6.3.09

da excomunhão

Eu não fiquei chocada com isso. E, se eu acho que de certa forma foi até bom que a igreja se posicionasse desse jeito, os motivos são os seguintes: um, explicita muito bem a voz da santíssima igreja católica no mundo atual. E ninguém poderia acusa-la de propaganda enganosa, ela é o que é há séculos, sem mudar a logomarca ou a função do produto. O céu tem preço fixo. E à revelia dos apelos e das tentativas de modernização do carolato, nada muda. Porque mesmo que a igreja faça pequenas concessões em questões marginais de comportamento, as questões centrais continuam intocadas. Liberação sexual, igualdade de direitos, homossexualidade, divórcio, aborto. Se você falar muita besteira sobre o superestimado além, pode ser considerado herege (te dedico, Boff). Então acho ótemo que a igreja se mostre, assim, crua e definitiva. Mesmo que o caso seja tão grotesto e extremo. Pra ninguém dizer que está mudando, melhorando e que por isso as pessoas deveriam renovar sua fé e sua assiduidade.
Isso me leva ao motivo dois. A posição da igreja cria um campo de alinhamento ideológico. Diante de um caso - de novo - extremo e grotesco como esse, creio que as pessoas que se opõem ao aborto devem pelo menos se perguntar de onde vêm seus argumentos. Pois se a igreja diz com pesar que "dois anjos voltaram ao céu", sem colocar na balança o horror das circuntâncias e das consequências em que suas existências estavam implicadas, há que se perguntar qual a origem dessa luta obstinada pela manutenção da vida dos fetos. Em detrimento mesmo da vida de uma menina estuprada. Eu não vou jamais poupar um civil desse emparelhamento. Se é contra, diologa com essa instituição. Consciente ou não, leva adiante esse grupo de valores e argumentos. Coloca aquelas tábuas empoeiradas de mandamentos como prioridades. E então. Os contrários que durmam com um barulho desses.
Três, eu acho é bom que a menina, os pais e os médicos sejam excomungados e nunca mais possam queiram pisar na igreja. Se forem de fato católicos praticantes ou devotos, espero profundamente que, em suas vidas, eles não tenham mais que decidir e agir sob o crivo da culpa simplesmente porque não fazem mais parte do rebanho. Sei que uma formação católica pode ser perturbadora, e que uma ruptura dessas com a comunidade pode causar uma desilusão forte. Essa interdição à comunhão, entretando, pode ser libertadora. Pra mim, eles saem ganhando.
Finalmente, quatro: é um caso muito especial. Muito emblemático. Não sei como a situação poderia ser pior. O padastro estupra a menina desde os 6 anos, e de quebra a irmã deficiente mental. Ela engravida aos 9, e corre risco de morte. São pobres, no interior do nordeste. a igreja não os conforta, ela os condena. Não tem como ser pior. Não imagino mais irreparável do que isso. Eu não vou esquecer. Violências dessa dimensão devem ser insistentemente contadas e recontadas, pra que virem suporte e contra-exemplo das idéias que as combatem.


adendo: obrigada, presidente.

28 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

oh, querida, obrigada. que post mais lindo. nos últimos dias essa história me atormentou - especialmente quando o arcebispo foi falar com a menina e a mãe... e eu pensei exatamente o mesmo que você quando soube da excomungação, ao mesmo tempo que me choca a crueldade da igreja. e você escreveu o post mais lindo do mundo, falando tudo o que precisa ser dito sobre isso. obrigada mesmo. (fico tão feliz de poder dizer que sou sua amiga, nossa.)

Marcus Pessoa disse...

Nossa, que texto bom.

Queria apenas fazer uma ressalva. A maioria dos católicos está pouco se lixando para o que diz uma nomenklatura caquética como essa. Seguem tendo a sua fé, independentemente dessas bizarrices.

A ideia de que eles precisam seguir estritamente o que diz a Igreja é propagada por esta, mas eles não estão nem aí. Não seguem essas recomendações, e continuam sendo o que D. Hummes tão bem definiu como "católicos a seu modo".

Sou católico. Fiquei enojado com a posição da arquidiocese. Mas eu lembrei que antes desse arcebispo escroto, havia o D. Hélder Câmara no mesmo posto. Isso me deu um pouco de alento. Tudo passa. Isso vai passar.

Mauro disse...

Concordo filha, em gênero, número e grau... ele, no mínimo, perdeu a chance de ficar calado. Ele que deveria mostrar nobreza de espírito, mostrou toda a pobreza ou falta dele. Que coisa triste. te amo, bjs

aline disse...

