que eu tenho escrito. Porque eu tenho lido muito, pensado, escrito no blog... e assim vai indo. Obrigada, então, a vc tbm.


Fe, eu tbm não acredito muito em imparcialidade. Ainda mais em se tratando de textos, de escrita. Que é uma coisa tão pessoal. A linguagem toda, acho. É muito profundo. A gente sempre defende alguma coisa. Agora, o que me irrita é a etiqueta. Adorno dizia que o pensamento por etiquetas é fascista. Eu acho isso mesmo. Falar em escrita feminina é generalizar as escritoras. E as mulheres. E reproduzir estereótipos. Que não ajudam em nada, e por aí vai. Tanto pior se isso acontece no meio esclarecido.

Oi Alex...

Pois é. A Clarice é o alvo maior destes literatos.Uma pena. Parece que se Clarice fosse homem, teria a magnitude que Machado tem. Ou Guimarães. Que são encarados com (tanta) reverência que chega a virar fetiche. A Clarice virou fetiche também, mas de um jeito diferente. Ela virou símbolo feminista, mas de um feminismo que reivindica essa escrita feminina. E que se mostra muito, muito contraditório. Que coloca Clarice dentro de um cercadinho tão restrito que dá raiva. Porque ela é muito maior e melhor, etc etc.


O convite pra ler seu romance tá aceito. Comofas?

juliana m. disse...

Eu sempre falo que o meio acadêmico é extremamente machista e todo mundo me acham maluca. Eu leio cada coisa que dá vontade de chorar. Eu só discordo com você uma coisa: não acho que a caracteristicas femininas são percebidas como positivas, mas sim como desejáveis nas mulheres e simplesmente condizentes com sua condição. É como se espera que um cavalo tenha os dentes assim ou assado para ser considerado bom. Ou que um bom escravo seja o mais subserviente o possível. Mas daí em se possuindo as tais características feminas a obra já é reduzida a de segunda categoria, ou a um subgênero, como você colocou. Ou seja, mesmo que você decida, voluntarimaente, escrever sobre o cor de rosa, você também não tem esse direito porque já é rotulada como ruim.

abraços

aline disse...

Oi Juliana

Eu acho que na verdade a gente concorda bastante. Eu não disse que as características "essencialmente" femininas são vistas como positivas, eu disse que elas se apresentam assim. E quem as apresenta assim, positivas, não são a princípio as mesmas pessoas que recebem as etiquetas. Então, sim, são características que se impõem como desejáveis. E se os "etiquetados" desejarem ser como devem ser, tanto melhor. É o processo de convencimento e submissão, típico das sociedades machistas.
Quanto a não ter o direito de escrever sobre o rosa, eu discordo. Em primeiro lugar, por um motivo simples. Não apoio nenhum tipo de cerceamento de direitos. Se vc quer escrever sobre o milagre da maternidade, sobre a fragilidade sentimental de uma mulher, vá em frente. Faça sem problemas. Isso não pode, entretanto, virar uma generalização. Nem virar pretexto para os leitores e críticos elaborarem teorias generalistas. Eu insisto, que há sensibilidade e fragilidade em diversos tipos de obras literárias. De homens e mulheres. Assim como há agressividade e rusticidade. Os autores têm sempre direito de escrever o que quiserem e como quiserem (daí a fazer uma grande obra é outra coisa). Mas eu não quero ver a literatura de nenhum escritor virar matéria prima pra machismo, entendeu?

juliana m. disse...

claro;) é que eu ando perplexa com esse ano. e as vezes eu tenho a impressão que a reação imediata das mulheres, para negar a acusação de que existe literatura feminina, ou seja, para concordar com tudo o que você colocou no seu texto, é dizer não, mas eu não sou assim! o que de alguma maneira maneira admite que os temas confessionais sentimentais ou temas considerados femininos são a priori ruins. Que é o que acontece com a Clarice, de alguma forma. E nossa, eu escrevi uns erros horríveis no meu comentário anterior, mas foi a pressa, desculpa;) E nem falei que achei o texto excelente, né, que falta de educação.

abracinho

aline disse...

A Mary W diz que esse ano é o mais machista. Eu super fecho com ela nisso. Tá terrível, mesmo.

E obrigada.

abraço :)

Marion disse...

Aline, cheguei aqui através do blog da Lu.
Adorei seu post e concordo plenamente com você. Não acho possível rotular alguém apenas porque é mulher ou homem. Eu acho muita probreza de espírito fazer isso, mas infelizmente vemos que é uma coisa recorrente neste mundo, tudo é passível de rótulo.

