18.2.09

Juno

É fácil gostar de Juno, só é meio difícil dizer porque, se você não for crítico de cinema profissional especializado gabaritado pra dizer coisas relevantes sobre os filmes, bóvio. Como não é meu caso, vou plantar minhas abobrinhas por aqui.
Achei super uau, o filme. Não é só bom, não. É inovador, por causa da inteligência e ousadia com que aborda seus assuntos. Creio que todo mundo já viu o filme e eu fiquei por última, então nem vou contar a historinha.
Aliás, vou sim. É uma historinha sobre uma adolescente que engravida. Não é a história de uma gravidez. Faz toda a diferença a Juno ser o eixo absoluto do filme, porque coloca todo o resto em perspectiva, inclusive o bebê. E isso abriu espaço o suficiente pra que o super tópico gravidez e todos os temas efluentes fossem ironizados. Aborto, instinto maternal, sexo, maturidade, adoção, culpa, preconceito, família. Tá tudo lá.
Vamos começar pelo fato de as personagens femininas do filme estarem em primeiro plano, tocando quase sozinhas o argumento do filme - em oposição aos personagens masculinos. A Juno, a madrasta, a Vanessa. O filme não toma um tom feminista radical tipo "eles não servem pra nada além de reproduzir", pelo contrário. Cada uma das mulheres tem seu par (o Paulie, o pai, o Mark) e com eles interage bastante, etc. Mas elas são indiscutivelmente agentes em todas as situações, e determinam o rumo que as coisas tomam, enquanto os homens são mais passivos e espectadores dos fatos. É bem forte essa inércia deles, desde a questão do sexo (entre a Juno e o Paulie) até a adoção (de novo, entre Juno e Paulie e ao mesmo tempo entre Vanessa e Mark). Colocar o foco nas mulheres, portanto, é uma das coisas que eu achei bem bacana. E isso poderia até ser um fator negativo se a maternidade fosse levada como a bênção divina sobre os corpos, mas nem rola isso. Pelo contrário, o instinto maternal é totalmente desconstruído com a Juno chamando o bebê de coisa e dizendo que quer dá-lo de quaquer jeito ao casal que ela encontrou nos classificados. Veja bem. Esse é *o* clichê da grávida desumana e cruel. Mas a Juno é fofa, é querida. O filme faz isso, mostra ela de um jeito que você pode acha-la estranha, mas não dá pra odiar a personagem. E ela não sofre um antes e depois, não se corroi em arrependimentos e desgostos. Esse é o segundo ponto. A personagem da Juno não se constrói a partir da maternidade, então é difícil vê-la sob essa perspectiva e mais difícil juga-la como mãe. Justamente, ela não se torna mãe, ela apenas concebe o bebê. Entre um e outro, é mais do que uma questão semântica. Ela escapa a um modelo de subjetivação cultural muito forte que eu já discuti aqui: ser mãe não é um fato biológico, é cultural. E a mocinha vê-se grávida, mas se comporta e se apresenta de um jeito firme e contrário à condição toda. É uma brecha nos valores, o que o filme provoca. Um ponto de fuga. E então soa natural ela dar a luz numa cena, e na outra andar de bicicleta e tocar violão com o namorado. Como se nada tivesse acontecido. E encerrar o filme com uma canção que não remete à gravidez. Foi uma coisa pela qual ela passou e superou.
E outra coisa. O aborto. Que vira *a* piada do filme porque ridiculariza o movimento anti-aborto com aquele protesto de uma menina só e, ao mesmo tempo, rejeita a opção nos primeiros 15 minutos sem grandes motivos. Gostei tanto desse movimento. Ele exige um mínimo de bom humor e flexibilidade do espectador. Mesmo as pessoas que gostaram do filme disseram que é preciso aguentar os primeiros 20 minutos. Eu achei que eles são incríveis e ditam todo o resto. Posicionam o filme. O argumento de que a gravidez deve ser levada adiante por causa do feto não funciona, na entra na lógica do filme. Sem saber de quanto tempo é a gravidez, a colega-manifestante da Juno diz que o feto já tem unhas. E poderia ser um coração e uma camisa do Corínthias, não é por isso que ela desistiria de abortar. A decisão de interromper a gravidez foi tomada de maneira tão leve quanto a de não interromper. De novo, porque o eixo não é o bebê, mas a Juno. E ela vai na intuição, no seu senso de conforto.
Quando ela encontra a Vanessa, acho que é um dos grandes momentos do filme. A Vanessa fica falando que nasceu pra ser mãe, e que é uma vocação. Ela é tão irritante. Tão maternal. Mas assume que é o que ela quer. E a vontade de ser mãe passa por cima até do casamento dela - que é uma das premissas da completude da vida da mulher. Sendo tão "essencialmente feminina", ela também se torna um contraponto aos preconceitos. Porque esse desejo dela não é pura inércia, tal. E, sendo tão diferentes, a Vanessa e a Juno se aproximam muito. Por causa essa posição firme que ambas tomam em relação à maternidade. Uma quer muito, outra não quer de jeito nenhum. Uma resolve o problema da outra. E nisso, o bebê vira um bem a ser transferido. Um objeto de desejo. A vanessa propõe pagamento, até. Pra deixar bem claro em que nível as coisas se dão. Nas entrelinhas, o filme mostra que não é naif . Nem previsível nem superficial. E, no fim, a Vanessa substitui a foto da família completa (ela, Mark e o filho) pelo bilhete da Juno , que é o símbolo do acordo delas. Esse acordo é *o* vínculo familiar do filme. As duas que são e não são mães do bebê, se completando e se opondo, etc. Elas duas são as balizas do filme.
No mais, nós vemos todos os preconceitos contra a gravidez na adolescência serem administrados e desviados. A cena mais marcante é na sala de ultrassom, quando a técnica fica aliviada porque a menina vai dar o bebê pra adoção. Ela toma um esporro e o assunto acaba. Acaba definitivamente, por que esses argumentos, embora fortes e resistentes às mentalidades mais arejadas, são simplistas. "Uma adolescente não tem condições de criar uma criança". E aí a madrasta pergunta sobre pais drogados, violentos, etc. Como se a idade fosse garantia de alguma coisa. Obviamente, não é uma questão única de idade ou condições familiares que determina. A felicidade (ou saúde, ou que quer que seja) depende mais das pessoas que os pais são, etc. Como tudo na vida, depende. E se o assunto morre no filme, é porque não há mais nada a se dizer.
Guardo comigo sempre um receio de falar sobre cinema porque, como eu disse, não tenho lá muitas condições de comentar os aspectos técnicos ou conceituais. Ainda mais num filme desses, a tendência é que eu abstraia que é um filme e fique falando do assunto do filme. Mas eu vou arriscar. Acho que Juno dá um passo, seja na abordagem do conteúdo quanto na linguagem que utiliza. Os melhores filmes - antes, as melhores obras - são aquelas que dão margem pra interpretações contrárias. Pois assim escancaram que a gente costuma ver o que quer ver mesmo. Eu entendo alguém achar que Juno é um filme conservador e reacionário. Basicamente, essa opinião se sustenta no fato de a Juno não abortar, tout court. Eu, que acho que o aborto deve ser permitido, mas não compulsório, acho o filme ousado. Não me preocupa se é realista ou não. É libertário e pra mim já basta.

