18.2.09

do meu lado mulher

Essa semana eu percebi que uma coisa estava me preocupando muito. Não era o primeiro pensamento do dia, nem o último, mas era algo que aparecia em cada pequena tarefa que eu fazia aqui em casa, e eu sem perceber que aquilo estava aparecendo a toda hora e me mantendo inquieta. O tornar-se dona de casa. Acontece que desde que decidi sair de São Paulo, parei de trabalhar, porque enquanto eu tiver aulas pra preparar e exercícios a corrigir, não consigo me dedicar à pesquisa. Um pouco por desorganização, muito por prioridades afetivas. Adoro, adoro lecionar. E embora também goste da minha área de estudo, a pesquisa é uma coisa que às vezes aborrece, desconforta, e nem sempre estou disposta a encarar longos textos teóricos obrigatórios. Prefiro os ensaios e textos ficcionais aleatórios. Aqui, Paulo tem um salário bom e que consegue pagar as contas de ambos, e resolvi dar um tempo pra terminar meu mestrado logo. E voltar a trabalhar o quanto antes. Bom, ok.
Ficar em casa por muito tempo era algo que eu não fazia há, sei lá, muitos anos. Acho que nunca aconteceu, aliás. Eu sendo a responsável pela manutenção da casa e esta sendo a atividade que me ocupa mais durante o dia. Agora que acontece, dá pra perceber toda a reestruturação das pessoas em relação a mim. Até poucos meses, eu era tratada como uma mulher independente, que trabalha, estuda e se sustenta. E meus alunos, meus colegas, amigos e eteceteras sempre lidavam comigo como se esse fosse um estilo de vida que eu administrava bem. Aquela coisa de símbolo da mulher moderna. E expressavam admiração. E eu sempre achei tão natural, fazer o que eu fazia - como era natural que outras pessoas fossem médicas, ou engenheiras, ou secretárias, ou blá. Então, tudo isso retrocedeu. E agora alguns falam comigo como se ser dona de casa fosse uma condição pétrea e inescapável. Uma amiga minha, que conheço desde os 9 anos e que é casada e tem dois filhos e trabalha fora de casa, disse que agora eu era como ela e sabia como era. Nem entendi a frase. Saber como é o que? A dimensão do que ela disse está no tom enigmático. Saber como é. Fiquei puta. Conheço-a há 16 anos. E a condição para entende-la e me identificar é o exercício sagrado da faxina? Uó, isso.
E depois minha avó. Que me perguntou incisivamente se não voltaria a trabalhar. Dizendo pra eu não jogar meus estudos fora. Pra eu não virar dona de casa. Sinto que rola um medo na minha família. De que uma espécie de maldição passe adiante. Minha avó trabalhou em indústria e comércio a vida toda. Minha mãe, foi jornalista e depois comerciante. Ainda assim, as duas se definem por donas de casa. E temem loucamente que suas filhas sigam o mesmo caminho. Como se apenas trabalhando fora a mulher pode ser alguém. Acho que a mesma coisa acontece com aquela minha amiga. De se definir pela atividade doméstica e anular o emprego que ela tem (anular, aliás, todas as coisas que ela é de modo bem geral). E eu, que não tenho emprego atualmente, mas tive até poucos meses atrás, recebo dicas de como lavar as roupas ou otimizar os produtos de limpeza. Nunca tinha acontecido isso comigo.
Então eu fico indignada com essa etiqueta que colocam nas coisas que as pessoas fazem. Porque de repente essas coisas se tornam o que a pessoa é. Ou seja, a atividade vira identidade. Um horror. Esse pensamento por etiquetas, de que o Adorno já falou, é extremamente fascista. E a gente deixa passar mesmo, os modelos de pensamento que reduzem as pessoas até tirar delas qualquer traço de individualidade, de criatividade, de escolha. E reproduzimos idéias fechadas de como deve ser um político, um varredor de rua, uma manicure, uma advogada. Estão prontos, esses modelos. É só ajustar e sair usando. E, pior, a gente introjeta muito isso.
Eis o porquê de eu estar preocupada sem nem perceber. Se eu lavava roupa ou limpava o chão, pensava que ano passado eu não estaria fazendo isso. E me sentia ligada às donas de casa do mundo. Como se houvessem movimentos, alma e sentimentos coletivos das mulheres que limpam o próprio chão. Donas de casa do mundo todo, uni-vos. Estou dizendo, um horror. Eu mesma comecei a me sentir *a* dona de casa e achar isso ruim. Então eu precisei escrever, pra que fique claro pra mim mesma. Que, um, odeio a expressão dona de casa. Dois, isso de que a vida, a inteligência e a criatividade só se exercem num emprego é a balela mais tosca de todas. Porque eu nunca li tanto como estou lendo agora. Blogs, livros, revistas. Adoro. E tenho visto mais filmes. E escrito mais. Sinto-me sinceramente estimulada intelectualmente. E sim, quero voltar a dar aulas um dia, pois eu adoro dar aulas mais do que fazer qualquer outra coisa. Porque sou tão apaixonada por isso que eu tenho um curso de teoria literária praticamente montado mentalmente, sem sequer ter previsão se um dia vou ser professora universitária. E tenho montes de atividades de ensino de língua engatilhados pras próximas turmas, se e quando vierem. E penso em exercícios e maneiras de avaliação alternativos, porque essas são questões que me acompanham e eu realmente acho importantes e interessantes. Mas, ao mesmo tempo, estou sem pressa de retomar. Porque minha vida, assim como está, é boa e eu gosto.
Três, é muita hipocrisia as pessoas reduzirem e naturalizarem as funções domésticas tanto. E vejam só, como é contraditório. Que a atividade essencialmente feminina seja cuidar da casa, ainda que, para livrar-se da estampa de amélia e tornar-se uma mulher bem sucedida e valorizada, seja preciso que ela trabalhe fora e viva, de algum jeito obscuro, independente. E como é estranho que ambas as situações acabem por causar desconforto. Porque apesar do receio de alguns que eu me torne definitivamente dona de casa, as vezes eu sinto que - pra outros - isso é natural e esperado, que eu fique em casa e o Paulo trabalhe. As piadas sobre como ele trabalha e eu gasto o dinheiro já vieram a granel, mas eu leio isso como sinais de conformação social. Ao longo dos três últimos anos, eu trabalhei e ele ficou em casa, fazendo todo o serviço doméstico. Eu pagava as contas dos dois. Nunca, nenhuma vez, alguém disse que ele gastava meu dinheiro ou que ele era dono de casa. Em três anos, nunca aconteceu. Há cinco meses nós invertemos as funções e voilà, nos adequamos ao padrão do conceito familiar em que ele trabalha, ela fica em casa. E esse conjunto de piadinhas sobre as funções que cada um de nós exerce, marcando bem o feminino e o masculino, é um dos muitos mecanismos de assentamento e cristalização. Acho que esse é mais ou menos o caminho pra encontrar meu lado mulher, de que tantas falam nos bailes da vida. Amar, ser amada, casar, ter filhos.
Ah, sim, claro, já nos perguntaram por filhos. Que é outra coisa que eu vou ter de desconstruir pra mim mesma. E eu fico querendo exterminar todos os estereótipos do tal lado mulher. E é confuso, porque eu quereria, eventualmente, ter filhos. Mas não agora. Talvez, um dia. Daqui a uns anos. Quem sabe no meio de uma fase mais masculina em que eu estranhamente volte a trabalhar e deixe o ninho mais abandonado. Pra manter as expectativas - as minhas e as de outrem - numa espécie de montanha russa e por aí vai.

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