Ah, eu não tenho instinto maternal. Eu não me encaixo em outras tantas características femininas "típicas".

Parabéns pelo post!

lola aronovich disse...

Hmm, Aline, não é por aí. Parece que vc está descartando todo um assunto sem querer se informar minimamente sobre ele. “Écriture féminine” é um termo criado pela feminista Hélène Cixous nos anos 70. E ele não se refere tanto à linguagem como às experiências. Infelizmente, foi vc que chegou à conclusão que uma escrita feminina vai falar de cor de rosa e passividade. O que a Cixous defende é que mulheres escritoras falem de si, de suas experiências como mulheres, e das experiências de outras mulheres - que é bem o que nós todas fazemos nos nossos blogs, não? Afinal, a gente fala de si, e nossas experiências, em geral, são, sim, diferentes das dos homens. Se a gente não falar da gente, quem vai falar? Os homens? Sim, claro, eles falam da gente, mas por uma outra ótica. A mídia e os meios de comunicação continuam sendo dominados por homens. Pensem: quando jornais, revistas e programas de TV lançam um caderno feminino, ele fala de quê? De culinária, moda, maquiagem, todas essas futilidades a quais nós mulheres são reduzidas. Isso não tem nada a ver com escrita feminina! Tem a ver com como o mercado nos vê e o que deseja vender pra gente. Escrita feminina é outra coisa. É um termo polêmico (ainda se discute muito se isso realmente existe ou não) e que não se limita apenas às mulheres. James Joyce, por exemplo, é visto como exemplo de “l'écriture féminine”. Porque é um tipo de escrita que dá mais voltas, que não vai direto ao ponto. Lembre-se que as feministas francesas ligadas à semiótica analisam demais a linguagem, que consideram falocêntrica. Enfim, é um assunto interessante, e existe uma discussão totalmente válida sobre o tema. O que fica meio estranho é jogar no lixo toda uma teoria sem sequer querer saber ao que ela se refere.
www.escrevalolaescreva.blogspot.com

Gabriela Galvão disse...

Na música hah mt isso, tb. Mas a abordagem eh diferente: "Apesar (!) d ela ser mulher, olha q fodona, olha q macha!"

Tentando elogiar... Principalmente no rock.

Atualmente duas delas me chamam muito a atenção: Beth Ditto da The Gossip e Priscilla Simonelli, da Vitória Hard Rockers. Ditto eh mulher, gorda, lésbica, mt competente, cheia de energia e aclamada. Priscilla eh gata e agradece qd a chamam de gostosa.

Nas artes plásticas rola a mesma coisa.

Em todas as esferas da vida, principalmente a profissional!

Mas na literaltura isso realmente salta aos olhos.

Que pobreza!!!

Da próxima, participa da mesa, sim! Fala o que eles precisam ouvir!!!

Abraço!

lola aronovich disse...

Ah, e tem outra coisa: vc limita demais a sua análise de escrita feminina ao falar da ESSÊNCIA. Eu tenho que reler Cixous, Irigaray e Kristeva pra ver se algum dia elas já falaram de essência. Mas hoje em dia qualquer discussão sobre essência de qualquer coisa (feminina, masculina, “a essência do texto” e tal) já não é mais levada a sério. Eu não conheço muitos acadêmicos que ainda defendam “essência”. Tudo é uma construção, como vc disse. Vc assumiu de cara que a tal mesa redonda iria ser uma discussão sobre essência - que nem é mais discutido hoje em dia.

aline disse...