7 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

esse post é lindo, mas eu tenho uma opinião diferente sobre o filme.
não acho que o filme seja libertário, e acho que maternidade não ser uma benção divina no filme é questionável: porque o lance com a gravidez - ah é, não com a maternidade, mas com a gravidez - é que ela é sim sentida como uma benção divina, por algumas mulheres, e é sentida como a morte por outras. pra vanessa, é uma benção divina sim, pra juno não é nada, e pra ninguém lá é a morte. nisso o filme é bem careta.
e é naif, leviano, porque um preconceito que se dá quando esse assunto está em pauta é esse de ignorar o que pode ser uma gravidez indesejada, o peso que ela pode ter pra uma mulher que se vê nessa situação à sua revelia. tem mulher, e não são poucas, que prefere morrer a passar por esses nove meses - não que prefere, mas que não pode, pra quem é imposível mesmo, sobreviver a uma gravidez indesejada. e por isso fazem de tudo pra se livrar dela, ainda que arrisquem suas vidas pra isso; muita mulher morreu e morre assim, de gravidez indesejada, quando não tem acesso a aborto decente. então o filme é bobo, porque a juno tem uma relação tão leve com a gravidez que dói: "ah, por que não ter o bebê e dar pra alguém que o queira?" tá vendo como são cruéis as mulheres que "matam" "a criança" ao invés de simplesmente levar a gravidez adiante, doar o bebê fazendo a felicidade de uma mãe/ casal/ família, e então voltar a tocar violão feliz como se nada tivesse acontecido. O grande problema pras feministas é mostrar o quão pesado pode ser isso, é lidar com esse menosprezo. Por isso que elas falam que a vida do embrião é valorizada em detrimento da da mulher, porque as pessoas têm muita dificuldade em entender o quaõ terrível pode ser isso. pode não ser nada, mas pode ser a morte, e até desconfio que é mais provável ser a morte, ou "apenas" um certo tipo de tortura, levar uma gravidez indesejada adiante, do que ser algo tão leve e fácil como é pra juno. então é isso, por isso que o filme é caretinha e bobo, porque trata duma questão complexa dessas assumindo premissas anti-feministas.

eu amei ter assistido o filme, tão leve, amei a juno, mas é um puta filmeco irresponsável, nesse ponto. mas o mundo ainda é tão machista que tou pra ver um filme mainstream que dê conta desse recado aí...
beijo, queridona.

aline disse...

