16.12.08

da escolha

Há várias e várias coisas que me desapontam no governo Lula. Votei nele as duas vezes, mas na segunda o sentimento era de "podia ser ainda melhor". Não me arrependo, de todo modo. E a convicção se sustenta com declarações deste tipo: "Não se trata de ser contra ou a favor ao aborto. Mas de se discutir com muita franqueza porque é uma questão de saúde pública. Se perguntarem quantas madames vão fazer aborto até em outro país? E as pobres que morrem na periferia? Não se trata de ser contra ou não. É preciso que se faça o debate".

Entre o debate e a legalização há uma estrada longa e tortuosa. Não acho que estejamos sequer próximos de conseguir a descriminalização, quiçá a legalização. Mas acho também que essa distância se encurta com os debates, embora eles sejam costumeiramente medíocres (no congresso, no boteco ou na novela). Ainda há a blogosfera, a gente fala sobre e como quiser aqui, né?
A necessidade de um debate mais esclarecido, aliás, se mostra já com a dificuldade de encontrar informações, números precisos do aborto no país. Vasculhei um pouco alguns documentos do Ministério da Saúde. A maioria dos dados não me surpreendeu.

Vou já deixar claro: sou a favor. Incondicionalmente a favor, ou seja, eu não preciso de concessões ou circunstâncias pra defender que uma mulher pode interromper uma gravidez, se assim o desejar. Assim, só é uma questão de saúde pública gritante por causa das condições em que as mulheres precisam fazer os abortos. O ministério avalia, por exemplo, que no ano de 2005 houve mais de 1 milhão de casos de aborto. Considerem que este número é o de mulheres atendidas pelo SUS. E que apenas um quinto a um terço das mulheres se encaminha ao hospital e declara o aborto. Anualmente, no Brasil, há provavelmente mais de 3 milhões de abortos. Não consegui descobrir quantas mulheres morrem por complicações, tão desencontradas são as informações. Parece que em 1998, 119 mulheres tiveram o aborto como causa mortis declarada. Uma mulher a cada três dias. Confrontando com a estimativa de abortos feitos, me parece uma informação bem limitada - digo isso porque também li que o aborto está entre as três maiores causas de mortalidade materna no país. Outra coisa: das mulheres acusadas formalmente por terem praticado aborto, quase metade foi denunciada pelos médicos que as atenderam no hospital, embora isso viole os princípios éticos da profissão.
Os números, aqui, são só pra ilustrar o que eu quero dizer. Considerando a quantidade de mulheres que decidem interromper a gravidez apesar das dificuldades e da notável falta de segurança, não se trata apenas de falta de opção. Um aborto dificilmente seria a opção mais fácil, ou a mais desejada. É uma questão de escolha, antes de ser uma questão sanitária. Eu insisto nisso porque queria que o foco do debate saísse da vertente paternalista, segundo a qual as mulheres praticam o aborto porque não tem condições de criar o filho. Não é pouco, pensar nas motivações para não se ter um bebê. Acho que o aborto seria mais facilmente aceito se a emancipação feminina se desse de maneira mais sólida. Mas, não. Aqui, a defesa do aborto passa por uma vitimação das mulheres, pinta um retrato triste e solitário da mulher que quer mas não pode levar a gravidez adiante. Levantar hipóteses como "e no caso de estupro?", "e se o bebê tiver anencefalia?", "e se a mãe sofrer risco de morte?", "e se a mãe for uma menina de 10 anos abusada pelo pai?" não é defender o aborto. É defender o óbvio, heroicizando, por outro lado, as mulheres que enfrentam os riscos físicos e emocionais pela maternidade. A contrapartida é ruim. Demanda mais proteção, mais temeridade pelo assunto. Por isso eu acho que a defesa do aborto deve passar necessariamente pela liberdade da escolha, e não pela falta dela.

Os que são contrários adotam posturas radicais. A defesa da vida do feto muitas vezes flerta com o fascismo e com um moralismo religioso vingantivo - o pior lado possível do discurso conservador. Eu fico irritada com o argumento que se apoia na especulação da vida do feto, estilo "ele poderia estudar, ser um médico e encontrar a cura do câncer". Porque agrega valor à vida do embrião, e isso é um artifício cruel demais. O embrião abortado tem mais espaço no debate público do que os nascidos. As atitudes que as pessoas tem, individual e coletivamente, hoje, não refletem lá muita responsabilidade ou cuidado com o futuro. É meio brócolis dizer isso, mas ambientalmente nós vamos deixar um mundo muito difícil para as próximas gerações. E no entanto, são os embriões abortados que ferem o Sentido da Vida.
O argumento religioso também não se sustenta muito, pra mim. Em primeiro lugar porque a vontade de deus é uma coisa específica demais. Quero dizer, se eu fosse mesmo entrar no mérito espiritual do aborto, tenho o direito de recusar os princípios judaico-cristãos. Posso ser pagã, budista, xintoísta, posso não ser nada. O pecado, se pecado existe, é pessoal e intransferível (eu li isso aqui, e achei o máximo). E eu tenho direito, espiritualmente, de construir minhas balizas de certo e errado. O que acontece é que embora o corpo seja meu, o controle sobre ele é coletivo. Quero dizer, a sexualidade feminina é supercontrolada. A gestação há de ser também. Eu já ouvi dizerem que mulheres que praticaram um aborto deveriam ser esterilizadas. Porque recusaram uma vez a maternidade, deveriam ser apartadas dela para sempre. Como se fosse um reprovação no teste social.
Volto ao que dizia, que o aborto é sobretudo uma questão de liberdade de escolha. Sem esse viés, dificilmente o debate deixa de ser moralista e cerceador.

