23.12.08

dos laços

Continuando com o assunto do aborto. Eu penso muito nesse assunto, é uma das questões de maior importância pra mim. Eu era contra. Em um momento muito marcante da minha vida, mudei de idéia. Todo o contexto vai ficar pra outro post, outro dia. Mas os argumentos, eu já os coloco aqui, aos poucos. Já me posicionei quanto ao fator religioso, que considero um dos mais fortes. Eu acho ruim o discurso favorável ao aborto se construir como oposto imediato do discurso contrário. Porque, em algum momento, a gente esbarra num núcleo mínimo e insolúvel de definições contrastantes. Do que é vida, do que é morte, do que é assassinato. Os favoráveis ao aborto precisam constantemente relativizar esses conceitos pra se sustentar no debate. E, daqui de onde eu vejo e penso o mundo, tudo me parece enviesado. Porque defender o Direito à Vida, assim, tão absoluta, hoje, só é possível se você ignora todo o contexto em que nós vivemos. O direito à vida em si, embrionário, puro e sacralizado só é possível se todo os aspectos da vida cotidiana forem sumariamente relativizados.
Se eu falar das crianças que morrem de AIDS na África, se eu falar da prostituição infantil no Brasil, se eu falar da fome e da escravidão nas periferias mundiais, se eu pensar em mortalidade infantil de maneira mais geral quando o assunto for aborto, serei acusada de cinismo. E talvez eu seja mesmo cínica, por querer enxergar além do meu quintal e pensar que a sociedade que usa carros e usa bandejinhas de isopor para embalar alfaces individualmente não tem lá muita noção do que seja o direito à vida, nem o que seja incondicional ou absoluto ou irrestrito.
Com frequencia nós lidamos com o discurso do "salvamento de vidas". Acho que desde o movimento "We are the world" isso ficou cada vez mais forte. Você já doou dinheiro a projetos destinados a menores carentes? Já "adotou" uma criança por alguns dólares ao ano, garantindo-lhe escola e roupa? Já comprou bala no semáforo para ajudar alguma casa de caridade? As vidas que se "salva", nesses casos, podem ser tão abstratas quanto a vida do embrião que se aborta. Quero dizer, não são pessoas com as quais lidamos física e emocionalmente. São pessoas cuja importância em nossa vida depende de nossas projeções e convicções. Tenho a impressão de que a lógica que condena o abortamento é uma espécie de ramo da proteção coletiva às crianças do mundo, na medida em que as duas coisas tendem a lidar com existências fragilizadas e carentes, mas contudo distantes da experiência diária.
Proteger embriões de serem abortados, entretanto, não é protege-los de uma condição perigosa ou degradante, é evitar as consequências do tipo de envolvimento que a gestante tem com a gestação que decidiu interromper. É repressor, no sentido de coibir um ato, de extingui-lo. E essa repressão discursiva e coletiva, acredito, extrapola o âmbito legal. Quero dizer, o fato de o aborto ser um crime não é a única nem principal justificativa para alguém ser contra. Acho que muitas pessoas rejeitam o aborto porque projetam nos fetos um apelo de futuro e cuidado que as crianças geralmente despertam. E essa projeção viabiliza a intervenção do Estado e da sociedade na escolha da gestante.