Oi Lu

Eu nem vou me alongar em concordar com vc na questão do peso de uma gravidez indesejada e do risco do aborto e tal, porque eu acho que vc sabe o que eu penso a respeito. Concordo com cada uma das palavras.
Mas eu não vejo mesmo essa irresponsabildade em Juno, porque eu acho que o filme não tem pretensões, sei lá, conscientizadoras. Um filme pode ser politicamente incorreto. Ou qualquer coisa assim. Porque é ficção. Eu não vejo na Juno todas as adolescentes que engravidaram. Se a gente dá essa dimensão a ela, ferrou, porque aí o filme toma sim, um tom irresponsável, leviano, careta. Assim como eu não vejo na Madame Bovary todas as mulheres que traíram o marido e etc. Acho que os filmes tem essa margem, dá pra perceber quando ele quer discutir um tema e quando ele quer contar uma história. Acho que Juno é uma história, a personagem fez uma escolha dentre as possibilidades. E a gente acompanha a história dessa escolha. E acho que a facilidade como as coisas se dão deixam isso marcado no filme, que é pura fabulação. É impossível assistir esse filme e supor que uma gravidez indesejada se passa assim, tão facilmente, e tal. Faz parte do pacto entre espectador e filme que a distância seja mantida.
Também não vejo essa crítica implícita ao aborto, no sentido de demonizar as que fazem um. O filme não existiria se ela decidisse por um aborto. Lidar com a morte sim, seria colocar todos os elementos do filme em outro patamar. Tomaria outro tom, lidaria com as coisas em outra perspectiva - senão, aí sim, correria o risco de se tornar agressivo ou ultrajante. Ou seja, teria que ser outro filme. Não seria necessariamente ruim, mas seria certamente outro. Falta-nos bons filmes sobre aborto, mas não acho que por isso Juno seja careta.
Enfim, eu achei a leveza do filme muito interessante porque ela vem de onde a gente não espera. E eu acho que essas coisas ajudam a quebrar a temeridade com que se olha, por exemplo, a gravidez. Não é a perspectiva mais didática ou transformadora - quem quiser condenar o aborto vai fazer com ou sem esse filme, eu meio que desencanei da ação conscientizadora da arte.
Mas, ó, seu coments é bem alto nível, não tiro a validade de nada do que vc disse.

beijos, beijos

lu disse...

ah, eu concordo com tudo isso aí. mas continuo discordando que o filme é libertário; ele tem senso de humor, mas não traz novidade nenhuma. a juno não representa todas as mulheres/ adolescentes/ grávidas, realmente. mas existe um contexto e a gravidez/ as mulheres/ a maternidade têm uma significação, já, que o filme não contesta, pelo contrário. a temeridade com que se olha a gravidez é enviesada, via de regra, e só existe onde ela é benção divina, mas não onde ela é uma condenação. por mais que a juno seja apenas a juno; no filme, existe o primeiro aspecto dessa "temeridade", na vanessa e no resto do mundo - só não existe na juno, contra as expectativas, que dá o charme do filme - mas não existe o segundo. então a leveza com a qual a juno passa pela gravidez não é suficiente, ainda tá muito "na onda" demais pra ser libertário. E ele dá argumento pros "próvida", e isso eu acho irresponsável. acho meio babaca até. mas pode ser que é porque esse assunto me toca demais, eu não dou muita brecha mesmo...
beijo beijo

aline disse...

Então. Não é verdade que só a Juno leva a gravidez de maneira leviana. Os pais dela tbm. A cena em que ela conta cria toda uma expectativa, e eles não tem quase reação. A madrasta menciona inclusive "a outra alternativa" (abortar). Os pais da Juno não contestam a gravidez, nem a adoção, não acho que contestariam o aborto. O namorado dela tbm não. Diz que ela pode fazer com a gravidez o que bem entender. O Mark tbm. Eu só vejo essa temeridade na Vanessa mesmo, que é uma personagem caricata. Os demais quebram todas as expectativas. E esse efeito de "é fácil" só pode ser usado num argumento pró-vida se o argumentador agir de muita má fé. Porque o senso de ralidade de qualquer pessoa indica que não, uma gravidez indesejada na adolescência não é assim, fácil. Só acho que o filme diz algo como "not a big deal". Serio, é a impressão que eu tenho. Adoro, adoro essa displicência. Do jeito que ela está colocada, claro.

lu disse...

ah, tá, é verdade, vc me convenceu, não é só a juno. vi o filme faz tempo.
o argumento dos "próvida" não é que é fácil mas que é possível, que difícil é interromper a gravidez. e, claro, gente anti-escolha costuma agir de ma-fé mesmo, mais ou menos...
beijos, linda!

Daniela disse...

Nossa, que lindo post. Concordo com tudo porque eu simplesmente adorei Juno e nao entendi tanta raiva que ele despertou nos prochoice. Vc explicou direitinho a minha confusao.

Cris disse...

'Eu, que acho que o aborto deve ser permitido, mas não compulsório, acho o filme ousado'

aline, obrigada mesmo pelo post. eu li muitos textos descendo o pau no filme e - sinceramente: pra mim eles só são meio raivosos mesmo. você foi perfeita. bjs

Postar um comentário

Diga lá.