22.12.08

dos 100 anos de Aracy

Quando Aracy Moebius de Carvalho nasceu, o mundo era tão outro deste que a gente conhece. Ela passou pelas décadas de 20, de 30 e quando a ameaça da Segunda Guerra despontou na Europa, ela já era funcionária da embaixada em Hamburgo e já forçava os limites do que lhe era permitido para proteger os judeus. Fluente em inglês, alemão e francês, a bela Aracy era responsável pelos vistos, e nós sabemos que Getúlio Vargas colaborou durante longos anos com o governo alemão. As cotas de judeus que poderiam viajar e tentar melhor sorte aqui nos trópicos eram estipuladas e pequenas.
Ainda assim, ela 'embaralhava a papelada para que o cônsul assinasse as requisições de visto sem se dar conta dos sobrenomes judaicos. Outra estratégia era conseguir passaportes sem a letra "J" - que identificava os judeus - com amigos que trabalhavam na prefeitura. Como o atendimento se restringia aos moradores da região de Hamburgo, ela conseguia atestados de residência falsos. Certa vez, levou uma pessoa escondida no banco de trás do carro. Como a placa do automóvel era do corpo consular, atravessou a fronteira com a Dinamarca sem ser revistada pelos nazistas.'* Por conta desses gestos de solidariedade, ela ganhou o apelido de anjo de Hamburgo.

Em 1938 ela conheceu o cônsul-adjunto João Guimarães Rosa em Hamburgo, e os dois já eram separados de seus primeiros cônjuges. Voltaram ao Brasil juntos em 1942, e em 1947 casaram-se "extra-oficialmente" - uma vez que o Brasil não reconhecia matrimônio entre desquitados. Aracy recebeu o merecido reconhecimento e homenagem do estado de Israel, sendo convidada a plantar uma árvore no Bosque dos Justos, e é também mencionada no Museu do Holocausto.
Sei, também, que ela ajudou alguns artistas na época do AI-5. E sei que Guimarães dedicou sua obra de maior expressão e valor, Grande Sertão: Veredas, a ela, a Ara. Sei que a história dela é muito maior do que esse textinho que eu escrevi aqui.

Ela completa 100 anos neste dezembro de 2008. Admiro tanto essa mulher, que eu queria poder dizer "obrigada" a ela.


Fonte: Estadão

3 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

eu li sobre ela no jornal hoje de manhã e fiquei uau. ela tem um bosque com o nome dela em israel...
e ela e o guimarães rosa não se casaram oficialmente porque ambos eram desquitados e não podia se casar, segundo as leis do brasil na época. não era reconhecido o casamento deles como um casamento legítimo... (lembra algo, né.)

Daniela disse...

eu nao conhecia essa história. que fantástica, essa mulher.

aline disse...

É, meninas, ela é fodona. Queria que escrevessm uma biografia dela, e tal.

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