Certamente é meu cinismo incurável que me leva a pensar que tudo depende dos laços que a gente estabelece com as coisas. Assim como ninguém engravida sem ter ouvido falar em prevenção e métodos anticonceptivos, ninguém aborta sem ter ouvido a palavra assassinato. Acreditem, toda mulher que abortou já se pensou criminalmente, ao menos uma vez. E isso pode, ainda assim, ser menos assustador do que uma relação tão ritualizada e estimada quanto a da mãe com o filho. Estou, de novo, falando sobre a escolha. Assim, uma mulher pode não querer ter um filho porque não quer, neste momento, estabelecer um laço tão intenso com uma pessoa. Não, pera, vou dizer de outro jeito: uma mulher pode recusar uma relação que está muito bem definida socialmente, mas que pessoalmente não lhe parece ser desejável, interessante, verdadeira. Estou excluindo deliberadamente os casos de necessidade, dos quais já falei aqui. Os casos de necessidade comovem, os de escolha revoltam - e são esses que eu defendo mais. Pode ser revoltante, ou pelo menos consternador, que uma mulher não queira ser mãe, mesmo depois de tornar-se uma. A gravidez confere imediatamente o peso da relação materna com o filho. E por isso pode ser tão complicado: é e não é um relacionamento que se constrói ao longo da convivência de duas pessoas, é algo que extrapola, por exemplo, o nascimento de um dos integrantes da relação. O bebê já deve ser amado e priorizado, antes mesmo de estar aqui fora, no mundo. Então, no começo, a relação entre mãe e filho depende única e exclusivamente da entrega da mãe. Não sei como me entregar unilateralmente a uma relação sem antes querê-la. Sem ter projetado a existência e a importância de um outro em sua vida.
Há, por exemplo, mulheres que consideraram o aborto e, depois de nascida a criança, sequer conseguem pensar em não tê-las em suas vidas. Esse movimento acaba virando outro forte argumento antiaborto, a de que a vida das mulheres se completa com um filho, de que todos se apaixonam pela criança e coisas semelhantes. É verdade, eu sei que acontece muito. Mas também acho que uma coisa não exclui a outra: são dois momentos diferentes. A vontade de abortar pode ser tão sincera quanto o amor por um filho não planejado - o que muda são os laços que a mulher quis estabelecer com essa pessoinha. Que, não existindo, não tem como virar uma lacuna sem ser antes uma idealização, tão nociva quanto qualquer outra. A vida de uma mulher que não manteve uma gravidez não é necessariamente incompleta só porque a possibilidade de um filho se mostrou mais concreta um dia.
Também há quem ache melhor conceber a criança e deixar que alguém se encarregue da tarefa de criar. Eu vejo nessa "proposta" uma presunção de egoísmo da parte da mulher: já que não quer cuidar, que pelo menos dê uma chance à criança de ser feliz com outra mãe. Pode ser a solução para algumas, mas essa possibilidade não substitui o aborto. Penso que, abortando, não é apenas a gravidez que se rejeita, é tudo. Inclusive a possibilidade de abandono para adoção, que é um tipo de relação, ainda que com o sinal negativo. Não ser mãe é diferente de ser uma péssima mãe. E, embora a sociedade pareça achar menos execrável o segundo tipo, mais de 1 milhão de mulheres no país preferem o primeiro.


Acabo de perceber que não há imagens possíveis para estes posts.



p.s. em 25/12 : eu mudei um pouco o texto porque tinha escrito de madrugada e postei sem reler. Achei meio confuso e agora - acho - ficou melhor.

6 pessoas pararam por aqui:

Ricardo C. disse...

Eu gosto muito do teu blog, já disse? Resoluções para o ano que vem: além de freqüentar (últimos dias do trema!), prometo comentar mais. Este post, por exemplo, que merece ser lido com a atenção que não tenho faltando alguns minutos antes de sair para comemorações natalinas. Como sei? Pelas primeiras linhas. Já dá para sentir que o troço é bom!
Beijos e boas festas, para você e os teus!

Linha disse...

post excelente. Eu gostaria de saber apresentar idéias e argumentar com essa clareza. Parabéns. (isso, é claro, além de eu concordar com a idéia apresentada. mas os elogios valeriam mesmo que e não concordasse.)

Ogro disse...

Parabéns pelo post. Citando Linha, quisera eu ter essa capacidade de expor idéias sem muito rococó e volutas.

Todavia, falando do alto de minha filosofia barata de macho que nunca ficará buchudo, não há desculpa, em pleno século XXI, para alguém ficar grávido por "scaps" ou qualquer outro motivo. Não estamos falando de acidente, que como você mesma já disse foi discutido em outro post. Então, sob qualquer ângulo, é uma das coisas mais estúpidas de se fazer. Não exatamente o aborto, mas a gravidez. Se temos 1 milhão de abortos anuais (no Brasil?) então temos 1 milhão de pessoas que não sabem administrar direito suas vidas. Se algo tão simples como isso é rocket science pra esse povo, o uso do papel higiênico, que é muito mais complicado, fica onde?

Sei lá, a discussão sobre aborto parece-me um tanto superada, não se deveria considerar isso como opção - e não estou falando de religião ou moral ou saúde, estou falando sobre inutilidade. Aborto é um gasto desnecessário, uma perda de tempo desnecessária, a correção de um problema que não deveria ter sido criado em primeiro lugar - lembrando que não estamos falando de acidentes.

Se a sexualidade, saude sexual e demais aspectos da coisa hoje são praticados e discutidos às claras, desculpa, devo ser mesmo bem brucutu, mas não consigo conceber um "puxa vida, tou grávida".