Oi Lola

Vc está pressupondo que eu desconheça o debate a respeito da escritura feminina. Não sei se isso ficou claro, mas o o convite para a palestra foi apenas um start. Não é um tema novo nem tão obscuro, pra mim. Sou pesquisadora em literatura francesa moderna. Sim, já frequentei eventos a respeito, sim, já estive em contato com pesquisadores sobre este assunto específico e não, não concordo com eles de modo geral. Porque, pelo menos nos círculos em que andei, essa nomenclatura se refere principalmente à determinação de elementos estruturais da narrativa. Palavras e frases que apontam uma subjetividade feminina atrás da caneta. Discordo muito desse método de análise e leitura. Acho contraproducente.
Conheço, por exemplo, uma pesquisadora que me mostrou que Clarice Lispector foi apropriada por feministas francesas como símbolo da escrita feminina. E é uma coisa super valorizada, isso de uma brasileira ter influenciado um ramo da literatura francesa. Mas eu, Aline, não acho que isso seja bom. Eu tentei mostrar isso no post.
Mas eu acho mais concreto responder a vc diretamente, que tocou em algumas coisas bem objetivas. Sobretudo sobre a escrita feminina ser a expressão das experiências das mulheres. Acho que isso depende muito da perspectiva que o crítico adota. Vamos pegar um exemplo clássico e extremo: Dom Casmurro. Escrito por um homem. O narrador é um homem, e muito machista. Capitu não toma a palavra em nenhum momento do romance. Dom Casmurro, aliás, pode tanto estimular uma leitura super conservadora quanto uma leitura crítica da sociedade patriarcal. Depende de como se lê. Eu acho que o silêncio da Capitu muito revelador. E acho que a narrativa de um homem, através de um narrador homem, fala muito sobre a condição feminina. Com todas as distorções que ele faz dela, o leitor mais atento entende que a experiência feminina é cheia de opressão, possessão, preconceito. Outro exemplo clássico, do Machado também, são os contos. Singular ocorrência, Noite de Almirante, Uns braços, Missa do galo. Está lá, sempre, a experiência feminina. Não acho que uma muher precise necessariamente escrever para que a literatura aborde suas experiências. E não acho que tudo o que uma mulher (qualquer mulher) escreve seja necessariamente expressão de sua experiência. Porque se for assim, toda a literatura se torna expressão de subjetividades. É válido fazer essa observação quanto ao Kafka, por exemplo? Ou Cortázar? Ou Guimarães Rosa? Como crítica literária, eu acho que os textos que eles escrevem trasncendem o gênero (o sexo, quero dizer). Porque são literatura de qualidade. Não é panfletário, não classificável. Assim como a Clarice. Sim, o fato de ela ser mulher cria uma perspectiva própria. Sim, isso é mais nítido em alguns textos. A mesma coisa com Adelia Prado, que pra mim é uma grande poeta. Minha preferida, ao lado de Bandeira, João Cabral e Drummond. A Adelia fala sim da experiência do feminino. Mas não gosto de coloca-la no círculo da escrita feminina. Porque pra mim ela está no círculo dos grandes poetas brasileiros. Entendeu o ponto? Acho que, nestes casos, é uma questão de inclusão. De mostrar a grandiosidade dos textos de Clarice Lispector, Adelia Prado, Lygia Fagundes Teles, etc etc. E não de fazer um cercadinho e dizer "aqui, o assunto é mulher".
um abraço

aline disse...

E não, Lola, ninguém fala em essência. Vc tem razão. Defender que existe uma essência feminina é cair no ridículo. Mas a gente sabe que por trás dos discursos (de todos os discursos) estão várias idéias, ideologias, bla. Eu disse que a defesa de uma escrita feminina desdobra o que socialmente é chamado de essência. É uma transferência de modelo, o que eu estou dizendo. Assim como socialmente as mulheres são ligadas a uma imgem X, na literatura a escrita feminina tende a reproduzir esse modelo. Em tempo, escrita feminina e escrita feminista não é a mesma coisa. Simone de Beauvoir, por exemplo, não entra nessa chave, porque ela escreve outro tipo de texto, etc etc.

aline disse...

E sobre as feministas e os problemas semióticos da linguagem: sim, sim, sim. Tudo verdade. e a lingua francesa tem mesmo expressões e estruturas que devem ser repensadas, senão aniquiladas. E veja bem: as questões de linguagem não se colocam iguais, em francês e em português. E, de novo, eu quero dizer que a escrita feminina é um problema de análise literária. A semiótica,embora namore muito com a teoria literária, não pode se confundir com ela. Senão perde sua especificidade, etc. Por isso eu nem pensei em ir tão longe, no post.

aline disse...

Oi Gabriela

Como eu disse, não frequento o meio acadêmico de outras artes que não a literária. Que existe um preconceito com mulheres em diferentes esferas da vida, sim, é mais do que notável. E que isso se reproduziria no meio artístico, tbm. Eu me pergunto se alguém ouve, sei lá, Chiquinha Gonzaga e diz "essa música é feita por uma muler porque ela é mais xyz do que as melodias feitas por homem". Sendo xyz igual a qualquer característica atribuida socialmente às mulheres. Ou, se ao ver um quadro de Frida Khalo, alguém fala que o uso das cores e o traço são genuinamente femininos pelos mesmos motivos. O que eu acho ruim é criar um gênero específico pra produção artística feita por mulheres simplesmente porque foi feita por mulheres. Que é uma redução que incrivelmente acontece.

um beijo!

lola aronovich disse...

