4.2.09

do que eu disse antes

Meio distraída, percebi uma coisa bem óbvia. Que o monte de posts pipocando nos blogs a respeito de sexismo não reivindica, em primeira instância, o fim da violência física contra as mulheres. Pois o fim (ou vá lá, a dimunuição) dessa violência física está contida em uma reivindicação maior e mais difícil: a do fim das idéias e discursos que incentivam uma postura agressiva quanto ao comportamento sexual das mulheres. Não é uma questão criminal, a princípio. Esse é o ponto. É antes de tudo uma questão cultural. Que eu acho super válida. Que posiciona as coisas no devido lugar. Se um homem estupra uma mulher, se um marido ciumento dá uma facada na esposa, isso faz dele um assassino. Mas faz da sociedade toda uma espécie de amolador de facas. Que molda e sustenta as noções que autorizam esses atos. Eu não quero que isso soe como determinismo social, porque é mais complexo do que isso. Existe a roda de influência e determinação entre comunidade e indivíduo, mas eu nem vou ficar falando disso agora. Eu quero deixar apenas registrado que eu vejo uma conivência mesmo, quando alguém justifica um estupro com o tamanho da saia da mulher. Ou quando soa natural que a fruição, o desfrute e a atuação no sexo sejam unilaterais.
Então é isso. A coisa está em bater primeiro (ou, pelo menos, ao mesmo tempo) nas estruturas culturais do machismo. Uma vez, na caixa de comentários da Lu, eu disse que "Os modelos de atuação sexual, social, familiar, tudo tem um suporte linguístico muito bem sedimentado e reproduzido, quase sempre de modo "impensado" (quer dizer, as pessoas não pensam de onde vem as palavras que usam, a gente sai usando e pronto). Negar a importância dessas pequenas reivindicações feministas acaba por aniquilar as grandes reivindicações. Há uma necessidade de desconstrução do machismo, e é uma necessidade constante."
Eu lembrei dessa discussão porque a Marjorie também escreveu sobre o assunto hoje. E também lá eu comentei, dizendo que "embora eu conheça os fatores que viabilizaram, ao longo da história, o domínio masculino no sexo, acho de uma bizarrice sem tamanho. Porque, pensando num beijo, a gente concebe facilmente que um homem beije uma mulher e igualmente que uma mulher beije um homem. Quero dizer, pensando mesmo na iniciativa, na capacidade de sedução e atuação. Mulher tem lábios, língua, maxilar, tudo igual. Beija igual. E, no frigir dos ovos, os dois se beijam mutuamente. O sexo, que poderia ser visto exatamente da mesma forma, posto que é um passo seguinte - digamos assim - no entrosamento de um casal, continua sendo visto como campo de confirmação de papéis sociais. O homem domina, a mulher cede. Não tem nada a ver com posições sexuais, com desejo ou vontade - que é a unica coisa que conta. Tem a ver com convenções externas ao sexo. E nossa piração é tão grande que a gente é capaz de dizer que, numa relação homossexual entre homens, só é gay o que é penetrado. Porque ele é a mulher da relação. Tipo, se isso não denuncia nossa inaptidão em ler as dinâmicas entre os corpos, não sei mais o que pensar."
E eu retomo o assunto aqui, mesmo que só requentando passagens que eu já disse em outros lugares, mesmo que eu saiba que elas - a Lu, a Mary W - tem muito mais cacife pra falar o que quer que seja. Quero mesmo ser um pontinho minúsculo nesse esforço de desconstruir a ordem supostamente natural das coisas.

2 pessoas pararam por aqui:

Daniela disse...

É um campo de batalha muito meu esse, e num âmbito muito privado até. Porque bastou eu crescer um pouquinho para perceber como a minha família é retrógrada, machista e conservadora a respeito dos papéis masculino e feminino no mundo.

Outro dia passei meia hora debatendo com a minha mae que comentava que sobre uma amiga dela que era "solteirona" (odeio esse termo, acho que só perde pra moça-velha) e tinha 60 anos quando "se entregou pra um homem".

Cara, se entregou? Mulheres nao tem desejo, vontades sexuais? Só cedem, após muita pressao, aos desejos masculinos?

É o tipo de coisa né? Que me dá muita preguiça.

E a minha mae é daquelas, cheias das boas intençoes, tentando me poupar das frustraçoes que essas lutas inglórias contra o "sistema" podem provocar: "mas o mundo é assim mesmo, sempre foi assim, vc nao vai mudar o mundo". Preguiça ao quadrado.

É tao bom ver que a gente nao está só, porque - vô te contar - ô coisa difícil é essa busca por transformar mentalidades (nossas e alheias). E custa tao caro...

lu disse...

"É antes de tudo uma questão cultural." é fundamental perceber isso. "faz da sociedade toda uma espécie de amolador de facas" - adorei como você colocou as coisas. como trabalham essas noções, essas normas, que sustentam esses atos? como elas são perpetuadas, como elas agem nos sujeitos e por que? isso que eu tou estudando. é curioso porque as feministas que focam na questão criminal, na questão física, se deparam com a "rebeldia" das mulheres protegidas; o feminismo tradicional tem um buraco, de explicar como é que se dá a sujeição de certas mulheres que são vítimas de violência doméstica. porque elas mtas vezes voltam pros seus, cof, maridos - com quem elas já se casaram pra começar. e aí precisa um conceito de agência e de sujeição que dê conta de explicar isso aí; e note que aqui é importante dizer que apontar como as mulheres estão profundamente implicadas na sua sujeição não significa, é claro, legimitar essa sujeição ou tolerá-la. eu não sei se eu tou conseguindo nessa caixinha de comment explicar o que tem que ver isso com o fato de que são construções culturais - como o lance de ser penetrado = ser passivo - que a gente naturaliza. enfim. se povo um dia entender que é cultural, e o que significa ser cultural, nossa, já vai ser ótimo. mas essa naturalização é eficiente demais; chega ao ponto de a própria vida depender disso. é uma merda.

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