13.11.08

gordinha, o caramba


Falta-me tempo e disposição pra levar adiante um projeto que tenho: começar a escrever outro blog pra tratar quase exclusivamente sobre a obesidade, e os problemas que a ela se relacionam. Que ninguém pense que estou falando sobre problemas físicos ou fisiológicos, porque estes são alardeados em abundância. Com toda a razão, obesidade causa vários problemas e em breve será uma questão de saúde pública. Mas quase ninguém fala das questões sociais da obesidade. Eventualmente, tratamos dos aspectos emocionais e psicológicos das pessoas - sobretudo das mulheres - gordas. Porque são infelizes, as coitadas. Sozinhas, feias e mal-amadas. Como eu disse, falta tempo e disposição pra isso. Mas depois dessa matéria e com o mau humor que eu estou hoje, resolvi começar por aqui mesmo.
Pra começar, eu queria fazer uma observação quanto ao caráter sexista do preconceito. Embora a discriminação contra obesos seja geral, homem gordo é uma coisa, mulher gorda é outra. Homem tem a possibilidade da feiura. Homem pode se chamar de feio publicamente - a piada soa amigável entre eles. O que importa é ser gostoso e ter pau grande. Ou ser inteligente, simpático, respeitável. Quer dizer, um homem gordo ainda tem chances de ser respeitado em vários aspectos. A importância do tipo físico dos homens minimiza ou mesmo desaparece porque não há apelo sexual imediatamente colado neles. Há vários gordos na mídia, bem aceitos e estabilizados: Faustão, Jô Soares, João Gordo... Alguém já apareceu em público comparando-os a animais como baleia, elefante...? Ou dizendo que nunca comeriam um deles? Agora, quantas mulheres gordas há? A Silvia Popovic e a Claudia Jimenez emagreceram deveras. A Claudia, eu lembro bem, foi ridicularizada até o último fio de cabelo na época do Sai de Baixo, quando o Falabella chamava-a de rolha de poço, supositório de baleia e aí vai. Agora estão encarnando na Preta Gil. Ganhou o selo de baranga e não há cristo que tire. Ela deu uma bela resposta* pra esse tipo de piada na época em que o Pânico na TV fez uma brincadeira de péssimo gosto. Mas adianta mostrar algum tipo de superioridade e auto-estima? Que nada. Gorda não pode dizer que se acha bonita. Cai mais no ridículo ainda. Particularmente, eu acho a Preta Gil bonita. Adoro o sorriso, o colo, o jeito dela. Mas isso não está em questão. O que me emputece é que a piada saiu do círculo da tv e das revistas e caiu na blogosfera, onde as pessoas geralmente se mostram mais críticas. Aí aparece isso, de associar o nome dela à palavra "gordinha" no motor de busca do google. É um desrespeito sem proporções. E eu insisto, acontece só com mulheres gordas.
Eu procurei a palavra "gordo" no Google. Não há nenhuma menção a algum gordo famoso. Procurei por "negão", "feio", "feia". Dos adjetivos que eu tentei, só a Preta Gil sofreu esse google bomb com "gordinha".


Depois, tem a questão dos eufemismos usados. Odeio eufemismos. Homem gordo é "forte", "grande", "troncudo". Mulher gorda é "gordinha". Ninguém suporta obesidade, mas ninguém tem coragem de nomea-la. Porque socialmente a palavra gorda é ofensa. Se você encontra uma amiga e diz "nossa, como você está magra", isso é um elogio. Diga o contrário: a cara dela vai despencar. Embora as palavras sejam antônimos imediatos, a ideologia as afasta e carrega-as de julgamento estético. É constrangedor falar em obesidade sem tomar muito cuidado com as palavras ou usar de um tom medicinal. Muitas vezes, ao comentar coisas banais da minha vida como "eu dou muita aula", "o elevador quebrou" ou "fui ao banco a pé" eu ouvi respostas do tipo "é bom, emagrece". Vejam bem, o assunto não era esse. Eu sequer preciso demonstrar que quero fazer dieta pra receber mil conselhos pra emagrecer. Eu sei dos males que a obesidade causa. Mas todas as pessoas parecem ser endocrinologistas em potencial, esperando o momento de dar sua opinião sobre a forma do meu corpo. Afinal, é disto que se trata: as pessoas precisam o tempo todo lembrar os gordos que algo neles não está bom. Eles proferem uma idéia, ou melhor, um preconceito, e não um cuidado com a minha saúde em especial. E por isso eu ouço dos outros que sou "gordinha". Mas não sou. Era gordinha uns 30 kilos atrás. Sou gorda mesmo.
Aí tem os relacionamentos amorosos e afins. Paulo é moreno, alto, bonito. Várias vezes eu noto o olhar de surpresa dos outros quando nós damos demonstrações públicas de carinho. Já nos perguntaram se somos irmãos (!!). Às vezes, nos restaurantes, os garçons nos mencionam como amigos. A suposição de relacionamento nunca é imediata. Como seria se eu fosse magra. Eu insisto que essas atitudes podem não ser provocadas por maldade ou deliberação, mas elas perpassam necessariamente por preconceito. Naturalizou-se a obesidade como característica abjeta, não desejável, não relacionável. Vamos a outro exemplo: é comum, em casos de ciuminhos de novos relacionamentos dos ex, as pessoas ficarem contentinhas em saber que o novo romance é gordo/gorda. Ou saber que depois do fim do affair o/ a ex engordou. É só prestar atenção. Se um desafeto engorda, o comentário soa como vingança divina.
Os exemplos seriam vários, não acho que vale a pena elecar todos. Não agora. Eu pretendo, um dia, formular essas coisas todas com mais cuidado. Mas não posso deixar passar quando as situações se escancaram, assim. Como todo preconceito, a aversão à obesidade é social e culturalmente construída. Eu quero defender que as pessoas aceitem os corpos - os seus e os alheios - e que se desvencilhem da obviedade com que a beleza se impõe, atualmente. A beleza não precisa ser óbvia.



