26.1.09

das contradições a respeito do sexo

A Lu escreveu dois posts ótimos sobre sexualidade, machismo e feminismo. Nem me admira, ela é fodona no assunto mesmo. O principal, aqui, é recomenda-los. Leiam, leiam, etc.
O pitaco que eu queria dar, a respeito, é que o discurso sobre a sexualidade e os casos reais de crimes sexuais costumam apontar nossas contradições mais profundas. Sobre o lugar que a mulher ocupa e a função que exerce no jogo da sexualidade. Porque, sim, virou um jogo antes de mais nada. Com relações de poder, disputa, vencedor e perdedor - ou dominador e dominado - no meio. E, com muita facilidade, sobre a mulher projetam-se duas imagens bastante antagônicas: a da vítima e a da tentadora.
Aliás, retifico: não é apenas (ou necessariamente) um papel de vítima, mas de totalmente passiva na relação sexual. Mesmo quando a mulher deseja, seduz, inicia, chupa, lambe, cavalga mesmo que ela faça todas as coisas possíveis de se fazer na cama, ela ainda é passiva. Posto que a parte ativa do sexo é o deterntor do objeto fálico que penetra. É uma questão tecnica, funcional, uma pecinha que torna alguém dominante no sexo. Um caso, muito particular, me chamou a atenção. Uma mulher foi acusada de incesto e abuso sexual contra seus filhos. Não vou entrar no delicado mérito do incesto, dos maus tratos. É um detalhe que eu quero fazer notar: a pena que ela recebeu é de sete anos em regime fechado. A reportagem diz que esta é "uma pena relativamente branda comparada com a punição máxima para casos de incesto cometido pelo pai, que é prisão perpétua." Quero dizer, mesmo quando a mulher se porta agressiva e criminalmente contra o corpo e as emoções de um adolescente, ainda assim sua capacidade de violação é restrita. A sociedade entende que ela fez menos mal aos filhos homens do que um pai faria a uma filha; e por causa do acessório. Pode parecer risível que eu defenda igualdade inclusive na punição de mulheres que cometem crimes sexuais. Mas é exatamente isso. Acho que essa condescendência quanto à potência sexual feminina um ultraje. Porque é a contrapartida da idolatria à ereção. Um homem não pode por definição sofrer abuso ou estupro (heterossexual), pois a ereção é sinônimo de vontade e virilidade. Aquém da penetração, o ato sexual se torna quase inofensivo.
Aqui, por exemplo. A professora de 26 anos leva o aluno de 12 pro México e queria casar com ele. E diz em juízo que, rpa ela, ele é um homem. Imagine o contrário. Que um homem de 26 diga que vê a aluna de 12 como mulher. Digam lá se não é mais chocante, mais arrepiante. Porque a passividade feminina ainda é um dos pontos indiscutíveis. E, se eu pego esses casos extremos e violentos não é pra dizer que está tudo bem estuprar, abusar de menores, nada disso. Obviamente eu sei que se trata de uma pessoa com algum distúrbio comportamental. Mas eu to falando aqui das coisas que a sociedade tolera ou não ouvir. Acho que o mesmo zelo com que defendemos a virgindade das meninas deve ser dedicado à virgindade dos meninos. Eles também são vulneráveis, passivos, etc.
Ai tem a coisa da tentação. Eu lembro que, há alguns anos, li sobre um caso de estupro em que o júri inocentou o acusado baseando-se numa peça de roupa da moça. Ela estava usando jeans e a defesa alegou que nenhum homem consegue sozinho tirar uma calça jenas, então provavelmente a mulher tinha voluntariamente ajudado a tirar a roupa, então não é estupro. Não tenho o link aqui, mas a história não é tão absurda que não se possa crer. De toda forma, aqui mesmo no Brasil é fácil ouvir dizerem que a mulher estuprada provocou o estuprador, que as roupas e o comportamento das mulheres são lascivos, e por aí vai. Quer dizer, há um momento em que a mulher é ativa no ato sexual, violento ou não - mas sobretudo se for. É dela que vem o motivo, a criação da possibilidade do sexo. E vejam bem, não é algo que ela faz, exatamente, é o que ela deixa de esconder. O corpo feminino inteiro é um convite, e aquela que não se preocupa em esconde-lo ou minimiza-lo é uma vadia.