Desculpe, Aline, se parti do pressuposto que vc desconheça o tema. É que como vc despachou a tal palestra tão rápido (eu, pessoalmente, primeiro assistiria à palestra, para só depois criticá-la), não mencionou sequer o nome da Cixous, que é quem inventou o conceito, e baseou grande parte da sua crítica à essência - que, como vc admite, nem é mais um parâmetro usado -, deu a entender um certo desconhecimento do assunto, sim.
Também acho que Dom Casmurro e, na realidade, qualquer obra produzida por homens ou mulheres fala muito sobre a condição da mulher na sociedade. Mesmo a ausência ou o silêncio de personagens femininos são muito eloquentes, não há dúvida. Mas tudo que produzimos, tudo que falamos, escrevemos, pintamos, é fruto de nossa experiência pessoal, de nossa vivência, de nossa história pessoal. Dá pra uma mulher inventar um personagem masculino, lógico, assim como dá prum homem inventar um personagem feminino. Mas mesmo essa construção da personagem será baseada na experiência de vida do autor/a. E não dá pra negar que o nosso gênero afeta muito quem somos. Assim como uma pessoa negra vai ter experiências de vida que muitos brancos não têm. Ninguém está dizendo que temos que ficar restritos ao nosso gênero. Mas, em muitas obras, fica bastante visível o gênero do autor. Nos próprios blogs isso fica visível, não acha? Imagine que vc não soubesse nada do blog. Vc lê alguns posts e já pode pressupor bastante sobre a vida de quem escreve. E não, o conceito da escritura feminina são se atém apenas à literatura. Há estudiosas feministas que analisam isso na música, na dança, nas artes plásticas. E, pelo pouco que sei do assunto, essas estudiosas não se limitam a rechaçar o tal conceito, mas a usá-lo inclusive pra analisar o domínio masculino em todas as manifestações culturais e artísticas. Por exemplo, no balé clássico: dançarinos ocupam um grande espaço do palco, dão pulos enormes, enquanto as dançarinas andam a passinhos. Sua liberdade é muito mais restrita. Eu acho essas análises muito importantes. Será que uma coreógrafa mulher teria uma visão de palco diferente, criaria um tipo de dança único, ou reproduziria o padrão vigente? Por isso é tão maravilhoso que mulheres, negros, gays, e outras minorias tenham voz. Porque podemos ver um outro lado - que, claro, são vários, já que não existe mulher igual, nem negro igual, nem homem igual etc. Mas só podemos determinar se existe algo como “ecriture feminine” se existirem obras produzidas por mulheres. O que, até pouco tempo, não fazia parte do cânone, nem merecia ser objeto de estudo.
Ufa! Desculpe o comentário gigantesco...

paulo disse...

Se eu entendi direito, Lola:

"James Joyce, por exemplo, é visto como exemplo de “l'écriture féminine”. Porque é um tipo de escrita que dá mais voltas, que não vai direto ao ponto."

e

"Lembre-se que as feministas francesas ligadas à semiótica analisam demais a linguagem, que consideram falocêntrica."

são bons exemplos do que a Aline disse sobre como se procura uma essencia feminina na escrita.

Quando alguem diz que James Joyce dá voltas e isso é escrita feminina:

1- afirma que james joyce não vai direto ao ponto

2- implica que isso é traço feminino, pela escolha do nome de batismo desse estilo

3- subentende, por consequencia, que ele tem uma essencia feminina apesar de não ser mulher

o último passo aliás virou moda pra acomodar, por exemplo os gays, num mundo que tanto polarizou aspectos de personalidade em duas caixinhas - a masculina e a feminina - mas está sendo (pelo menos isso!) forçado a admitir que há exceções e elas tem direito de existir assim.

eu, que não sou sexualmente gay, brinco com minha namorada - justamente ironizando essa classificação - que sou a mulher da relação. sabe a indecisão, a insegurança, a sensibilidade frágil, o dar voltas no discurso? tenho muito mais disso que ela.

paulo disse...

onde quero chegar (olha as voltas aí...) é que:

1- se a pocentagem de mulheres que escreve (e/ou age) com essas características ditas femininas é maior que a de homens, isso deve ter mais a ver com o efeito de profecia autorealizante destes estereótipos que com uma "essencia de fato"

2- a escolha desta terminologia (escrita "feminina" / "masculina") para delinear determinadas características como um conjunto coeso é uma ato bem sintomático sobre os teóricos que teorizaram isso.

3- esta "síndrome feminina" da escrita - os médicos chamam de síndrome quando percebem um conjunto de sintomas que costuma aparecer juntos - pode nem mesmo existir. Pode ser forçada de barra dizer até mesmo que fragilidade e não ir direto ao ponto aparecem corriqueiramente juntos. Tem muito escritor homem enrolado por aí...

lola aronovich disse...

