21.12.08

dos limites da sexualidade (na novela)


A culpa toda é da minha avó. Aquela velhinha noveleira. Parece até inocente, com os bolinhos de chuva e as rezas do fim de dia. Desde que eu saí de São Paulo eu passei a sentir mais saudades do que de costume de minha avó. Então, já que estou numa fase bem pacata, resolvi ver a novela da Globo, A Favorita. E depois eu ficava um tempão no telefone conversando com a minha avó, comentando a vaca sem coração que a Flora é, e como o Halley é bonitão. Eu adoro ver minha avó paquerar esses galãs de novela, sabe, porque ela sempre deu uma de santinha. E agora a máscara está caindo: santinha uma ova. Enfim. Comecei a assistir casualmente A Favorita, por cauda da avó, e acabou que estou acompanhando todos os capítulos religiosamente e torcendo pelos personagens. Visualizem a situação.
Só que eu me irrito, julgando e analisando tudo no roteiro. É um inferno, pois eu fico remoendo o óbvio: a ideologia dominate domina mesmo, tá entendendo? A Globo é super conservadora e os personagens mais pá-virada (expressão da avó) ou se convertem ou são castigados. Eu até estava contentinha com algumas ousadias do autor, tipo colocar um deputado corrupto e traficante de armas, colocar uma lésbica bonitona e independente numa cidadezinha pequena, e um garotão que namora uma mulher mais velha e defende que os relacionamentos deviam ser mais abertos, assuntos discutidos com a profundidade de um pires, mas que já são um avanço dentro do modelito global.
Mas. Há sempre um mas. A novela tem uns surtos inexplicáveis. Por exemplo, tem um cara que é gay, o Orlandinho. Ele era super efeminado, mas casou com a Débora Secco porque não tem coragem de sair do armário e a avó dele acha que ele é o varão da família (vejam a dor de cabeça que as avós dão na gente). Bom. Orlandinho casou com Maria do Céu, que é gamada num cara que não gosta dela, e Orlandinho também é gamado num cara (o Halley) que não gosta dele, então nessas noites de solidão e carência os dois se pegam e passam a noite transando loucamente. E Orlandinho descobre que se dá muito bem na cama com uma mulher. No meu mundo, ele é bissexual. Na novela, ele é um indeciso. Começa a ter recaídas ht tipo dar um tapa na bunda da esposa e pedir "uma loira gelada" (= cerveja), porque ele cansou de energéticos, e assistir corrida de fórmula 1. Começou a falar mal de moda, de ginástica, de arte, odeia roupas moderninhas, já até deu barraco num bar por causa de uns caras que estavam paquerando a Céu e numa loja ele ficou dando mole pra uma vendedora bonitona. Ele varia entre a beesha declarada e o macho confiante. E sofre, o doidão. Porque a Maria do Céu fica radicalizando, perguntando como é que eles se pegam se ele é gay, etc. E o Orlandinho grita que é gay como muitos machinhos gritam que são homens, mas mostra aquela cara de "ai, meodeos, será?". Quero morrer com o Orlandinho, porque ele era meu preferido. Até são-paulino ele já disse que é. Um fofo. E agora virou um idiota. Eu fico conversando com a tv e repetindo: você é bi, mané, relaxa. Curte. 100% de aproveitamento neste mundo. Aproveita. (Ninguém imagina a cara que Paulo faz quando me pega conversando com os personagens, é o tipo da coisa que ele nunca supôs que viria de mim).
Será que é tão difícil notar as nuances neste mundo? Achei uó, isso de o cara ter que ser uma coisa ou outra. Mas é o tipo de moralismo que a Globo prega mesmo. Só agora eu comecei a notar como é forte isso, esses padrões de família e relacionamento que a emissora dita. Eu passei todo o colegial achando que era o Jornal Nacional que fazia a cabeça do povo (vocês já viram aquele documentário Muito além do cidadão Kane?), achando que ele era O instrumento de ideologização. Que nada, a novela faz isso de um jeito muito mais eficiente. Porque você não percebe que está recebendo tantos moldes de pensamento enquanto vê as historinhas água-com-açúcar. Não é isso que é ideologia? Quando você vê uma coisa como natural e nem se pergunta de onde veio aquilo? Porque é natural que homem goste de mulher, mas se não gostar, vá lá, a gente já faz as concessões aos homens que gostam de homens. E joga a sexualidade na tabela do sim ou não, homem ou mulher. E quando o Orlandinho transa com a Céu, todo mundo diz "ih, mas ele não era gay?". Como se houvessem regras, como se ele as tivesse violado. E, além de mudar a orientação sexual dele (ou seja, o autor defende uma opção sexual), a personalidade dele mudou junto. Pobre, né?

