23.1.09

do trânsito

A pergunta parece arrogante, mas é só lembrar que o peso está barato e que ir pra Porto Alegre pode ser mais caro do que descer até Bariloche, então lá vai: você já foi a Buenos Aires? Eu fui em 2007. Adorei a cidade, etc, mas nem é isso. Eu lembro que a primeira impressão foi apavorante. Porque a gente chegou de busão (é, eu sei, maior roubada) e quando pegou um taxi, quase morremos de susto. Com aquela avenida com 13 vias pra uma só mão. E tinha a mão contrária, então eram 26 faixas. E o taxista, junto com outros alucinados, tiveram coragem de fechar o cruzamento com essa avenida. Imagine 13 faixas cheias de carros vindo na sua direção. Eu preferia uma boiada. Mas, enfim. Depois disso, o cara ainda teve as manhas de parar o trânsito numa avenida com 4 vias, estando na faixa da esquerda, pra entrar numa rua à direita, que já tinha passado. Ele e um motorista de ônibus gritaram todos os palavrões existentes em espanhol. E o cara corria muito. Bom. Todas as ocasiões envolvendo o trânsito de Buenos Aires foram mais ou menos assim, no clima "agora eu morro".
Aí, na hora de ir embora, pegamos nosso último taxi. E a corrida até o porto foi tranquila. O que nos fez comentar o quanto o trânsito da cidade nos tinha impressionado. Sabem o que o motorista disse? Vocês são de São Paulo? Vejam bem, o Paulo tem a maior cara de italiano. E eu acho que não tenho cara de nada, mas falo espanhol com sotaque francês. É ridículo, mas não consigo evitar essa contaminação de pronúncia nas línguas estrangeiras. E o cara não acertou só a nacionalidade da gente, ele acertou a cidade. Tipo, mas que cuernos? Aí ele falou que só quem é paulista fala de trânsito. Que nenhum outro brasileiro prestava atenção nisso, ou pelo menos comentavam a ponto de transformar em assunto, comparando e vendo as nuances do trânsito da cidade. É uma espécie de fixação nossa. Fiquei passada com a descoberta. Acho super verdade. A gente fala de trânsito mesmo, e lembra dele quase toda vez que vai criticar São Paulo. E a Marjorie disse uma vez, que ele virou o centro em torno do qual giram as questões da cidade. Foi, inclusive, uma das pautas mais relevantes da última eleição pra prefeito.
É claro que, aqui em Niterói, essa é uma das coisas em que eu mais presto atenção. Não é de propósito, mas quando estou no carro - e já que eu não dirijo - fico olhando e percebendo como as pessoas se comportam dirigindo, etc. E eu já acho que a cidade mostra muito da sua personalidade no trânsito. Dizem, por exemplo, que paulistano é estressado. Eu nem acho. Frequente um engarrafamento dos bons, às 19h na marginal Tietê, e você verá. As pessoas serenas, resignadas, andando lentamente. Ninguém nem buzina, porque sabe que no momento certo, a velocidade aumentará e diminuirá depois, mas uma hora você chega. Paulistano aprendeu a ser paciente com esses excessos que a cidade grande lhe impõe.
Aqui, as pessoas buzinam por nada. E correm muito mais nas ruas, e ficam muito mais furiosas com atrasos e lentidão, mesmo que leves. Acho que os cariocas se sentem presos no trânsito, ou sentem que estão gastando horas preciosas da Vida, que só acontece fora do carro e dos congestionamentos. Algo assim. Sei que os motoristas daqui são mais impacientes que os de lá. Um carioca na Bandeirantes, imagino, sentiria tanta raiva que despertaria o sétimo sentido. E buzinaria até ser ouvido do outro lado da cidade.
Também estou achando o trânsito aqui mais caótico. Esses dias, meu pai parou numa das faixas da rua, em que não se pode parar, porque minha mãe precisava descer rapidinho e ir só até ali. Vocês conhecem o caso. Daí veio um guarda de trânsito na nossa direção. Eu gelei. Mas ele nem deu bola. As pessoas fazem isso com frequencia aqui, causam mesmo no trânsito. E buzinam e se entendem. Sério, eu acho chocante. Mas condizente. As pessoas tem um jeito diferente de se tratar por aqui. Tem um lance de intensidade que eu ainda não entendo bem. São mais sorridentes e mais rudes, ao mesmo tempo. Não sei se é a boa e velha malandragem, há tempos atribuída ao carioca. Nunca pensei que fosse sentir isso, de achar que eu sou mais reservada, menos espontânea. Mas é bem isso que eu sinto, que as pessoas se sentem mais a vontade umas com as outras do que eu estou habituada. E não é porque eu não conheço muita gente, não. Quando morei na Bahia, não senti tanto contraste assim. Achei o povo bem mais tranquilo, mas me adaptei rapidinho. E, sim, o baiano dirigindo é sussa também...

