26.12.08

pequeno dicionário animal

Este é meu protesto. Contra nosso mau uso dos nomes dos bichos na hora de ofender alguém ou simplificar sua personalidade. Não ouso contestar esse nosso direito inalienável de agressão ao próximo. Mas as injúrias contra certos animais é inaceitável. A gente não entende nada de bicho, sabiam? Escolhe errado, interpreta mal o comportamento deles. É uma bagunça. Vejamos um breve estudo de casos:

A Vaca
Percebi isso quando ouvi um amigo dizer que tinha uma professora que era uma vaca. Ele estava me contando como ela era exigente no comportamento, brava, irredutível nas datas de entrega de trabalho. Sabe quem mais é vaca? A chefe que enche a gente de trabalho, que não reconhece, que fica cobrando, que usa um chicote e um relógio de pulso do tamanho de um pires. Não é uma vaca? Mas, gente, pensa comigo: a vaca mesmo, coitada, é o desprendimento em pessoa. Digo, em animal. Ela dá seu leite - e eu imagino o quão aborrecido é ficar sendo ordenhada, apertada, entubada e sugada o tempo todo! Ela dá a carne, o couro, o bezerro, ela dá tudo. É um poço de bondade, a vaca. De resignação e generosidade. Como é que a gente achou de chamar uma mulher que parece ter saído do sétimo inferno de vaca? Logo de vaca? Uma injustiça.

Mas, então, o que?
Abelha, pois. Você sabe como funciona a comunidade das abelhas? A rainha é uma criaturinha sem coração, sem piedade ou instinto maternal. Ela se aproveita do zangão, faz a farra, procria, e depois joga fora. O zangão, vejam só, não tem estrutura pra se alimentar sozinho. Então depois do oba-oba, ele deixa de ser alimentado e morre. E se mesmo as feministas mais radicais acharem que os zangões merecem esse triste destino, eu digo que as operárias também não tem uma vida boa. São exploradas escandalosamente, não tem direito ao desfrute dos atributos físicos do zangão e, se alguma coisa der errado, elas tem que sacrificar a vida pra defender a rainha. Ou seja, a abelha rainha é que é a verdadeira vaca.

O Burro
Outro injustiçado. O burro é um animal gente finíssima. Pra começar, é trabalhador. A gente até diz que alguém trabalha feito burro quando se trabalha muito. E como ele é forte, o burro. Além disso, é um animal simpático, amigável, dócil. E tem mais, o burro é paciente e atento. Se você usar um burro para se locomover de casa pro trabalho e fizer todo santo dia o mesmo caminho, ele aprende. E, se no domingo, você decidir ir no lombo de seu parceiro até o cinema e mudar a rota habitual, o burro corrigir-vos-á. Tentará dizer "não, meu chapa, o que você realmente quer é ir pra lá", apontando a trilha rotineira. Ele vai assumir a responsabilidade pelo trajeto, vai insistir na verdade. E você achará que o burro é burro, não obedece nem sabe de nada. Mas, sem ofensas, quem não sabe mesmo é você, criatura indecisa e errante neste mundo véio sem portera.

Mas, então, o que?
O besouro. Você já teve a rica oportunidade de receber a visita de um besouro em algum cômodo de sua casa? Lamentavelmente, este bichinho é pouco sagaz. Não aprende o caminho nem pra salvar a própria vida. Ele entra por uma janela, e começa desesperadamente a tentar achar o rumo da volta. E ele tenta empiricamente, batendo a cabeça nas paredes, muitas vezes no mesmo ponto da parede, muitas e seguidas vezes. E você assiste, consternado, o besouro desorientado ignorar a janela escancarada e finalmente se arrebentar no ventilador de teto. Inseto burro, é o que a gente pensa nessas horas.

A Galinha
Também quero dar a voz às pobres galinhas. Fora de um terreiro cercado e cheio de milho, galinha é uma mulher que demonstra interesse por muitos homens, que sai com eles e eventualmente transa com todos eles. O povo nem precisa de confirmação da transa, porque a galinha quer todos os homens, faz charme, é fácil e disponível, então é muito provável que ela transe com todos mesmo, a desfrutável. Nem vou entrar no mérito da questão do machismo. Galinha é uma mulher que tem vários homens. Mas, cidadãos e cidadãs de boa vontade, só quem nunca andou num sítio é que pode usar o nome da honrada galinha assim. No galinheiro há muitas galinhas e poucos galos. Às vezes, só um galo pra uma dúzia delas. A galinha é mulher de um homem só. O galo, vejam bem, é quem pega geral no terreiro. O galo.

Mas, então, o que?
Galo, ué.

