19.11.08

saudade do Cepacol

Seguindo um pouco o tema que a Camila escolheu para seus dois recentes posts, fiquei pensando hoje na minha "vida amigável". Ela se confunde com a minha história de uma maneira ampla, pois desde cedo eu dei bastante importância às pessoas de quem eu gostava e que faziam parte do meu cotidiano. Essas pessoas tem tudo a ver com quem eu sou, hoje.
É engraçado notar que eu sempre fui a cdf na escola. O estereótipo mesmo: óculos, primeira fileira, queridinha dos professores, notas altas. E meus amigos, via de regra, eram os desajustados. Eu, tão careta, adorava a companhia dos rebeldes e me divertia bastante com a displicência com que eles levavam as regras de convivência e comportamento escolar.
Foi assim com o Cepacol. Nós entramos no colegial juntos, embora ele fosse 3 anos mais velho do que a média da turma. Ele era muito ranzinza, e muito inteligente. Nem precisava estudar pra tirar notas boas, então ele aproveitava a liberdade que a escola dava pra ir beber vinho barato no bar da rua de trás com outros desajustados. Eu comecei a ir junto, aprendi a jogar sinuca e aos poucos a gente foi se entrosando. O Cepacol, que na verdade chamava Leandro Eduardo, era o tipo caladão. Mas a gente ficava as madrugadas no telefone, falando de tudo. E nós dizíamos que éramos como irmãos. Não que ele precisasse, porque ele tinha 4. Eu tenho 2 e estava bem satisfeita. Mas era um tipo de amizade que fazia muito bem, a afinidade era grande mesmo. Ele queria muito ser piloto de caça, então sabia muito sobre mecânica de aviões, sobre guerra e a parafernalha toda. Eram os assuntos que mais o faziam falar. Ele começou a namorar uma das minhas melhores amigas, que foi o grande amor da vida dele, e eu fiquei super orgulhosa de ser a confidente e o cupido deles. Um pouco por causa desse namoro, e muito por causa de seu ingresso na escola militar, a gente se afastou. De perder contato, logo depois do segundo ano colegial.
Anos mais tarde, eu já estava quase me formando na faculdade, a gente se cruzou por acaso na praia de Santos. Nós estávamos caminhando - ele, sozinho, eu com uma amiga. Pra lados opostos e demos de ombro. Então abraçamo-nos como se não tivesse passado 5 anos e retomamos a amizade. E como o clima meio inconsequente da adolescência permanecesse, agora a gente tinha mais recursos pra se divertir. Várias vezes ele resolvia me visitar no meio da semana, pegava o carro e subia a serra, me ligando no caminho só pra avisar que a gente ia jantar fora. Saímos muitas vezes pra dançar, pra beber, pra comer, pra conversar, pra ir no cinema ou no teatro. Foi um dos melhores anos da minha vida, em diversos aspectos. No que o tangia, foi certamente meu melhor amigo, digo, meu maior companheiro. Todas as coisas boas de se fazer com um amigo, nós fizemos. Delicioso, mesmo.
Nessa época eu conheci o Paulo, e o Cepacol foi o primeiro a saber que eu estava gostando dele. E foi nosso cupido: eu queria um fime pra impressiona-lo, e foi o Cepacol que baixou o Waking Life pra mim, converteu o arquivo, legendou e gravou um dvd (não era tão comum ou fácil) e veio até São Paulo me entregar. A última vez que eu vi o Cepacol, foi essa. Ele veio à minha casa com um dvd pirata na mão. Como eu nunca o tinha visto fardado, ele veio com o uniforme de gala da aeronautica só pra fazer o gosto. Eu lembro. Ele desceu do carro, andou devagar, com aquela cara de "você me paga" que ele fazia quando ficava com vergonha. Ele odiava usar farda no meio dos civis. Eu só disse "você está lindo", ele me entregou o dvd, sorriu e saiu, porque precisava fazer não sei o quê em Santos dentro de pouco tempo.