7 pessoas pararam por aqui:

cris disse...

epa! você mora em niterói? eu leio teu blog quietinha faz um bom tempo. aí li 'niterói' e achei que era uma deixa pra dizer 'oi'. teus textos são bacanas. e você tá certa, o povo aqui é estressado e buzina por tudo e por nada. niteroiense que se preza pega o carro pra dirigir duas quadras e comprar pão. uó. eu não dirijo, nem tenho carro, moro na marquês do paraná, perto do centro e de icaraí, portanto posso fazer tudo a pé. e faço. gosto muito de andar e não pretendo aprender a dirigir. bom, é isso. ah, já ia esquecendo: eu adoro são paulo. se pudesse, ia morar lá. bj!

"Andréa Fernanda"... disse...

Bom....eu não conheço Niterói, nunca fui pra Argentina e adoooro São Paulo (pra passear), sou paulista de outro lugar. Sou do litoral.

Entendo que você escreveu sobre o estresse das pessoas no trânsito de Niterói, porque me sinto um pouco assim estressada no trânsito, na minha cidade litorânea (quase pacata com 100.000 habitantes).


Tem gente que "se acha" dentro de um carro. Acha que pode tudo. E isso irrita. Lógico que ao buzinar, a gente chega quase perto do que a outra pessoa é, mas é incontrolável, ainda mais porque a buzina "tá qui" .


Em SP não tem lugar pra motorista folgado. Falta espaço meeesmo. Não dá pra parar no meio da marginal pra seu carona descer. Não dá pra entrar noutra pista sem sinalizar.

A diferença é essa.

(Nossa isso virou um post).
Aqui na minha cidade pacata, nessa época do ano é um Deus nos acuda pra encontrar uma vaga pra estacionar.
Dia desses eu tava saindo da minha vaga, quando ouvi a motorista loira de um Eco vermelho, que estava estacionada numa vaga para deficientes, gritando pra motoqueira, de blusa caqui que estava entrando na vaga que desocupei: "Essa vaga é minhaaaa".

Pasme! Nisso começou um bate boca que dali já pulou pra agressão física, com direito a boletim de ocorrência e tudo mais.

Adivinha de onde era a motorista que estava ocupando a vaga de deficiente (sem ser deficiente) e que começou tudo isso?
Pois é, de São Paulo-Capital.

Nunca na minha vida tinha visto algo assim. Patético.

Cheguei a seguinte conclusão: o que nos estressa não é o trânsito e sim os maus motoristas.

"Andréa Fernanda"... disse...

Ah!
Deixa eu te falar.

Adoro esse blog.
Muito aconchegante. Não sei explicar. Me sinto bem. Sei lá.
Entende????

É isso.
Bjus

Su disse...

Deve ser uma coisa do lugar, mesmo. Nunca tinha refletido sobre o trânsito, não tenho fixação em trânsito, não penso nisso e no momento (digo, nos últimos 4 anos) não tenho carro. Achei libertador uma vida a pé! E suuuuper fora de mão, mas faz parte. Dei gargalhadas com a descrição do "agora-eu-morro" e do caos do trânsito. Caso ainda não tenham ido, experimentem uma "voltinha" de taxi no Cairo, Egito. E eu que achava que o que poderia me matar era o avião... humpf.
Beijo beijo!

aline disse...

Oi Cris!!

Pois é, decidimos morar em Niterói. E estamos adorando a cidade. A coisa toda é adaptar-se, e tão cedo a gente ainda não quer voltar, apesar das aventuras nesse comecinho. Aliás, minha família veio visitar e agora todo mundo quer morar em Niteroi. :)

Bjos e obrigada pelo comments.

aline disse...

Fernanda

Olha só, meus pais moram em Praia Grande. E eu cresci lá. Eu sei bem que os paulistanos fazem A arruaça no trânsito, na cidade de modo geral. Eu nã acho que paulistano é santo no trânsito, eu acho é que na cidade de São Paulo simplesmente não dá pra fazer muita barbeiragem. Imagina, sair correndo e com música alta no meio do congestionamento. Não rola. Ai eles abusam onde tem espaço pra abusar. É uma coisa de férias mesmo,de relaxamento com a cidade literânea. Pode parecer bobeira, mas eu acho mesmo que o transito é um sinalizador da, sei lá, cidadania das pessoas atualmente.

Bjos!
E obrigada tbm pelo carinho, se vc se sente confortável aqui, fique à vontade! Leia e escreva sempre. Eu adoro.

aline disse...

Oi Su!

Meu, tenho o maior medo de Nova Delhi e do Cairo. A pricmeira, eu vi na tv como funciona. A segunda, eu soube pelo primo do Paulo, que passou a lua de mel lá. To ligada que é caótico e apavorante. Preciso acumular experiência antes de encarar esportes radicais.. ;)

Bjos

sim, a vida semc arro é libertadora.

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