Então, minha avó me mata de orgulho. Porque ela não ficou surpresa com o Orlandinho. Ela riu e disse "ih, ele gosta de mulher também!". Adorei ela dizer isso. Minha avó enxerga longe.

E tem mais:
1) Nem vou comentar da mulher do prefeito, que traiu o marido duas vezes com o melhor amigo dele e virou a amaldiçoada da cidade, apanhou e até dormindo na rua ela está. Nem vou comentar que o amigo, que necessariamente também traiu o prefeito, virou o coitadinho depois de uma surra que tomou e está refazendo a vida com uma moça de bem, super assexuada. Essa parte eu vou pular, porque, né? A maior falta de noção do autor. Estilo "taca pedra na Geni", etc. Me deixou pretérita também.

2) Minha mãe não se conforma de me ver assistindo novela e comentando entusiasmada com a minha avó no telefone. Eu já proibi ligações no meu celular entre 20h30 e 22h20. Proibi. Ainda mais agora, na reta final dos acontecimentos. Ela diz que não me criou pra isso, etc.

6 pessoas pararam por aqui:

Gi. disse...

A moça que trabalha aqui em casa é viciada em novela. Eu não gosto muito, prefiro seriados britânicos, mas comecei a assistir A Favorita, porque era na hora do jantar, tava todo mundo na mesa, todo mundo assistia junto, por causa dela, que ja trabalha aqui a tanto tempo que já é da familia, senta na mesa, escolhe cardapio, enfim, voltando ao assunto. Ela virou comédia dentro de casa, porque ela pega ódio MORTAL dos personagens das novelas. Eles não podem nem passar no video show que ela fica brigando, falando mil coisas. E ela é INDIGNADA com o Orlandinho, que ele devia deixar de ser gay e ficar com a Céu mesmo, porque ele sofre muito gostando do Halley. Ah! E tambem porque na igreja dela, dizem que isso é errado. Mas ela gosta da Stela, porque ela tá ajudando Catarina, e disse que se ela precisar virar homoafetiva (eu ensinei isso a ela, ela falava palavras muito feias) pra deixar aquele marido (que ela tem OOODIO mortal), ela tá fazendo a coisa mais certa do mundo.
Vai entender essas coisas...

Ah! Ela gosta da mulher do prefeito, em parte, porque ela disse que todo homem tem que sofrer mesmo. Mas tem hora que ela fica gritando dizendo que ela tem que tomar vergonha.. bem, ela é verdadeiramente muito ambígua.

lu disse...

ah, eu não sei nada de novela, mas esse personagem eu já tinha ouvido falar porque maridão leu nalgum canto que o personagem gay na novela era são paulino. claro que tinha q ter o bendito estereótipo e tal. mas depois de ler esse post fiquei com uma imagem melhor do que seria esse personagem. Hahaha. profundidade de um pires. exatamente.
mas eu fico pensando que é meio o lance tostines. a novela faz o público e o público faz a novela...

aline disse...

Oi Gi!
Verdade, a moça parece ser ambígua. Mas a novela dá respaldo pra isso também, compreensão de um lado e de outro não... Enfim, a Globo que é manipuladora. :)



Oi Lu. Tudo verdade, a novela faz o público, o publico faz a novela. O Orlandidnho era um personagem muito legal. Eu não achava ele estereotipado, até que ele se converte e começa a estereotipar retroativamente. Ele constroi a imagem do gay que ele costumava ser e ai estereotipa. Um prato cheio pra teoria da personagem, mas pro meu entretenimento de começo de noite é o fim da picada. :)

Victor Bianchin disse...

Tenho que concordar com sua mãe. Novela é dose. Em toda minha vida, assisti só duas: Vamp e Próxima Vítima. Para o resto, não tive paciência.

Essa história do gay que mudou de time é tão absurda que vira engraçada. E triste também, quase tanto quanto as lésbicas explodidas...

aline disse...

Victor, não seja herege. A novela foi super divertida, pelo menos até o presente momento. Porque agora na reta final, os estorvos morrem ou viram cidadãos de bem, e felicidade demais me enche o saco. De resto, foi super legal, ouviu?

aline disse...

ps. lésbicas explodidas??????????????????????????????????????????????????????

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