5.1.09

da minha alma casmurra

Sou uma pessoa melancólica, vou logo dizendo. Acho aquele papo de "nunca me arrependo de nada" a maior tolice. Eu me arrependo de várias coisas. De coisas que fiz, de coisas que não fiz. Passo algum tempo a imaginar como teria sido minha vida se outras decisões tivessem sido tomadas. Não que isso mude efetivamente algo hoje, mas eu gosto mesmo assim. Fantasiar, sabe. Se eu não tivesse fechado aquela porta. Se eu tivesse desistido, se eu tivesse dito sim, se eu tivesse perdido o avião, aceitado o emprego, parado de estudar, estudado outra coisa, atendido o telefone. Não acho que tomei decisões necessariamente erradas, e sei que sempre encontrei as consequências que esperava encontrar. E, agora que elas já passaram, penso que as outras decisões, com as outras consequências, poderiam configurar uma vida diferente, talvez melhor. Sempre talvez.
Esse espírito melancólico é algo comum na minha família, onde as pessoas já erraram bastante e perderam várias coisas, de várias naturezas. Com perder, eu quero dizer que já passamos por coisas muito ruins. Momentos difícieis, emocionalmente, financeiramente. De onde eu venho, é normal revisar o passado e identificar os vacilos. Como se pudéssemos voltar em um determinado ponto e fazer tudo mudar. Não somos mais ou menos felizes com essas especulações, vejam só. A vida, hoje, vai até que bem, obrigada. É apenas nossa maneira de entender a existência, tentar transforma-la em sabedoria. Na sabedoria que nos é possível, claro.
Se tem uma coisa que aprendi com essa nossa vocação casmurra, é que não há o tal ponto exato e precioso em que arriscamos tudo. Também não há um ponto a partir do qual fomos assim, desesperadamente felizes. É sempre bom desconfiar desses pontos definitvos.
Mas agora que ele e eu estamos construindo diariamente essa coisa que se chama vida em comum, o receio de pôr tudo a perder reaparece, como um refrão de música pop na minha cabeça: quando será que é tarde demais? Pelo que nós lamentaremos, quando estivermos mais velhos e cansados? Eu já perguntei isso a ele, que achou tanta graça. Só quem tem a alma naturalmente circunflexa é que para tudo pra procurar os cacarecos do passado e achar-lhes ainda algum interesse ou versatilidade. O passado às vezes consegue ser um canto de sereia, um texto que a gente pode reescrever eternamente e inventar todos os finais felizes possíveis. E é preciso cautela pra não cair no abismo e tornar-se uma pessoa enfadonha e pesada.
Como eu disse, ele riu da pergunta. Sem deboche, mas riu. E respondeu tranquilo que essa coisa de mudar toda a vida em um único ponto é como o lamento revolucionário pela transformação da humanidade perdida em um único evento histórico. E disse que o funcionamento da vida é mais por processos do que por uma sequência de pontos e decisões. Pode parecer um pouco simplista ou superficial, àqueles que como eu são casmurros. Sei bem da importância de culpar uma decisão torta por um amor perdido definitivamente, ou a possibilidade de viver melhor. Mas asseguro também que essa risada leve me lavou a alma, jogou fora o peso de identificar os pontos em que nossa felicidade será colocada em suspenso, esperando por uma decisão definitiva e acertada.

A música do Beirut, Elephant Gun, tem sido a trilha sonora das últimas semanas. Aconselho muitíssimo.

2 pessoas pararam por aqui:

Daniela disse...

Line, eu li esse post ontem e quis comentar, mas resolvi pensar e voltar depois. Voltei e ainda nao sei o que dizer. Que texto maravilhoso. Tudo que eu sempre quis dizer e nunca consegui!!

aline disse...

Ah Dani, eu nem sei agradecer um elogio desses...

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