P.S. O texto da Veja que eu também linkei lá em cima, sobre a Caludia Jimenez, eu pretendo seriamente destrinchar. Pois, a pretexto de levantar a bola da atriz, o texto comete um monte de indelicadezas, trocadilhos e reproduz o preconceito. Padrão Veja de qualidade, afinal.

P.S. 2 - A primeira imagem é um quadro de Botero, chamado "A Leitora".

* Post do dia 27/01/2008, no blog da Preta.

8 pessoas pararam por aqui:

lola aronovich disse...

Aline, meu blog é sobre mil coisas, mais sobre cinema e feminismo. Escrevo bastante sobre aceitação do corpo. O último post foi este. Mas tem um monte. É um tema constante pra mim. Aqui, aqui e aqui dá pra ter uma idéia. Visite o meu blog pra gente trocar umas figurinhas. Eu tento sempre falar sobre aceitação ao corpo às segundas.

Camila disse...

Vou deixar um comentário vazio, tá? Porque não tenho nada para dizer, mas queria que você soubesse que seu texto me causou uma impressão tremenda e me fez pensar em algumas coisas pela primeira vez. Como o fato de as pessoas custarem a atinar que uma mulher gorda e um homem magro possam ter um envolvimento amoroso. Me dei conta de que eu nunca havia cogitado a existência desse fenômeno, e mais - exatamente por isso, acho mais do que provável que eu faça a mesma coisa também. Então seu post transformou algo em que eu nunca havia pensado num dado absolutamente óbvio em questão de segundos.

E o caso da Preta Gil também. Eu sempre achei que a hostilidade fosse devida à raça dela (e continuo achando que é, claro) - mas não havia adicionado o fato de ela ser gorda à equação. É verdade, isso não pode ser desconsiderado. Continuo não vendo nenhum interesse nela, como de resto não vejo nenhum interesse em celebridades e artistas de maneira geral; mas, celebridade por celebridade, não acho que o comportamento da Preta Gil seja nem um pingo mais criticável que o de outras celebridades magras e loiras - e a diferença de tratamento dado a uma e outras é brutal. Uma mulher magra e loura vendendo a imagem de gostosa, auto-confiante, poderosa e liberada é vista, em alguns casos, praticamente como um ícone do feminismo - e uma negra gorda com a mesma postura é considerada simplesmente ridícula.

Nossa, até que acabei comentando, né? Mal aí. :) Depois conversamos mais por e-mail. Obrigada por me fazer pensar e parabéns pelos últimos textos, estão todos ótimos.

Gabriela Galvão disse...

Ei Aline,

Esse assunto eh mt complexo, tinha feito um comentário-post; o q detesto. Tentar resumir:

Seguinte: sou gordita -por enquanto, pq tô caminhando pra ser gorda, msm- e mais um monte de coisa, entre elas: bem resolvida -ao menos qt a isso, hah!-.

Hj eu postei um trem lah no blog, mas justamente pq sei rir d mim e pq me aceito, me gosto. (Qq coisa, eh intitulado 'Cafeh com pão')

Inclusive um dos meus marcadores eh 'pretagilzice', qd eu falo disso de se aceitar, se cuidar,... pararah pororô.

Vou acompanhar os próximos posts, am?!

Abraços e beijinhos

Gabriela Galvão disse...

Ai, voltei... E eh para fazer o comentário-post... Acho que isso deve ser msm discutido.:

Verdade q qro emagrecer mas eh pq eu gosto de fazer coisas (tipo andar a cavalo) q qd eu tô mais gordinha, são menos prazerosas pra mim.

