9.12.08

réquiem para uma implicância


Eu já escrevi algumas vezes aqui sobre a morte de pessoas de quem eu gostava. É um assunto recorrente pra mim, na medida em que eu tenho dificuldade em lidar com a morte delas. Mas também é recorrente porque a finitude, a expressão do luto e nossos rituais são assuntos que me interessam. Lido com eles em muitas instâncias. E um dos pontos sobre os quais tinha convicção é de que a internet não é o meio adequado de expressar o luto. Quando eu perdi dois amigos jovens - um por suicídio e outra por acidente - notei que suas páginas do orkut estavam repletas de mensagens de amigos e parentes. Não eram, em sua maioria, mensagens de condolências para a família, nem conversa entre os que ficaram e queriam lembrar do falecido. Eram recados de saudades, amor, tristeza para quem morreu. Votos de fé, de descanso. Minha reação a essas coisas foi, nos dois casos, de rejeição.
Assim, quando li esse post que a Camila escreveu, pensei que compartilho desse estranhamento de que ela fala. E eu fui contra a manutenção das páginas de orkut de cada um deles, na época. Eu nunca me perguntei o porquê. Quem perguntou, na verdade, foi o Alex, na caixa de comentários da Camila, e depois por msn. A conversa com ele foi um tanto reveladora pra mim. Pois a pergunta "por que?" desvela que esse estranhamento é arbitrário. Não sei se consigo formular uma resposta pra essa pergunta. Esse post é uma tentativa de articulação, justamente.
Sei que o luto é uma das manifestações emocionais mais importantes, pois nos ajuda a seguir em frente e aceitar a finitude. Elaborar a perda requer muito esforço, amadurecimento, reflexão. Até aqui, nenhuma novidade.
Acho que a diferença mais evidente entre um velório, ou a visita a um túmulo, e um scrap no orkut de um falecido é que as duas primeiras são expressões tradicionais do ritual do luto. Há os vivos, o morto, e entre eles há um conjunto de sentimentos. Geralmente, nossas dores e saudades se traduzem naquelas rezas, despedidas, declarações, votos. De um jeito ou de outro, nós conversamos com nossos mortos. Seja na frente de seu corpo, de seu túmulo, na frente de uma foto ou com uma lembrança longínqua.
Por que, então, a internet não seria um suporte adequado para a expressão do luto? A resposta só poderia ter um tom muito pessoal meio ranzinza. Talvez a implicância com recados virtuais aos mortos venha da minha implicância com a maneira com que algumas pessoas usam portais como o orkut e facebook. Por seu papel supervalorizado nas interações sociais, na exposição da própria personalidade. A gente formata a própria identidade com citações, auto-definições, lista de amigos, fãs, comunidades de afinidades. E então a página vira um desdobrameno da personalidade e conquista um status de representatividade da pessoa no mundo virtual. Parece-me que a tecnologia faz sentido até esse ponto em que as pessoas interagem e se constroem virtualmente porque estão vivas. Citando Dr. House, dying changes everything. E então a manifestação do luto via internet me parece deslocada, como se este não fosse o campo discursivo adequado para expressar o pesar. Acho que este é o núcleo mínimo que eu consigo encontrar nesta implicância, que não passa disso, uma implicância. Meu pensamento imediato quando vi o orkut da minha amiga cheia de recados foi muito banal: é leviano postar aqui porque ela não tem como ver isso, a internet não é o lugar pra isso. Bobagem, porque é preciso acreditar em algum tipo de comunicação pós-morte para poder definir o meio em que essa comunicação se dá. Eu não acredito, então não faz mesmo muita diferença. A ritualização da morte, pra mim, não é sagrada. Quando eu fui comprar flores pro tumulo do amigo, o florista que trabalha ao lado do cemitério perguntou pra quem eram. Eu disse que era um amigo falecido, e ele embrulhou as flores com um papel laminado de embalagem de leite. Eu fiquei aborrecida, mas não falei nada. Achei que não era relevante o papel que embrulhava as flores de um defunto. No fim das contas, as flores eram pra mim. Pro que eu sentia. Pois se eu não acredito que ele tenha qualquer existência de além-vida, então não faz diferença se era papel de pão ou papel de seda. Curioso que eu nunca tenha feito a ligação entre as duas coisas.
Eu não rasgaria as fotos de meus amigos falecidos, não queimaria seus bilhetes deixados pra mim. Já falei deles aqui, e com eles internamente. Já levei flores em túmulos e senti saudades. Acho, então, que essas expressões de luto são tão válidas quanto todas as outras, e se perdem todas no mesmo vazio cognitivo, afinal. E concordo enfim com o Alex: uma vez que a internet mudou o os protocolos dos relacionamentos e das ações, interferiu também nas modalidades de elaboração do luto. Há que se acostumar com todas essas coisas.
Ainda creio que não usaria o orkut de alguém para dizer que lamento sua própria morte. A desconstrução da minha implicância não chega a tanto. Mas acho que agora eu já não ficaria impressionada ou incomodada com este tipo de manifestação.

***

Eu ia escrever mais e melhor, mas assisti Capitu há pouco, estou ouvindo Coldplay e fiquei sentimental e melancólica demais. Emocionada mesmo, meio que do nada. Então fica aí um esboço da idéia, já que ela também é finada.

3 pessoas pararam por aqui:

Camila disse...

Pô Aline, quer dizer então que sou cabeçuda? :D

Tudo bem, vou encarar como elogio... ;)

Thiérri disse...

Aline... lendo seu post eu estava entendendo mas do meio pro fim...

Você se perdeu nos argumentos...
Deixar um scarp para uma pessoa que morreu não é tão diferente do que levar flores para ela com a diferença que o scrap não agride o meio ambiente.

Não envio flores e nem mando scrap... na verdade eu nunca precisei pensar em mandar scrap, pois todos os falecidos que conheci, não tinham orkut.

Assim como você disse que as flores eram para você, o scrap também é...

A verdade é que existe toda uma cultura de cultuar os mortos...

No orkut mesmo... existem várias comunidades de pessoas que gostam de visitar profiles de pessoas mortas... vai entender.

Poderia ficar aqui... escrevendo mais um milhão de coisas mas tenho um filme para assistir com minha namorada.
Beijos!!!

Daniela disse...

Eu continuo achando estranho. nao quero ser alvo disso, nao quero que a minha familia seja, enfim. pra mim, bizarro é a palavra.

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