Paulo, primeiro: eu nem disse que concordo com a existência de uma escrita feminina. Só disse que é um conceito que merece discussão, antes de ser descartado totalmente. Isso da linguagem ser falocêntrica é algo que eu realmente duvido, inclusive porque a linguagem varia demais de lugar pra lugar. Por exemplo, na academia de língua inglesa, você precisa ir direto ao ponto. Nada de dar voltas. Nada de vocabulário bonito. Nada nem de buscar sinônimos, porque sinônimos apenas aproximam significados. Vale repetição de palavras, portanto (eu sei porque fiz mestrado, e agora estou terminando meu doutorado, em literatura em língua inglesa, com teses escritas em inglês). Se eu escrevesse uma tese em francês, ou mesmo em português, a linguagem usada seria bem diferente. Vale dar voltas, vale algo mais “poético”. Mas, enfim, as feministas francesas da década de 70 analisavam muito a linguagem, e por isso tiravam essas conclusões. Ninguém estava falando de essência feminina. E que o Joyce não vai direto ao ponto, isso não vai mesmo. Mas a gente o ama de qualquer jeito, não? Não é um insulto!
E não, isso de analisar escritura (não essência!) feminina não tem nada a ver com “acomodar” os gays. Apesar dos gays terem captado muitos conceitos feministas (e vice versa), a crítica literária gay não precisa de “acomodação”. É um campo próspero sozinho: queer studies, queer theory.
No seu segundo comentário, vc parece chegar a uma conclusão meio furada, não? Como é? Se existe escrita feminina entre o que as mulheres produzem, é porque foi o “efeito de uma profecia autorealizante”? Quantas almas vc acha que ouviram falar em Cixous? Que ouviram falar em escrita feminina?
Que eu saiba, o que as feministas francesas fizeram foi analisar, estudar, desconstruir, aplicar inclusive Lacan e Derrida, em obras escritas por mulheres pra ver se havia algo mais comum às mulheres em sua escrita. Cixous achou que sim, e desenvolveu todo um conceito em torno disso. Um conceito que vale a pena ser estudado antes de ser descartado.
E quem falou em fragilidade e síndrome? Tenho certeza que Cixous nunca disse que todas as mulheres escrevem em círculos, com uma escrita um pouco mais poética, e que todos os homens escrevem indo diretamente ao ponto. Ou que, se vc é mulher, vc TEM que escrever assim ou assado. Apenas que, analisando montes de obras escritas por mulheres e homens, as semiológas francesas destacaram uma certa unidade de linguagem. Eu acho essa uma discussão fascinante, ainda que discorde.

aline disse...

"Apenas que, analisando montes de obras escritas por mulheres e homens, as semiológas francesas destacaram uma certa unidade de linguagem."

É isso, Lola. Essa unidade de linguagem me parece ser a projeção, no campo literário, do que socialmente chama-se "essência feminina". Que é um conjunto de caracterísitcas que são inerentes às mulheres, como certas características são inerentes à linguagem das mulheres.

A "escrita feminina" não é meu objeto de estudo. É uma área de interesse. Minha relação com o assunto é mais branda, mesmo. Não citei Cixous porque não a conheço. E, mesmo que ela tenha inventado o conceito, não é a única que dele faz uso. Porque com a imensidão da produção acadêmica hoje, as palavras e conceitos vão sendo adaptados, distorcidos, reformulados. Dificilmente um conceito criado em 70 continua tal como era. E dificilmente hoje ele teria um único significado, uma única referência, uma única aplicação. Como eu disse, abordei o debate de escritura feminina a partir daquilo que eu conheço. Que eu li, ouvi e etc.

linha disse...

sempre que eu ouço falar de uma bobagem como "escrita feminina" eu lembro disto aqui: http://www.apostos.com/soaressilva/2005/01/negros_que_gostam_dos_beach_bo.html

Quanto às outras artes: estudei artes plàsticas e certa vez ajudei na montagem de uma exposição chamada "Mulheres Artistas". Aparentemente a "essência feminina" tem muito a ver com possuir b*ceta. De resto, as obras não tinham nada a ver umas com as outras, exceto por serem todas ruins (e não teria como ser diferente vindo de quem aceita participar de uma exposição com ese titulo).

Gostei muito do blog, vou favoritar. Tenho mais ou menos a sua idade e tb faço parte desse "meio acadêmico" - tamos no mesmo barco. Abraço.

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