Lu.Uau. Estou lisonjeada. Obrigada vc. Beijos pra ti!

Pai/mãe. Pobreza de espírito pode matar. Tenho horror a isso. Bjos e saudades p vcs.

Marcus. Bem. Obrigada pela visita e apreciação do texto. Quanto ao "católicos a seu modo", aka "católicos não-praticantes", recomendo deveras este texto da Camila: http://www.amalgama.blog.br/02/2009/o-misterio-do-catolicismo-nao-praticante/.
No mais, o que posso dizer é o seguinte: não tem essa de e daí que o Bispo Fulano fala x, pois tem o Arcebispo Sicrano que falou Y e é nele que eu acredito. O catolicismo é um só. Os preceitos e dogmas são um só. O bispo de Pernambuco tão-somente aplicou a máxima de "não matarás". Se vc faz concessões aos pilares, terá de reestruturar a igreja toda. Porque reconhecerá que ela não dialoga mais com o mundo secular e, portanto, sua universalidade está à prova. O cara não deu uma posição pessoal, ele emitiu uma nota oficial. A excomunhão é um ato coletivo, hierárquico e consumado. Então, não tem essa. De que vai passar. Pra quem, vai passar? Pro bispo? Pra igreja? Pra menina? Pra vc? Porque ignorando o que sua igreja faz com essas pessoas, vc as permite continuar.

everton disse...

É revoltante ver sua confusão entre um homem, que pode falhar, e a Igreja. Só vc nao percebe que o que o bispo disse nao eh consenso na Igreja Católica. Não culpe a Igreja pelos erros humanos.

Além disso, matar é pecado. Os gêmeos não tinham culpa de nada e morreram. No final, foram eles que pagaram.

aline disse...

ai everton, que preguiça de vc.
deve ser muito confortável viver com um modelo moral e ético petrificado, sem precisar se responsabilizar completamente por ele.

Eu responsabilizo a igreja pelos erros da igreja. E o bispo fala e nome dela. Baniu as pessoas das práticas e bençãos da igreja. É representante da igreja. Então, cacete, foi a igreja.

A segunda linha eu nem me dou ao trabalho de comentar.

Marcus disse...

Eu já tinha lido esse texto do Amálgama. Naquele dia estava sem tempo pra comentar, e acabei não o fazendo.

Tenho um monte de coisas para dizer em resposta, tanto à Camila quanto a você. É possível que eu escreva um post sobre isso, mas a vida anda muito corrida.

Só queria adiantar alguma coisa, resumidamente:

a) na boa, a frase "o catolicismo é um só" é terrivelmente equivocada. A Igreja é uma coisa, o catolicismo é outra (ou outras, bem mais abrangentes). Existe toda uma cultura popular católica construída à parte da Igreja, e que não se confunde com ela.

b) exatamente por isso, esses católicos independentes não têm responsabilidade pelos crimes da Igreja, e não fortalecem a ortodoxia apenas mantendo a sua fé.

Tem um monte de questões derivadas disso, e argumentos que eu gostaria de elaborar melhor. Se eu conseguir escrever isso, mando um link para cá.

Abração.

aline disse...

Marcus, é muito difícil responder a uma meia resposta. Se vc escrever o post, linke sim. E então eu poderei conhecer seus argumentos e aí dá pra levar adiante a conversa.

Mas. A frase não está equivocada, não. Me parece apenas que vc quer relativizar porque acha que sua fé não tem nada a ver com os atos que estruturaram a Igreja Catolica Apostólica Romana. Que, insitio, é uma só. E é correpondente à religião católica. O catolicismo nasceu com a igreja católica. Ponto.
E embora haja diversas vertentes, há um eixo em torno do qual elas giram. E nesse eixo a igreja funciona, se comunica, decide, influencia. Quando um bispo fala, ele fala em nome da igreja. Em nome da comunidade católica, de que todos os auto-intitulados católicos necessariamente fazem parte, concordem com todas as virgulas ou não. Acho cômodo e profundamente irônico os católicos individualmente lavarem as mãos para não admitir que sua igreja cometeu e ainda comete atrocidades.

Enfim, aguardo o post.
Abraço e boa noite pra vc tbm.

Marcus disse...