Então, sim, presidente, eu também acho que não é uma questão de ser a favor ou contra. Não sei se pelos mesmos motivos e preceitos que o senhor. Uma escolha desta natureza não pode ser submetida à aprovação da sociedade toda. A pergunta não cabe. Opinião, cada um tem a sua. Corpo, destino e consciência, também.



Adendo: eu procurei uma imagem interessante pra por aqui, como é de praxe. Não encontrei nada que prestasse. Independente da palavra, no motor de busca, sobram os cartazes com fotos de fetos putrefatos e jogados no lixo. Acho isso de extremo mau gosto. Essas fotos constroem uma idéia horrorosa e muito violenta sobre as mulheres que abortam. Eu lembro dos corpos dos judeus jogados nas valas dos campos de concentração. E o efeito há de ser esse, de repulsa. Pra que nossa reação seja visceral. Uma imagem vale mais do que mil palavras, não é isso? Então eu vou descrever uma camiseta que eu vi, uma vez. Tinha uma frase central: se os homens engravidassem, o aborto seria permitido. E a imagem do papa, ao lado. Grávido. Imaginem vocês a cena.

8 pessoas pararam por aqui:

Bruno disse...

Aline,
o argumento que 'agrega valor' à
vida do embrião poderia ser respondido na mesma moeda:ele poderia ser Hitler, Pol Pot ou qualquer outro desses...

Luisa disse...

Eu não vim aqui para comentar o post "da escolha". Vim pra dizer que adoro ser essa bagaça hehe Ando sempre por aqui. âs vezes entro e já há dois ou tres novos posts. De verdade que é a melhor escapadinha pros momentos de monotonia no trabalho, fofis. Gosto muito messs. Beijos e boa semaninha pra você!

aline disse...

Bruno. Concordo muito, o argumento pode se voltar contra o argumentador. E vc se torna um pessimista irremediável :)

Luisa. A casa é sua, ma chérie. Vc sabe que é bem vinda sempre pra visitar, e comentar o que quiser. Obrigada pelo carinho. Bjos e bom resto de semana. :)

Gi disse...

Clap, clap. Tudo que penso. Sem mais. ;-) Não aguento mais esse "culto à maternidade"; isso estraga qualquer relação saudável entre homens e mulheres. Não suporto mais ouvir coisas do tipo "mãe dos meus filhos". Ohhhhh que santona! E eu a p... Quelle horreur. Desculpe aí o desabafo!

Mônica disse...

Embora eu não seja incondicionalmente a favor do aborto para mim (isso talvez pq nunca precisei fazer um!), também defendo a liberdade de escolha. Cada um tem seus próprios "valores", digamos. Então, quem sou eu para dizer que você só deve fazer isso em determinadas circunstâncias?

Infelizmente, ainda temos um longo caminho pela frente no país para a mera descriminalização. Você está acompanhando a palhaçada da "CPI do Aborto"? No mês passado, saiu essa notícia no Estadão, de 1,5 mil mulheres indiciadas por aborto no MS: (http://www.estadao.com.br/geral/not_ger279378,0.htm)e outras que foram condenadas a trabalhar em creches! Quer mais crueldade que isso???

aline disse...

Oi Gi,
eu tbm não gosto do culto à maternidade. É um dos traços fortes da alma feminina, da essência, e eu recuso tudo isso. E eu acho que, pelo número de mulheres que tbm não gostam e nãi ligam pra essas coisas, o discurso começa a ser descontruido. Mas eu to falando de um grupo muito específico de mulheres, cujo grau de instrução e situação financeira são presumivelmente bons.

Monica, fazer um aborto de fato coloca as coisas em perspectiva. Conheço de muito perto duas mulheres que fizeram. Elas quiseram fazer. Poderiam, de modo financeiro e prático, ter filhos. Mas o fato de não os querer tornou o aborto uma necessidade. Acho necessário não ter uma criança se vc não quer tê-la. Eu li a respeito dessa CPI, essa história das mulheres. Acho absurdo, mas tão previsível. É tão Brasil. A "pena" de trabalhar numa creche me soou como vingança, como seria vingança esteriliza-las. Essa postura ressentida, cruel é típica de um país conservador e machista.
Essa história eu separei pra um segundo post. Virá, dentro de uma ou duas semanas. Abraço!

lu disse...

nossa.
esse blog é bom demais.
eu nem ia comentar nada, mas passei só pra deixar registrado, de novo, que eu também sou da turma que pensa assim ;)

Linha disse...

"Acho necessário não ter uma criança se vc não quer tê-la."
Jà comentei no post là de cima mas essa frase ai diz tudo, tudo, tudo. Muito bom.

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