O Veado
Talvez seja tudo culpa do Walt Disney e seu clássico personagem Bambi. O veadinho com cílios longos e jeito frágil deve ter virado um símbolo de feminilidade, mas de modo que os homens gays ganhassem o rótulo. De todo jeito, as pessoas que assisitiram o desenho não prestaram atenção no pai do Bambi, nem assistiram o Discovery Channel. Veado é aquele animal imponente e majestoso. Ah, e ele também tem aquela galhada enorme que ele usa pra brigar. Você já viu a disputa entre dois veados pela liderança do grupo? Puta bicho macho. Sem trocadilhos.

Mas, então, o que?
Gato. Esse é o bicho mais feminino do mundo. Anda rebolando, é elegante, esbelto, asseado, blasé... Até quando briga, é na base da unhada e do grito estridente. Mais adequado pra simbolizar o grupo, meu amor, im-pos-sí-vel.

O Cachorro
Cachorro é homem que não presta. Traiu a namorada, pegou dinheiro emprestado e não pagou, falou mal da vizinhança: é um cachorro. Dependendo da frequência ou do agravo da situação, vira um cachorro sem-vergonha e ordinário. Mas, gente, prestenção. O cachorro é o melhor amigo do homem. Oi? Aquele papo de lealdade, companheirismo, sinceridade, é tudo papo de humano, diz ai. A gente adora e venera os canis familiaris, mas não hesita em batizar nossos piores espécimes com o honrado nome deles. Que cachorrada.

Mas, então, o que?
Não sei, não sei. Parece-me que homem, mesmo, está bem cotado pra substituir esse deslize semântico.



Pois bem, espero ter demonstrado cartesianamente minha tese. Que a gente não sabe nada de bichos, mas nada como a brisa de uma mente observadora e pouco ocupada para remplacer as coisas. Então ficamos assim: Aquela vaca é na verdade uma abelha rainha, o burro é um besouro, a galinha é um galo, o veado é um gato e o cachorro é um homem. Oquei?

E tem mais:
Lembro, agora, de um amigo que tive na adolescência. Era punk anarquista, usava cabelo verde e endurecido com sabão de coco, roupas rasgadas e como ornamento, uma corrente grossa com um cadeado no pescoço. Garoto rebelde, esquentadinho, provocador. O apelido era Formiga. Digam, se isso não comprova meu ponto.

Mas também me recorda, agora, outro fato: o Formiga trabalhava no McDonalds.

7 pessoas pararam por aqui:

marjorierodrigues disse...

hahaha, adorei o post! Eu sempre falava isso sobre as vacas. São super dóceis e meigas, como é que virou xingamento?

Mas, dependendo da pessoa, chamá-lo por algum nome de bicho é ofensa pro bicho.

lu disse...

AAHAHAHHAHAHHAHAHAHA
perfeito, aline! quando a mulher me fechar no trânsito, vou gritar pelo vidro: sua ABELHA!
e o final foi excelente. pobre formiga.

Tha_FTS disse...

ahahahahahahah

Também sempre achei o burro muito injustiçado. Amansar um burro é mais difícil do que amansar um cavalo, mas isso não é porque o bicho não seja inteligente, pelo contrário, é difícil sujeitar o burro, provavelmente porque ele sabe que é melhor ficar no pasto curtindo a vida do que ficar carregando um humano pra cima e pra baixo. O burro é um rebelde que luta pela sua liberdade e não sede facilmente a torturas. Gosto dele! =D
ehehehehehhehe

Desculpa vir invadindo seu blog e comentando essa quantidade... Mas achei seu blog sem querer e amei! Adorei o senso de humor do início ao fim =)

Bjuuu

Lidiane Madureira disse...

Caraca, é a primeira vez que venho aqui e me diverti muito! Sua observação foi nota 10! Vlw pelas risadas! Bjs, LM.

luisa disse...

Aqui na Espanha um PERRO (cachorro) é uma pessoa preguiçosa. No México, PERRO é algo muito legal. Sim, "isso é cachorro, cara" é o que o Google diria na ferramenta de tradução.

Uma VACA é uma mulher muito gorda; "estoy como una vaca" é o que eu digo depois das festas de fim de ano.

CABALLO é um traficante de drogas.

Um CERDO (porco) é um homem muito filho da puta, que diz coisas de caráter inapropriado.

Daniela disse...

hahahahaha

muito bom!!

Eu só uso vaca. Nao sou muito de xingar...rs

Thiérri disse...

Muito bom...
e o departamento de jornalismo do seu blog deveria investigar: Que fim levou formiga???
Largou a vida de punk de butique?
Virou neo-nazista?
Virou hippie?

Dá uma novela!!!

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