Esteticamente o que me incomoda são as celulites -que tenho em profusão-, ñ eh a gordura. Se fosse uma coisa 'normal', eu ñ ia ligar tanto, mas o meu caso eh msm incomum.

Sim, mas outra coisa q amo fazer eh nadar e eu nunquinha da silva sauro deixei de ir ao mar por conta d qq coisa -nem msm as celulites-.

Am... Jah falei isso no blog, eh qd uso o marcador 'pretagilzice'. Eh qd falo d aceitação (do nosso corpo e ñ dos padrões estéticos q querem nos impor), tal.

Qd vejo um cara gato c/ uma mulher deficiente física, gorda, magrona (q soh são msm aceitas no meio profissional da moda), feia... Qq coisa fora dos padrões vigentes... Eu fico moh feliz. Pq devia, mas ñ eh comum.

Imagino ateh msm q uns e outros por aih ñ 'enfrentaram' namorar pessoas d q gostaram por conta d situações q hipoteticamente teriam q vivenciar.

Hipoteticamente ñ, neh... Provavelmente!, infelizmente.


Nunca vai dar pra falar tudo que se hah por dizer deste assunto em um comentário (dois, q seja, hah!), mas por agora, eh isso.


Bisosus

aline disse...

Oi Lola.
Bem, já sou figurinha carimbada lá no seu blog Que é excelente, etc, etc. De fato, teremos muita coisa pra conversar. Bjão!



Camila, seu comentário me deixou tão contente. Porque acho que esse é o canal, de a gente expor certas coisas e as pessoas repensarem suas próprias idéias e ações. Talvez eu seja ingênua, mas eu acho que a maioria das pessoas não é maldosa, profundamente maldosa e quer a humilhação dos outros. Os preconceitos muitas vezes passam despercebidos, pq a alteridade não é imediata e transparente, e saber o que alguém sofre não é tão simples assim. Se vc diz que pensou em coisas que nao tinha pensado antes, bem, este post já foi válido. Eu esqueci de dizer isso no meu mail.

Oi Gabriela...
Obrigada pela visita. Aliás, pelas visitas =)
Eu adoro conhecer gente que sabe que está fora dos padrões de beleza e é confiante e diz que se acha bonita e tal. Adoro mesmo. Por isso eu admiro a Preta Gil (eu desconheço 80% do universod as celebridades, mas essa atitude dela eu noto há tempos). Acho que vc pegou o ponto, de não podar sua vida por causa do olhar de censura que virá. Pq ai os olhares, quem sabe, vão olhar aquilo que lhes concerne mais, né?
um beijo

Thiérri disse...

Serei pontual

1- Não gosto da Preta Gil
1.1- Ela só é famosa porque é filha do Gilberto Gil.
1.2- Ela é muito sem graça.
1.3- Não tem talento nenhum.

Gabriela Galvão disse...

Tah, voltei pra acompanhar, jah, hah!

Daih vi o Bottero ali... C conhece o Chico Sah? Eh um jornalista destes q realmente gostam d mulher (e ñ soh d buceta, desculpe o palavreado se houver que desculpar). Ele se refere às gorditas como 'boterinhas', eu acho isso o máximo!, hahahah

Bj e 'tamo junto, companheira!', hahah...

aline disse...

Thi, não é essa a questão. Não estou defendendo a Preta Gil por nenhum dos motivos que vc mencionou. Se é filha de minsitro, de cantor, se tem talento ou não, se as pessoas gostam dela ou não. Acho que vc entendeu isso. E ela não é zuada por nenhum desses motivos, tbm.

Gabriela, não conheço esse pintor não. Vou googlar e descobrir, obrigada pela dica.

Camila, depois eu pensei em outra coisa. Vc disse que achava que ela fosse hostilizada por causa da raça dela, mas não por ser gorda. E eu pensei o contrário. Nem lembrei que ela é negra. E como vc, acho que isso não deve ser ignorado. Em duas pontas da equação, alias. Acho que a fúria com que as pessoas se voltam contra elas pode ter várias razões de ser que não são explicitadas. Até porque as piadas estão sendo veiculadas na mídia, racismo é crime e complica muito a coisa. Gordofobia (como diz a Lola), não tem esse respaldo do discurso politicamente correto. Outra coisa. Que é pura especulação. O fato de ela ter tanta auto-estima, e se mostrar de biquini em público, acho que isso tem a ver com ela ser negra. As negras passam por isso, de precisar aprender a gostar do próprio corpo, da pele, do cabelo. Quero dizer, imagino que com a Preta Gil o trabalho de aceitação do corpo tenha se dado de maneira ainda mais intensa e portanto completa, por ter que resistir a dois preconceitos conjugados. Que se reverteram numa auto-estima maior do que outras mulheres gordas. Acho que ela se gosta mais facilmente que outras mulheres, no geral. Como eu disse, é suposição.

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