9.1.09

o povo contra Flora


Vamos recapitular. Este é um país majoritariamente católico e que acredita, portanto, em céu e inferno. Convenhamos que o céu é para poucos, já que apenas os bons e os justos - ou, no mínimo, os arrependidos - poderão entrar. Assim, o inferno é uma ameaça real e inescapável aos perversos. Das descrições de inferno com que já me deparei, fico com a do Constantine: é uma estadia num lugar quente, seco, desesperador, em que sua alma é dilacerada eternamente por mil demônios. Não parece nada legal. Se a gente acrescentar nossa tendência a simpatizante do espiritismo, podemos acrescentar aí vários limbos sombrios e pantanosos em que a alma pode e certamente vai se perder. E, pior, você ainda corre o risco de voltar pra cá, e passar mais um monte de perrengues pra equilibrar a balança cósmica das ações e reações. Já avaliou o perigo? Ou seja, acho razoável dizer que numa nação fortemente religiosa, há um acordo de que a existêcia pós-morte das pessoas más não será de jeito nenhum agradável.
Acho até que essa dimensão punitiva do inferno é um dos fatores que endossam os favoráveis à pena de morte, por exemplo. Não é só uma questão de exterminar a maçã podre, acho que quando alguém defende que um assassino morra é porque sabe que, no além, vai comer o pão que o diabo amassou, literalmente.


Então eu não entendo. Onde está a ameaça do bom e velho inferno quando a gente assiste a novela. Sim, todo esse meu rodeio é pra falar d'A Favorita. Porque, vejam só. A Flora, o Dodi e o Silveirinha acumularam uns 2389 crimes só nos últimos 4 meses - de dar apelidos constangedores como Xaropinha até, hum, matar um velhinho de susto com sangue de porco e alguma encenação. Está comprovado: eles são maus, ruins, feios, detestáveis, sem amigos. E quando a Globo abriu uma enquete pra perguntar pros telespectadores qual fim nós queríamos que o trio tivesse, as opiniões sequer variavam. Todo mundo não queria a morte pra eles. Não é que ninguém levantou a alternativa. Todos levantaram, pra rejeita-la antes de tudo. Não queriam a morte porque seria pouco pra quem fez tanta maldade. Esperavam, em primeiro, por uma surra bem dada. Depois, a pobreza, a humilhação e a cadeia - onde certamente a justiça seria feita. E não havia desejo de reabilitação, não senhor. O xilindró era pra terminar de acertar as contas, em vida. Prisão perpétua. Xeque-mate.
Eu até acho divertida essa possibilidade do politicamente incorreto na ficção, e essa novela estimulou mesmo umas polêmicas e tal. Mas confesso que espantou um pouco, o uníssono que se formou na hora de condenar a Flora. Nosso senso de justiça é totalmente afetado pelo senso de vingança. E a gana é tanta que ninguém quer pagar pra ver se os desafetos vão sofrer os castigos espirituais, mesmo. A pressa é grande, tem que ser aqui e agora. Dá pra perceber que nessas horas as pessoas liberam suas próprias feras.

De onde eu apreendo que: 1) No Brasil, a pobreza e a cadeia são muito piores que os limbos, demônios e labaredas eternas e/ou 2) A gente deve achar que até no inferno dá pra dar um jeitinho e aliviar a barra, coisa que sendo um pobre na cadeia não dá, não.

Só pra constar, eu torci pra Flora o tempo todo, mas ninguém conta pra minha avó.

5 pessoas pararam por aqui:

Tha disse...

3) Pode ser que as pessoas façam questão de testemunhar o espetáculo da vingança. Um resquício do velho hábito de se reunir em praça pra o espetáculo dos suplícios.