O que eu acho curioso é essa dupla face, a passividade que de repente se converte em co-participação de uma situação violenta. Juro mesmo que não entendo. Como é possível que duas linhas de pensamento tão opostas consigam unir-se e sustentar o machismo, que camufla-se perfeitamente no discurso conservador, religioso, moralista, puritano? Pior, como é que uma vertente do feminismo pôde apoderar-se de parte dessas convicções e criar uma espécie de lamento sobre a função feminina na relação sexual, legitimando o domínio machista sobre os corpos? Como eu disse, nossas contradições estão todas aí, voando baixo e dando rasantes sobre nossas cabeças.

4 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

perfeito!
a idéia de que penetração é sempre violenta é bem a partir do que vc escreveu, mesmo; é uma idéia cultural, uma leitura machista do sexo, que se tomou por natural - e dentro do feminismo. parece piada, não fosse tão sério.

ridículo que a pena seja tão diferente pra mulher que pro homem nesse caso que vc citou. não tinha visto isso. e talvez socialmente essa mulher esteja mais marcada e fodida do que um pai estuprador jamais esteve (se as pessoas souberem, é claro). na notícia lemos: "uma mulher que SE IDENTIFICA COMO mãe deles". ela não pode ser mãe, porque a mãe sempre cuida, protege, alimenta, dá carinho. como se fosse automático: mãe é "mãe". e o sofrimento das crianças é tão dramático. Oi, a mãe estuprava os filhos, qualquer um imagina que é uma merda! mas a reportagem fica discursando sobre como a vida deles é e vai ser difícil - ou foi destruída, pra citar a reportagem. quando um pai fode com os filhos assim não se faz esse escarcéu todo, o relato jornalístico é mais objetivo. E a lei não previa que mulheres sequer pudessem cometer incesto, só homens...

hoje o berlusconi falou que na itália estupros andam acontecendo muito porque as italianas são muito bonitas, vc viu?
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u494548.shtml

caramba.

aline disse...

Lu, eu nem tinha percebido isso. Agora q vc menciono, é verdade, a frase é super estranha "se identifica como", já que a maternidade é uma das coisas mais "críveis". Tipo, é bizarro mesmo.

Eu li a reportagem, achei de uma tosquice sem tamanho. Porque sobre as italianas rola também isso de serem gostosas, mas lá eles tem um chefe de estado que DIZ coisas desse gênero.

Eu nem falei sobre pornografia, aqui. Você está super mudando minha opinião sobre a pornografia. Várias coisas que eu tinha discutido até em sala de aula estão suspensas, então eu só queria dizer que vc é tipo uma bomba nas minhas convicções. Adoro.

lu disse...

engraçado que essa fala do berlusconi lembra o maluf, no seu estupra mas não mata. e antes disso ele falou que pra fugir da crise as italianas deviam se casar com milionários, o que também lembrou o maluf, quando falou que as professoras não ganhavam pouco, elas eram mal-casadas! os italianos elegeram um maluf pra presidência, hahaha. eu devia escrever um post comentando isso. é que é tão baixo-nível q me dá até preguiça.
ah, a conversa sobre pornografia vai longe. mas nunca vi gente conseguir condenar a pornografia em si e manter o bom-senso ou usar de argumentos razoáveis... os anti-pornografia estão me convencendo de que não é possível, hahaha
beijos!

Tha disse...

Nossa! Sempre muito instigante, não é? Terei um cado pra pensar sobre isso que você escreveu aí também. Sem sombra de dúvidas, seu blog é uma das poucas coisas boas que encontrei na internet...

Por isso... Estava rolando uma espécie de corrente, e eu tinha que indicar 10 blogs... Indiquei o seu com certeza, gosto muito muito dele. Passa depois no meu blog e dá olhada num post que tem o um selo escrito "olha que blog maneiro", mas se não quiser, não se dê o trabalho de seguir as regras lá. Eu fiz em consideração ao cara do outro blog, não to querendo saber de prêmio não...

Um Bju, e parabéns pelo post, depois volto ai e leio ele de novo!

Postar um comentário

Diga lá.