27.3.09

do gato quase morto

Tinha uma moça trans na faculdade. Ela morava no mesmo prédio da moradia estudantil que eu. Conhecia ela de vista e de bom-dia no elevador só. Uma vez, esperando o elevador juntas, me contou que teve que doar seu gato. Ele já tinha sido achado dentro do forno da cozinha coletiva. O forno com o gás ligado. Acharam o bicho antes de ele morrer. Desde então ele vivia trancado no apartamento dela. Um dia escapou. E foi jogado do sexto andar em cima do estacionamento das bicicletas. O gato sobreviveu, mas ficou muito machucado. Tinha sido jogado pelo vão da escadaria, que ficava em frente à minha porta. Eu não estava quando aconteceu. Quando soube, já faziam algumas semanas.
Ocorreu-me, depois ainda, que essa moça tinha brigado feio com um dos porteiros porque ele, embora conhecesse o nome dela, chamou-a pelo nome masculino "oficial" na hora de entregar a correspondência. No sagão do prédio.

A maior parte dos acontecimentos significativos se me apresentam de maneira fortuita e sutil. Eu chorei tanto quando assisti Meninos não choram que levou cerca de 4 anos pra eu querer ver de novo. E era pra ser uma experiência estética, intelectual, emocional. Num nível mediano de afetação. Acabou virando uma experiência fisiológica. O fime me causou tanto mal-estar. A reação que eu tive quando soube do gato não foi assim, tão visceral. E talvez devesse. Porque a humilhação e o impulso de aniquilação estavam lá. Na minha porta. Um ato desses. Que conseguiu machucar a moça em proporções tão maiores que o gato.
O grau de instrução, civilidade e educação prezumido dos moradores não fez a menor diferença. A expressão da repulsa surge, mais cedo ou mais tarde. Duvido que o alvo fosse mesmo o gato. Suponho que o objetivo fosse agredir a moça, ainda que em sua extensão. Poderia ter sido qualquer coisa sua, qualquer coisa que indicasse que ela vive, que gosta, que possiu, que cuida de. Eu nunca presenciei uma cena de violência extrema. No cinema, ainda que ficção, é algo que constantemente me incomoda. Na vida real, a extinção do outro dificilmente se apresenta assim, radicalizada e ao vivo. Antes, aparece nos "pequenos" acontecimentos aos quais a gente reaje com um "nossa, que absurdo". Porque esse é o nível em que nós - obviamente os que discordam de atos assim - nos envolvemos. Afetação mediana. Fora a dona do gato, não sei se alguém sentiu náuseas, dor de cabeça e vontade de explodir o mundo.

Eu me pergunto ainda porque aquela moça precisou ter seu gato arremessado - e não qualquer outra pessoa. Ou porque o porteiro insistiu em usar um nome que ela obviamente recusava. Que remete a uma existência que ela recusa. É sempre bom perguntar o porquê das coisas. Que o diferente causa estranhamento, repulsa, a gente percebe fácil. Acho meio pobre parar por aí. Acredito muito que as análises tem que ir além, tem que ser mais sofisticadas. De onde eu admiro os posts que a Lu tem escrito. As coisas que ela tem trazido pra cá, na blogosfera, são algo. Lidar, por exemplo, com as categorias de gênero como algo estanque, construído e - pior - imposto aos indivíduos.
Esta minha tentativa de formulação foi portanto completamente motivada por estes posts e suas caixas de comentários: o "ser homem" e "ser mulher" não se restringe a um conjunto de regras mais ou menos fixas que se sobrepõem ao verdadeiro eu de cada um. Tipo, quando um garoto prefere dançar a praticar futebol e é reprimido pelos pais, não se trata apenas de uma questão de orientar seus gostos. Mas de limitar seu universo de subjetivação. A liberdade de escolha e de auto-determinação vai até onde é socialmente permitido. Não há um verdadeiro eu por trás dos machões, escondido e reprimido. Machões são machões. O tipo é conhecido*. Para deixar de sê-lo não basta abrir mão do conjunto de regras comportamentais que fazem dele um machão, tipo falar grosso, coçar o saco em público e não levar desaforo pra casa. É preciso se reinventar mesmo. Ser uma coisa completamente diferente. Fluir entre o que nós achamos que são categorias estanques de gênero. E com isso arriscar-se. A ter, por exemplo, seu gato dentro de um forno.

*Eu sei que é uma caricatura. É de propósito.
** Eu também sei que essa vibe o mundo não presta soa meio patética demais. Tem dias que não dá pra evitar. :/

3 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

perfeito. que lindo esse post.
é uma caricatura mesmo, é um ideal, e como todo ideal, uma ficção. ninguém é plenamente mulher, ou homem... a gente tenta, e vive tentando. e nisso a gente encarna normas que são uma questão de sobrevivência, porque são normas de reconhecimento, e, ali onde existir é existir socialmente, isso não é luxo, é necessário como oxigênio. a questão da sobrevivência aparece tanto na moça, no plano da moça querer ser chamada pelo nome certo dela, porque o outro nome remete a uma existência impeditiva, uma não-existência, tanto no matador de "gato", no plano da violência contra o gato, cujo objetivo não era o gato... ninguém escapa. por isso que certas reivindicações são importantes pra TODO o mundo, e podem melhorar a vida de TODO o mundo...
beijo beijo!

lu disse...

(o segundo "tanto" era pra ser um "quanto")

mary w. disse...

matar o gato é um sinal inequívoco mesmo, da aniquilaçao, da transfobia (nunca tinha ouvido esse termo) etc. e passa uma coisa de vou deixar o seu mundo inseguro. pq um trans já rompeu e enfrentou uma série de coisas, daí q o porteiro chamar pelo nome é meio fichinha. mas quando joga o gato pela janela, volta a sensaçao de impotencia, né? pq a pessoa tá "preparada" pra ser jogada pela janela. mas nunca estará para ver seu mundo sendo jogado e tal. amplia o preconceito. meio obvio isso q eu to falando. mas é uma covardia sem tamanho.

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