Penso muito sobre esta questão. Assisto filmes de ação com títulos como "A caçada ao terrorista" (apesar de detestar) só pra entender como é isso de fazer emergir esta crueldade no espectador. A trama inteira gira em torno de fazer parecerem boas as maldades que o herói faz no final. Se não é assim, a maioria dos espectadores fica achando que o final foi "bobo" (como em Os Infiltrados). As maldades são justificadas pelas circunstâncias é isso que o espectador quer. Este tipo de filme (ou novela) vende um milhão! Isso é sintomático. Pra mim é como se quiséssemos assistir aos suplícios, mas nos envergonhássemos disso. Então o filme inteiro é construído para que não sintamos culpa quando no final assistimos toda a humilhação física e moral do vilão. E podemos sentir prazer com isso sem ter peso na consciência. Não sei, ainda tenho muito que pensar a respeito. Essa é a impressão que tenho hoje.

ehehehehhehehe
Melhor parar por aqui ou este comentário vira outro post. Só queria dizer isso, gostei muito do post, trata de um assunto no qual penso bastante e achei interessante a forma como foi abordado! Parabéns =D

Thiérri disse...

Olha eu de novo... voltei de férias e tanto meu blog quanto as visitas aos blogs que freqüento (amo trema) também voltaram...
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Vou falar... vou porque eu assisto essa novela, mas não é dela que falarei e sim da crença do que quer o castigo...

O mundo é religioso, fato.
Em uma esmagadora maioria % das religiões acredita-se em castigos divinos para os pecadores...

Mas por que pedir uma justiça na Terra?

Eu como bom ateu já analisei essa parada...
"Nossa!!! Você é ateu? como pode um moço cheio de vida não acreditar em Deus... tão jovem..." sou obrigado a ouvir isso sempre... mas vamos a alguns fatos.

Um cara mata um filho de um crente

OPÇÃO 1 - ele espera o bandido morrer para ser castigado pelo único ser que pode julgar as pessoas.

OPÇÃO 2 - ele vai à polícia denunciar e mandar prender o sujeito (sendo julgado por um humano, que segundo a crença do próprio "acusador" não tem o direito de julgar seu semelhante)

TEMPOOOO!!!!

tic tac tic tac tic tac... Bééééééééé!!!!!!!!

Se você respondeu a OPÇÃO 2, acertou!!!

Tá... tem todo o papo de tirar das ruas o perigo que esse cara é...

Então vamos a outra situação!!!

Um crente está andando pela rua e toma um tiro de uma bala perdida, perde muito sangue e precisa de uma transfusão...

OPÇÃO 1 - Ele aguarda a morte para se encontar com Deus pois se Deus podia desviar tanto o caminho de sua ovelha quanto a bala... se aconteceu é porque tá na hora do crente ter finalmente seu papo com Deus.

OPÇÃO 2 - "Deus pode esperar, me passa logo esse sangue que eu quero viver"

TEMPOOOO!!!!

tic tac tic tac tic tac... Bééééééééé!!!!!!!!

Respondeu 2 de novo????
ACERTOU!!!

Agora voltaremos ao início do meu livro-comentário quando descrevi o que ouço por ser ateu...
pegou? sacou a conexão?
pensa mais um pouco...
tá bom, anta, eu explico...

sou criticado por não acreditar em deus... mas quando o bicho pega, nem os crentes confiam nele...

e se tem uma coisa nessa vida que me irrita é ver um cristão falandio mal de um TESTEMUNHA DE JEOVÁ... tá certo, se Jeová fosse uma boa pessoa, não precisaria de testemunha... mas... se existe uma vertente do CIRSTIANISMO que realmente tem fé... são os malas dos TESTEMUNHAS DE JEOVÁ!!!

Assim concluo: na hora que o crente tem que se entregar a Deus... ele vira ateu.

Thiérri disse...

E não é que no final a múmia disse exatamente isso pra Flora... que ela deveria viver para sofrer aqui!!!

Tha disse...

Fiz um post no meu blog inspirado por este que você fez aqui. Apesar de ficar tímida, ficaria honrada com sua visita!

http://oquetemimportancia.blogspot.com/2009/01/o-povo-contra-flora-2.html

Um beijo, e mais uma vez, parabéns pelos bons textos, pelas boas idéia e pelo bom humor. ;)

Luís Mendes disse...

bem, ia só dizer que fomos dois então que torcemos pela Flora o tempo todo, mas devido ao tamanho desses comentários me senti até envergonhado de dizer só isso, dessse modo, resoolvi escrever isso tudo, mesmo sendo a mesma coisa todo o tempo, só para não ficar tão diminuído diante desses comentários que, aliás, não são comentários, são postagens!! Mas muito boas, pessoal criativo.

blogspotponto.blogspot.com

abraços

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