21.11.08

Última Parada 174


Ontem foi dia da Consciência Negra. Eu já estava no cinema quando lembrei disso, que era esse o feriado. E nós tínhamos decidido assistir ao filme "Última Parada 174", que não é o filme que eu mais queria ver essa semana, mas entre os que estavam em cartaz era a melhor opção.

O que eu mais gostei no filme é a ausência de excessos e carnavalizações da vida marginal. Quero dizer, não há nenhum tipo de retrato do malandro, do cara que se desdobra pra conseguir sobreviver um dia depois do outro. Não que o personagem, o Alê Beijo, passe a vida numa boa. Não passa. Não toca nenhum sambinha enquanto ele aje com esperteza. Não há muito espaço pra manobra, ele não consegue se esquivar das encrencas. Apanha feio mesmo, o tempo todo. Vê a mãe morta, é meio rejeitado pelo tio, vai parar na Candelária com outros meninos de rua, sobrevive à chacina. E embora o mundo o esmague, também não vejo nele aquela vitimização óbvia, ou esvaziamento de sua consciência e (portanto) de sua humanidade. Há várias pistas de que sua subjetividade ainda está lá, lutando pra existir. Em frangalhos, mas está lá. Alê Beijo demonstra paixão, lealdade, carência. Coisas que as pessoas todas sentem. Eu paralisei quando ele aceitou ser filho de uma mulher que ele sabia que não era sua mãe. E como ele toma o papel imediatamente, defendendo-a do marido. Ele não é alheio, desprendido. Acho que o filme é duro o bastante, mostrando o quanto a cidade é inacessível. Fica muito claro isso quando os comerciantes abrem as portas do comércio e vêem os meninos e adolescentes sem teto por lá, nas calçadas. Ninguém fala nada, porque tem medo. Mas eles tem raiva também. E isso fica muito claro, de que eles não deviam estar lá. Logo depois disso vem a cena da chacina. É tão forte.
E tem a coisa do rap, dele ser analfabeto e compor de improviso as letras dos raps que contam a história dele. Ou que transmitem o que ele sente no lugar de falar. Ele canta o que ele pensa, sente e lembra. E se recusa a escrever, porque tem que esquecer os versos pra poder inventar outros depois. A insistência dele em esquecer os raps parece tão próxima da incapacidade dele em esquecer da violência pela qual já passou. Essa rememoração constante e latente, aliás, causa algumas superstições. Ele cisma com a imagem do copo quebrado, porque o faz lembrar da noite em que sua mãe morreu. Ele quebrou um copo poucos segundos antes de ver o corpo dela. E a cena do copo se retepe. Na casa da "outra" mãe dele. No dia do sequestro. Ele associa o copo quebrado à infelicidade e à morte. Assim como associa a luz atrás do Cristo à vida e à felicidade. A luz é o que sobrou da mãe morta, porque ele diz que ela virou estrela no céu. E ele vai parar na Candelária porque queria chegar em Copacabana - era o que a mãe disse que eles fariam juntos, um dia. E a promessa de vida não se completa. Enfim, a intuição dele volta o tempo todo, anunciando os momentos em que a vida dele estará por um fio. O filme não faz dele o bandidão sanguinário tipo Zé Pequeno. Ele nunca se torna um animal, uma besta. A violência dele tem limites, é contextualizada. Embora o Alê Monstro repita várias vezes que ele tem que odiar atirar, etc, ele não faz isso. Ele rouba, ele agride, mas ele não esvazia até esse ponto. Nem no final, quando ele sequestra o ônibus 174. Nem aí ele perde os limites. Ele não atira. É a poícia quem atira, que mata a refém e que o asfixia depois.
Eu comecei falando do dia da Consciência Negra. Claro, o Alê Beijo é negro. E todos os meninos da Candelária, o Alê Monstro, os menores da Febem, a mãe, o traficante, a prostituta. E eu acho que a relação entre a vida deles e a raça é tão óbvia. Agora que o Obama foi eleito, ficam falando que o próximo 007 devia ser negro. Em filmes como o Parada 174, ninguém discute se os personagens deviam ou não ser negros. Óbvio é óbvio, certo?


O que eu menos gosto em assitir filmes assim, no cinema, é que eu lido muito mal com certos tipos de reações. Teve gente que gargalhou. Numas cenas que não tinham nada de engraçadas. Quando ele pede a mulher que ele ama em casamento - ela é prostituta - ele faz isso com um rap. E dá um anel de brilhantes pra ela, que ele roubou. Ela olha o anel, ouve a letra e responde "porra". E o povo caiu na risada. Sério, odeio isso. Porque parece que eles são exóticos. Que o jeito de falar, agir e sentir são estranhos. Eu não achei isso. Não achei a resposta dela engraçada, nem nada. Ela pasmou com o pedido, com o anel. "Porra". Tiveram outras cenas em que as pessoas riram. Eu não ri em nenhuma. Foi assim também quando eu fui ver Estamira. Tem uma hora, no lixão, em que ela diz que usa muita coisa dali pra cozinhar. E pega um vidro de palmito. Meu irmão estava com os olhos cheios d'água. Aí a Estamira diz "eu preparo, e fica melhor que em restaurante". Um cará lá atrás gargalhou. Meu irmão virou e gritou "tá rindo de quê, filho da puta?" Eu senti o maior orgulho dele, nesse dia.

2 pessoas pararam por aqui:

lola aronovich disse...

Muito boa a sua crítica, Aline (só li hoje). Eu vi o filme faz mais de um mês, e o tempo foi passando, e eu acabei nem escrevendo sobre ele, o que acho um erro. Gostei do filme. Não amei nem nada mas achei um filme digno. O problema é que o documentário é bem melhor.
Mas vc fala de vitimização, e o que mais me chamou a atenção no filme foi a falta de vitimização da prostituta namorada do Alê. Ela não apanha de ninguém, não leva desaforo pra casa, não tem vergonha do que faz. Achei a personagem muito marcante.
Ah, e também odeio quando as pessoas riem nos momentos errados. Mas acho que às vezes riem de nervoso mesmo, não porque acharam engraçado. E eu jamais seria assim extremista como o seu irmão...

aline disse...

É verdade, Lola, a Soninha não sofre nenhuma vitimação. Não sei se essa personagem é totalmente fictícia (como eu acho que são a mãe e o Alê Monstro), mas é minha preferida. No site do filme tem o depoimento do elenco, e eu gosto muito do que diz a atriz Gabriela Luiz sobre a Soninha.

Eu sei que as vezes as pessoas riem de nervoso. Mas sei lá. Gargalhada é muito frte, é muito expansivo. Pode ser tão agressivo quanto uma ofensa. Eu me sinto agredida quando alguém garganha em determinadas situações. Pode ser nervoso, claro que pode. Porque a violência as vezes desencadeia reações muito diversas. Não preciso ficar defendendo meu irmão, vc sequer o está acusando de nada. Acho que a reação dele foi uma resposta imediata àquilo que ele achou que era violento, a esse deboche. Gente passando fome é uma coisa que mexe muito com ele. Com nós dois, na verdade. É paralisante pra mim. Acho que o grito no cinema é uma reação muito forte, um recado pros outros. De que não se pode ver isso e passar ileso ou indiferente. Achei humano, muito humano da parte dele.

Eu realmente tenho receio do tipo de reação que esses fimes provocam. Porque eles estimulam conscientização, e tal, mas tbm dão vazão a mais conservadorismo e alienação, etc. Isso vai virar post, ainda.

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