24.3.09

citação

"Ao defender a modernidade, a economia, excluída de sua dimensão política, adere a um forte aliado: o discurso psicológico. Classes sociais, Estado e cidadania são conceitos fora de moda; agora, temos o compromisso com o racionalismo técnico, a personalidade do estadista e a cooperação do contribuinte. Esperança e colaboração pessoal são questões desencadeadas por um sofisticado dispositivo de violência política que tem como aliada a inerte, mas eficaz, intimização de formas de vida.
Intimizar a vida quer dizer colocá-la pra dentro, destituí-la da história das práticas humanas, esvaziando sua multiplicidade de formas e conexões. A partir daí, o público e o privado se dicotomizam em antagônicos espaços, reificam-se, e um eficaz aprisionamento efetua-se em lugares universalmente chamados de interiores. Interiores que se expressam em solitários e herméticos inconscientes e personalidades, tornando a vida privada uma conquista individual à margem da história. ... Fechada, a vida perde movimento, força política, e o capital se multiplica, obscurecendo a visibilidade da produção de modos de vida por banqueiros, artistas, burocratas, psicólogos, etc.
Nesse dispositivo político, o ato de viver torna-se imutável ou natural, legando às práticas humanas o emudecido sentido de reprodução, e o destino entra em cena obstruindo a luta pelo aniquilamento de formas estáveis e petrificadas de vida.
...
Na tv, a propaganda governamental solicita ao telespectador que pesquise o preço das mercadorias. Sem esse levantamento, o cidadão-telespectador contribui para a inflação gerando caos econômico. Individualidade ou consciência são instrumentos responsáveis pela estabilidade do país. Solicitando auxílio, os arautos da modernidade reeditam um velho e eficiente mecanismo político: o controle social por meio da culpabilização - controle milenar inventado por religiões judaico-cristãs e aprimorado pelo capitalismo que impregnou corpos e psiques. Controle que fez do trabalhador não só um servo do Senhor, mas o servo do trabalho para alcançar o reino das virtudes. Controle que fez do mundo burguês o reino da sensibilidade e do amor como formas universais de expressão."
BAPTISTA, L. A. A cidade dos sábios, p.34-36

4 pessoas pararam por aqui:

aline disse...

Eu peguei um trecho desse texto porque gosto muito dele. Foi um texto importante pra mim, porque marcou a época em que eu amadureci intelectualmente e mudei minha forma de pensar várias coisas. Esse texto está no fundo de vários posts meus, em especial estes últimos sobre aborto, personalidade, a wwf. Como vc pode ver, ainda é difuso pra mim. Várias vezes eu começo um post semt er muita certeza de como ele vai terminar. Eu tenho em mente dois posts, um sobre religiosidade e outro sobre o post da lu, com a história do gato. Mas comigo a coisa é lenta pq eu não sou filósofa e não tenho muito traquejo com esses assuntos. É na base do improviso, da experimentação. Então o texto do Batista deve servir, além de uma leve retomada de coisas que tenho tentado dizer, um leve ponto de partida.
Basicamente, acho q uma série de valores, discursos e práticas conservadores e reacionários se reapresentam, mas passam por um filtro novo, pela "inércia do discurso psi" (titulo do artigo q eu citei), porque o individualismo exacerbado autoriza atos discriminatórios. Mas como eu disse, tudo ainda é difuso na minha cabeça.
Acho que vc entendeu bem o que eu queria levantar. Esse trecho q vc pos aqui é incrível, adoraria ler o artigo todo. Vc tem ele em versão digital? (Vou adorar se sim, mas se não, vou admirar muito sua boa vontade em ter digitado tudo isso).

beijos

lu disse...

deu pra identificar você e os últimos posts nesse texto sim.

tou adorando o rumo da discussão e ansiosa pelos próximos posts
:*

Ricardo C. disse...

Oi Aline (e oi Lu), desculpe a demora. O texto do Jurandir (que é curto, coloquei quase na íntegra) está aqui:

http://jfreirecosta.sites.uol.com.br/artigos/artigos_html/carater.html

E vale uma lida no próprio livro do Richard Sennett (gosto muito do que ele escreve!), "A corrosão do caráter". (Ah, se puder, encare outro bem interessante: "Respeito: a Formação do Caráter em um Mundo Desigual", que dá pra ler quase como um romance.)

Aguardo os posts, no ritmo que vc quiser!

Bjs

aline disse...

Obrigadíssima, Ricardo :)
O Jurandir Freire Costa eu conheci na mesma época em que li o Batista. Faz todo sentido pra mim lê-los juntos.

Beijo

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