Acabei escrevendo o texto antes do que eu pensava. Linkei pra cá.

lu disse...

eu vi o bispo, arcebispo sei lá o quê, falando na tv que não excomungou o pedófilo-estuprador-incestuoso sei lá o quê também, porque ele merece perdão, é um pecador etc.; mas o aborto é um crime pior, ele falou.
eu me choco demais com isso, com como eles punem uma garotinha que já sofreu tanto. eles falam em salvar vidas, ignorando que a gravidez ameaçava a vida dela; é como se ela não tivesse vida, se a vida dela não valesse nada. até a do padrasto vale mais. não acho *possível* tanta crueldade ser generalizada. e discuti com maridão, porque ele estava dizendo que os católicos apóiam a igreja, que eles não são tão críticos assim etc, e eu pensando que céus, não é possível, que isso seria um chacoalho mesmo nesse povo, um ACORDA: ia desnudar a lógica perversa do catolicismo. porque não consigo pensar em uma situação em que isso esteja mais *evidentemente* posto.
e aí eu venho aqui e começo a achar que maridão estava certo, afinal. que as pessoas são sim desumanas nesse nível. que o arcebispo não fala sozinho, o rebanho se identifica. não é à toa que chama rebanho, afinal.

Erika disse...

Adorei seu texto! Eu fiquei indgnada com a postura do Arcebispo, mas seu texto me deu outra perspectiva, eles ficaram foi no lucro com a excomunhão.

E me metendo na conversa com a lu, é muito fácil saber pq eles não excomungaram também o padrasto da guria! É óbvio, se eles excomungam o padrasto , iriam ter que fazer o mesmo com todos os padres da igreja deles!

beijo!

André Gonçalves disse...

adorei, e nunca mais deixo de vir aqui.

aline disse...

Lu. Eu não sabia dessa. Mas veja como faz sentido. Na lógica de salvar as almas perdidas, há vários tipos de pecados e pecadores. Juro, não me impressiono. Talvez porque eu tenha sido criada no catolicismo, tenha estudado em colégio católico a vida toda. E sim, o maridão estava certo.

Erika. *explosão de risos*

André. obrigada.

aline disse...

Marcus, essa conversa vai ser complicada. Eu não tenho nenhuma intenção de te desconverter. Estou francamente convencida de que o debate de idéias, nesse caso, vai ser muito infrutífero. Não estou disposta a troca de pedradas, que é, por sinal, uma metáfora religiosa.

Tentando ser direta e sucinta naquilo que salta mais aos olhos, acho um disparate suas tentativas de redução do caso. Não, não é factóide, sim, tem muita importância. Pode não ter nenhuma relevância na sua vida, e talvez a vida dos médicos ou mesmo da menina não tenha mudado efetivamente com a declaração do bispo ou a excomunhão. Entretanto, o bispo não poderia nem queria lidar com a vida concreta ou cotidiana. Seu universo é o simbólico, o metafísico, o moral. Vc sabe o que é ser excomungado. Não significa não poder comer ou sair de uma cela. É uma advertência espiritual. Se vc não acredita no peso desse ato, então é um não-praticante fervoroso. De todo modo, a excomunhão e as declarações contam muito sim. Porque, como eu disse, são palavras oficiais da maior instituição religiosa do país. E não é uma caso isolado, pelo contrário. Ela confirma e perpetua a mentalidade da igreja católica e, portanto, da maioria dos católicos. É uma questão de representatividade.
Tem mais. Não me interessa o que o catolicismo significa pros católicos - praticantes ou não. Se vc discorda do que a igreja católica faz e ainda assim se intitula católico, é um problema pessoal seu. Religião é escolha. Crença é escolha. E, sim, vc pertence a uma comunidade. Que tem líderes e regras fixas. As excessões e os grupos mais liberais não determinam o que a Igreja Católica Apostólica Romana é. A mim, interessa o diálogo que essa igreja tenta estabelecer com a comunidade civil nas questões laicas. Saúde pública é um assunto laico. Entao a igreja não tem nada que dar pitaco num caso de aborto, sobretudo num contexto como o nosso, porque ele se tornará emblemático. Deixará claro que, em nenhuma hipótese e apesar da legislação dizer o contrário, a igreja não aceita e não aceitará o aborto. É disso que se trata. Não sei se por ingenuidade ou má fé, vc quer dizer que o catolicismo é maior e mais bonito do que essas passagens, que seriam expressão de uma parte antiquada da igreja. Acontece que essa parte antiquada ainda rege o poder político da igreja, campo em que ela pode influenciar vidas e fazer sofrer. A parte bonita, Marcus, é pessoal e exclusiva pros fiéis. A parte feia quem tem que aguentar é o mundo inteiro, coletivamente.

cris disse...