Eu poderia mostrar vários outros ângulos da coisa aqui, mas acho que você (e todo mundo) entendeu o que estou querendo dizer, mesmo com volutas e rococós.

Antes de se decidir sobre ser ou não contra algo como o aborto (aliás, essa discussão "contra/a favor" é extremamente superficial, tem muita coisa no meio e sob casca) há que se evitar a concepção, não interrompê-la. Do alto de minha franca e talvez ignorante macheza, não consigo conceber alguém deliberadamente atirar um copo no chão só pra poder jogá-lo fora depois, reclamando do infortúnio. O melhor é não jogar o copo no chão, certo? É mais barato, não ficamos com um copo a menos e ninguém precisa se cortar.

Claro que eu imagino que acidentes aconteçam, mas a própria palavra "acidente" deveria ser considerada pela comissão julgadora dos envolvidos na categoria "casos omissos" - não regra geral. Já atravessamos o umbral da era de aquário, é impensável pra mim alguém ficar grávida por esporte, deliberadamente (veja, como você mesmo disse, NÃO estamos falando de acidentes) e depois decidir interromper a gravidez.

Mas, enfim, além de eu ser ignorante, não consegui (de novo) dizer o que queria. Paciência. Volutas e rococós. Spare him his life from his monstruosity.

aline disse...

Oi Ricardo...
Eu agradeço sempre e muito seu carinho. Estou esperando sua nova visita e seu comentário sobre o texto.
Um beijo, e bom fim de ano pra vc tbm. :)

Linha, obrigada de verdade. Eu me esforço porque percebo o quanto vale a pena.

aline disse...

Ogro,

Eu costumo encarnar o espírito conciliador nos debates, mas em alguns assuntos eu não consigo. Discordo de vc, e acho que vc já imaginava isso. :)
Eu posso concordar que a prevenção é a melhor escolha, mas essa é uma situação muito, muito abstrata. Mesmo com os melhores métodos contraceptivos, acho que sempre haverá gravidez não planejada. A camisinha, que é uma das melhores, ainda oferece risco de 3 a 5% de falha. Os outros métodos são ainda mais arriscados. Então mesmo as mais prevenidas podem acabar engravidadndo sem que isso seja resultado de irresponsabilidade ou qualquer outra coisa. O único método 100% seguro é o celibato, e ainda assim, veja o que aconteceu com a Virgem Maria. :)
Mas não são desses casos que vc estava falando. Claro, o número de mulheres que engravidam por não terem usado algum método anticoncepcional é maior do que as que usaram. Não sei se a palavra acidente é a que melhor se encaixa, mas entendo a idéia. Ainda assim, acho que apesar de todos os esforços do Ministério da Saúde em programas e campanhas de prevenção e planejamento familiar, a cultura brasileira não tem como princípio o cuidado com a saúde. Quero dizer, médico é sinonimo de doença. Não somos fortes em medicina preventiva, em medidas sanitárias preventivas. Não é da nossa cultura prevenir as situações, tendemos mais à remediação. Acho que um traço cultural não se dissolve facilmente.
Agora, usar o argumento de que é melhor prevenir do que abortar é um argumento fácil. Porque ele projeta esse cenário perfeito de um país com estrutura social adequada para promover planejamento familiar impecável, sem resolver a equação do 1 milhão de abortos anuais no Brasil. Não é uma discussão superada, pelo contrário. É uma questão saturada e que permanece insolúvel. Aborto custa tempo e dinheiro na medida em que se converte em mortalidade materna, gastos de recursos de saúde e processos jurídicos, mas não sem compara com os gastos - se é que a conta é necessária - com uma gestação inteira, com criança, um indivíduo ao longo da vida. Ainda mais se for alguém pobre e que pode fazer girar a roda das injustiças sociais, violência, etc.
No mais, acho que vc não é um Ogro. Por definição, Ogro é quem come as criancinhas. E, se eu entendi direito, por vc as criancinhas sequer existiriam. :)
Um abraço

Daniela disse...

Nao vou comentar o que acho sobre aborto pq eu tenho uma opiniao muito fragmentada e nao sei organizar as idéias a respeito com muita clareza.
Aliás, li seu post pra familia aqui e disse: ela só tem 25 anos. Eu nao era assim inteligente aos 25 anos (nem agora...hahaha)!!

Beijos, beijos

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