Hoje faz 3 anos que ele morreu. Tenho o maior medo de esquecer dos detalhes. Quanta, quanta saudade eu sinto dele.

6 pessoas pararam por aqui:

Ricardo C. disse...

Tão bonito quanto doído.
Foi bom vir aqui hoje. Muito, muito bom.

lola aronovich disse...

Que triste, Aline. Mas sua narrativa serve pra provar que é totalmente possível pra um homem e uma mulher serem amigos.
Como que ele morreu? Foi pilotando avião?
E sabe, I love men in uniform! Acho sexy.

aline disse...

Oi Ricardo. Eu tbm acho que tem coisas nessa história que são belas, sabe? Eu já tentei falar sobre isso, mas é difícil. Doído, com certeza. Obrigada.


Lola, eu nunca pude me queixar dos meus amigos homens. Sempre tive muitos, e muito bons amigos. O Cepacol fo um deles, talvez aquele com quem eu tinha mais afinidade e carinho, mas certamente ele não foi o único.
Ele cometeu suicídio. Foi uma das coisas que mais me marcaram. Eu já escrevi várias vezes sobre ele no blog. Aqui, por exemplo:http://ateaquitudobem.blogspot.com/2008/10/do-fascnio-que-morte-causa-i.html
bjao

Carla disse...

Oi Aline, cheguei aqui atraves do blog da Camila.
Que historia linda, e que coisa doce voce dizer que tem medo de esquecer dos detalhes...
Nao sao muitos os amigos assim, nao e verdade? E que bom que sao poucos, assim eles nunca sao banais.

Camila disse...

Oi Aline,

Mais um comentário atrasado meu... Também, não tinha como ser diferente: você anda escrevendo coisas que exigem um tempo de elaboração mesmo!

Queria comentar apenas o finzinho do post: seu medo de esquecer os detalhes. Que é um medo que eu também já tive muito, e acho que todo mundo que perde alguém o sente em alguma medida. E atualmente me sinto um pouco mais tranqüila com relação a isso. Porque aprendi que o que é realmente importante a gente não esquece, sabe? De verdade. Ou esquece e, quando menos espera, a lembrança volta de repente. O que eu vou te dizer agora pode ser que soe como auto-ajuda, mas é sincero: confie no seu inconsciente. Sério. O mais importante já está em você, e este texto é a prova mais cabal disso.

Um beijo, Aline.

aline disse...

Oi Carla. Pode entrar, pega uma cadeira e sinta-se em casa. Obrigada pelo seu comnetário. Essa é uma das histórias da minha vida pelas quais tenho muito apreço. Guardo com carinho, mesmo. Conto com carinho, lembro com carinho. Se as pessoas leem e sentem isso, eu fico contente. Aliviada, sei lá. De não deixar sumir.

Camila, lembra quando eu falei sobre diálogos internos? Quando eu escrevi que tinha medo de esquecer dos detalhes, lembrei de você na hora. Várias coisas que vc já escreveu me fizeram pensar. Eu tbm acho que, no fim das contas, nada de importante será esquecido e desaparecerá. Ao mesmo tempo, se eu esquecer algma coisa, não vou saber. Porque esqueci. E eu sou de esquecer várias coisas. Enfim. Esse breve e último encontro com ele, por exemplo, ficou bloqueado por alguns dias quando eu soube da morte dele. Eu não conseguia lembrar quando tinha sido a ultima vez. Só depois, uma noite, antes de dormir, de repente voltou. Com uma riqueza de detalhes, sabe? Eu lembrei até sa sensação de vê-lo chegar com o dvd na mão. E, claro, a sensação estava modoficada pela notícia posterior da morte. Várias coisas tomaram outra proporção. Acho que estou elaborando isso até hoje. 3 anos, e ainda não acabei. Obrigada pelas coisas q vc diz - direta e indiretamente. um beijo, Camila.

Postar um comentário

Diga lá.