6.1.09

expectadora atônita

Eu leio o que Saramago disse a respeito do papel de Obama em relação à investida de Israel contra Gaza e tenho uma impressão maciça de que é importante se posicionar. Eu sempre defendi o discurso como campo em que nossa humanidade se realiza, se defende e resiste. Também é no campo discursivo que a gente comete várias barbáries. Claro que eu não sou louca de achar que a morte, a mutilação, a fome, todo esse sofrimento material e sentido na pele é menor do que o simbólico. São coisas diferentes, e na verdade uma dá suporte à outra. Foi assim com o nazismo, com o apartheid, com a guerra civil de Ruanda. Há sempre um substrato simbólico, semântico, discursivo que determina e é determinado pela violência factual. É justamente nessa intersecção que eu fico sem ter o que dizer. Eu fui até ler um pouco de história. Pra retomar o básico mesmo, a história de Israel, da Palestina, diferenciar judeus, muçulmanos, árabes. Fiquei muito desconfortável com o quanto eu não sabia. Isso não foi assunto de escola, que eu aprendi na aula de história. É contemporâneo demais, e é um problema meu também. De agora. Acho que eu já deveria saber do que se trata, mas a questão ainda não tinha se imposto de tal maneira. A Mary W diz que essa é *a* questão do nosso tempo. Acho que o Idelber também já disse isso expressamente. Gente que eu respeito e admiro muito está se pronunciando, traduzindo textos, publicando fotos, marcando uma linha pra dizer coisas. Acho fundamental o que eles estão fazendo. No mais, há uma diferença clara entre o que a tv noticia (os canais internacionais, bem entendido), o que a grande imprensa publica e o que os blogs postam. E eu leio, leio, e continuo sem ter o que dizer. Permaneço uma espectadora atônita e contraditória. Eu estou mesmo inquieta. Diante da seriedade da coisa, não vou saber me pronunciar. Não vai dar.
O apelo coletivo e mundial não foi capaz de deter o nazismo, nem o apartheid, nem os massacres na África, nem a guerra do Iraque, de Kosovo; a gente - os civis, que comem 4 vezes ao dia, trabalham, consomem, etc, a gente nunca conseguiu impedir nada. Só condenar. É de comum acordo que todas as atrocidades passadas foram atrocidades que nunca deveriam ter acontecido. Mas nossa capacidade de intervenção nem começa, ela para por aí mesmo. Eu nunca vou conseguir expressar aqui o quanto esses eventos mexem comigo e me deixam angustiada. Nunca vai fazer diferença eu não conseguir expressar.
É pessimismo puro, eu sei. Tanto, que eu atravesso a linha e caio no pensamento mágico. Queria que todas essas pessoas em Gaza não morressem soterradas ou bombardeadas, que não sofressem como já sofrem fora dos períodos de combate direto, e que os opressores e assassinos genocidas deste mundo caíssem todos duros e deixassem de existir, e eu queria ser capaz de acabar com *toda* violência imediatamente, de todos os lugares.
Soa infantil e ingênuo, mas acho que é porque a imediatez e a universalidade são expressas e parte imprescindível desse meu delírio.

2 pessoas pararam por aqui:

paulo disse...

Partilho dessa mesma ignorância e dessa mesma angustia sobre as coisas mais importantes do nosso tempo, só discordei de você em uma coisa. Há algo nesta guerra que pode ser dito mesmo sem conhecer muito sobre quem começou, quem fez o que, quais os poderes, as intenções... os grupos e nações envolvidos compram armas, fabricadas por outros grupos e nações, levam pessoas a empunhar ou operar elas... enquanto isso acontece, sintomaticamente, civis dessas mesmas crenças, grupos e nações se cruzam pelas ruas de Jerusalem sem parar suas vidas para estrangular o tal inimigo.

Arthur disse...

Foi uma surpresa agradável encontrar o seu comentário no meu recém-nascido blog, o texto era na verdade um comentário que eu estava preparando para o seu texto, só que ficou extenso demais, então preferi transformálo em post. Esperem mais visistas minhas ao blog de vocês.

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