8.1.09

repostagem: memorial dos meus amores

Contando, agora, sei que meus amores não correspondidos são mais numerosos do que os correspondidos. Incluo na conta os amores de infância, de adolescência, cada paixonite banal e extasiante que me conduziu até sua sucessora, ao longo das semanas. Minha adolescência passou assim, em meses e pequenos amores, loucuras breves e sutis que eu esquecia com as roupas que não serviam mais e as agendas velhas no armário. Mas esses amores não declarados, escondidos e não correspondidos tornaram-se mais consistentes e memoráveis no exato momento em que eu me apaixonei irremediavelmente. Todos eles tornaram-se então cúmplices desse último, áspero e inapreensível como o vento que carrega poeira e papel nas tardes quentes. Meu último amor não correspondido multiplicou a extensão da minha alma para fazê-la doer mais do que ela sabia antes. E doeu, e às vezes quase dói de novo.

Pensando, agora, eu sei que meus amores correspondidos foram bons em seu devido tempo e intensidade, e que também eles me conduziram aos amores seguintes, girando a roda sobre a qual minha sensibilidade insiste equilibrar-se. O mais recente amor é recíproco, para alegria minha e dele. Mas a paz não veio: a alma - este esboço de mim aqui dentro - cresce ainda, e gira. E eu sei, agora, que nenhum amor curou outro, nada nem ninguém perdeu-se no meio da história. Convivem todos, mais ou menos bem; parecem-se, osfuscam-se, confundem-se, cada um tão próprio e cheio de si. E meu último amor correspondido extendeu minha alma com jeitos, texturas e sons que eu ainda não sabia que existiam. Não sei se mudarão os sentimentos e as circuntâncias, tudo é possível. Neste instante, amamos, ele e eu.


Escrevi e postei esse texto há praticamente um ano. Essa semana é nosso aniversário de namoro, embora a gente não tenha mais um nome certinho pra essa nossa relação. O texto vai, de novo e com mudanças, como celebração. A obra é Picasso, Le rêve.

1 pessoas pararam por aqui:

Daniela disse...

Que bonito o texto, a história. Admiro muito a sensibilidade de escrever textos sensíveis, bonitos e sem auto-comiseraçao a partir de eventos tristes.

O meu mais recente amor nao chegou a ser amor (nasceu nati morto como diz vc), mas nao sei se foi assassinado ou morreu asfixiado. Nao sei se importa.

A minha capacidade de amar anda em coma induzido.

Mas, como eu digo sempre, o mundo me parece um lugar melhor porque tem tanta gente amando por aí. :)

Feliz aniversário para você e pro Paulo.

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