eu me identifico muito com várias coisas que o marcus escreve, mas nessa, vou discordar dele veementemente. acho que a aline resumiu tudo muito bem. a igreja quer poder e poder significa atuar em instâncias que fogem à esfera dos rituais. a sociedade é laica e, como você bem disse, saúde pública é um assunto laico. se a igreja se detivesse apenas às questões que são de sua alçada - as espirituais - já estaria de bom tamanho. eu continuaria achando que o mundo estaria melhor sem isso, mas, ok. entretanto, não é assim que as coisas se passam na real. então, só me resta achar que religião é algo perverso e que precisa - sim - ser combatido. eu fecho com a mary w nesse quesito: igreja a gente não reforma; a gente derruba.

lu disse...

ah, o arcebispo falou que estupro é um pecado gravíssimo, como assalto é um pecado gravíssimo. mas aborto, aborto é o pior dos crimes. Veja a raiva que eles têm de mulher. estupro é um horror mesmo, igual a um assalto...
e o vaticano já manifestou seu apoio às excomungações. não é o erro de um homem, é a posição da igreja, mto ingênuo não ver isso.
ai aline, você é tão fina. sou tua fã mesmo :***

aline disse...

fina?

*explosão violenta de risos*

Laís disse...

Conversava disso com meu pai, essa questão do quão bom foi o posicionamento da igreja nesse caso. Porque há alguns séculos atrás, na inquisição, a igreja era o poder, a ordem e a lei. Entretanto hoje há tantas religiões e é tamanho o enfraquecimento do catolicismo, que só faz por perder fiéis em casos como esse, que reconquistá-los, como dizem ser o objetivo.

aline disse...

Pra mim, quem quiser ser religioso, que seja. Mas é uma questão de lucidez: a igreja não muda. Nem com as mudanças sociais, políticas, nada. Se rolar o fim do mundo, os católicos vão dizer "ok pessoal, já tava escrito na bíblia, que continua valendo"...

Anonymous disse...

amei seu blog... vou voltar sempre


Siamy

Ingrid. disse...

É isso que me faz a cada domingo ter menos vontade de ir à igreja.

Post cool.

Cam Seslaf disse...

Ótimos post e comentários, Aline. Vim aqui pela Mary W.
Eu também costumo concordar com o Marcus em algumas coisas, mas acho a sua resposta a ele impecável. Eu sou atéia, então não me ocupo muito de pensar sobre isso, mas realmente nunca havia me ocorrido com tanta clareza que os católicos "moderados", por serem tantos engrossando as fileiras, acabam dando mais poder a essa Igreja, que é uma só, e imutável, até o fim dos dias (ooops! rs), como você bem apontou.

Ricardo C. disse...

Aline, post magnífico, para não variar.
Com admiração (mas sem surpreender-me),

Ricardo

aline disse...

Lais, a igreja perde fiéis porque é completamente antiquada e cruel. A gente percebe nesses exemplos. Dizem que as pessoas estão perdendo a fé. Mentira.

Siamy, In grid, obrigada.

Cam, católicos "moderados" podem ser tão perigosos quanto eleitores apáticos. Dão margem para um sistema de poder discursivo que piora a vida das pessoas, que as torna mais infelizes. Eu fico furiosa quando tentam justificar o injustificável com "sempre foi assim".

Ricardo, obrigada, sempre. Li seu post e estou indo lá comentar. :)

aline disse...

Lu, deixei de dizer uma coisa. Sobre o estuprador ter sido absolvido. Não posso comentar uma coisa dessas. Não tenho nem o que dizer. Como diz a Mary W, é abaixo da crítica.
Depois eu conto uma historia pra vc.

bejos

lu disse...

conta por email!

Tha disse...

"E o venerável cardeal disser que vê muito espírito no feto e nenhum no marginal"...

Caetano estava errado... O feto que não nasceu tem espírito, o criminoso que a estuprou uma criança tem espírito, a criança de nove anos que não teve infância não tem. É pior!

Mais uma vez você diz o que eu sinto intuitivamente, mas não sou capaz de juntar em palavras pra expressar. Seu post é muito bom e ver suas ideias (e a de outros "manifestantes") me consola em relação a coisas sinistras que li nesses comentários.

aline disse...

Tha. O mundo é grande, as idéias são várias e estão todas aí. É lidar com elas. Tem uma frase do Antonio Candido que eu adoro: "Cada um com suas armas. A nossa é essa: esclarecer o pensamento e por ordens nas idéias."

Postar um comentário

Diga lá.