13.3.09

do lado bom da igreja católica

O risco de considerar as coisas pelo lado bom que elas carregam é, na melhor das hipóteses, te tornar um otimista. Que, convenhamos, é meio boring. Na pior das hipóteses, te torna um hipócrita. Tenho em mente, por exemplo, esse grande balbúrdio que se criou em torno da menina grávida, seu aborto e a excomunhão. Fato que, embora saturado de debate, não me parece ter provocado nenhum grande estremecimento neste país tão crente. Eu me pergunto quantos católicos se perguntaram se continua valendo a pena pertencer a uma igreja que precisa excluir as pessoas que, mesmo fazendo o que é certo, cometem um pecado.

Precisa, porque a igreja se estrutura em princípios que não podem ser violados senão às custas de sua sobrevivência. Se um aborto é concedido, um dos grandes pilares da fé cristã católica é relativizado e, em algum tempo, cai por terra. É mais ou menos assim que funcionam as idéias no mundo secular. Do estranhamento à aceitação e depois à cristalização. Galileu tá aí pra provar isso. Os movimentos pela igualdade de gênero e raça estão aí para tentar provar isso. A igreja atravessou quase dois milênios justamente porque recusa esse movimento e garante basear-se na verdade, e não na realidade. Então eu pergunto de novo. O que fazem as pessoas se filiarem a uma instituição que conserva a mentalidade desde a Idade Média (embora ela tenha abolido algumas práticas medievais porque queimar gente em praça pública pega mal demais)? Várias pessoas, de perspectivas muito distintas, disseram que a maioria dos católicos provavelmente discorda da excomunhão. O catolicismo dessa suposta maioria, então, é algo que elas constróem mais ou menos sozinhas, colocando à prova de suas consciências individuais quais valores e práticas valem a pena ser seguidos. Aka, os católicos não praticantes.
Seguindo um pouco a linha do que eu estava dizendo sobre o lado bom e o lado ruim das pessoas, e partindo do princípio que a Igreja, embora aja em nome de deus, é uma instituição humana, acho isso hipócrita. Ou ilusório. Não existem os cubinhos com as boas e as más qualidades da igreja (ou de qualquer outra instituição). O Brasil não seria o país que é hoje se não tivesse passado por vergonhosos 4 séculos de escravidão. Não vale falar das cachoeiras, do mico-leão-dourado, do futebol ou da alegria de viver da população. A parte ruim de nossa história também nos constitui. Igualmente, o catolicismo dependeu de cada um dos passos que a igreja deu para tornar-se o que ele é hoje. A inquisição, a perseguição às mulheres, todos os fatos que os católicos costumam relevar como falhas passadas, são os determinantes da tradição que se constituiu e que prega, entre outras coisas, o sacrifício, a humildade, o amor. Joana D'Arc foi acusada de heresia e queimada viva. Séculos mais tarde, foi considerada santa. E hoje integra o acervo mitológico da igreja que pretende sustentar as teses a respeito da vontade divina. Joana D'Arc passou de vítima do sistema (com o perdão do bordão) a elemento tradicional e fundador. Foi assimilada e imortalizada pela mesma instituição que a torturou e matou - justamente por tê-la aniquilado tão ferozmente.
Assim, não há uma parte boa e uma parte ruim, separadas. Há um conjunto de elementos que se determinam mutuamente. E, eventualmente, a compaixão pelo próximo pode bater de frente com o temor a deus. Traduzindo, apoiar o aborto de uma gestação que é fruto de estupro é pecado. Pelas leis divinas, a gravidez deveria prosseguir. Pelo senso de solidariedade de muitas pessoas, não. Se, dentre os solidários, há católicos, me consterna. Que continuem sendo católicos. Que continuem ignorando que os valores católicos coerentemente engendram violências das quais eles, católicos, discordam.

Então, Drummond: "Nada no humano me é alheio, mas nem tudo me apraz." Bom fim de semana.

17 pessoas pararam por aqui:

André Gonçalves disse...

oi.
depois eu falo deste post. agora, só inidcar pra voce a resposta da Pepsi.Co e da Almap BBDO sobre a campanha Doritos. Uma das pérolas:

"Todos os materiais e filmes desenvolvidos... foram aprovados pelo público, em pesquisa, antes do início da veiculação, justamente por trazer à tona lembranças engraçadas que compartilharam com os amigos – o próprio Orkut conta com comunidades como “Eu Já cantei no karaokê”, “Eu já fiz dancinha do YMCA”, entre outras, comprovando como é mesmo engraçado."

COMPROVANDO como É MESMO ENGRAÇADO.
Ah, essa minha profissão me desilude... VEja lá: http://www.brainstorm9.com.br/2009/03/13/comercial-de-doritos-causa-polemica-entre-homossexuais/

Daniela disse...

É um equívoco comum confundir fé crista com fé católica. O Obama é cristao praticante, vai à igreja, bla bla bla e é pro-choice, Hillary idem.

Nao que eu ache que exista alguma igreja crista que seja a favor do aborto, mas eu acho que existem muitas instituiçoes religiosas e pessoas que entendem que essa questao é uma grande área cinza e que é direito da mulher decidir. E gente crista que jamais questionaria o direito dessa menina de decidir pelo aborto.


Pq eu me considero crista e nao sou católica, me incomoda essa confusao. Há outros pontos que discordo do seus textos sobre o assunto, mas acho que só vou falar desse.

Beijos

aline disse...

Oi André. Eu li essa resposta. O normal, né? Contenção de danos. As corporações já tem cartilha disso aí. Dizem que é mal-entendido, como se não houvesse uma equipe e nunca ninguém tivesse pensado que talvez tivesse uma conotação homofóbica. Jogar a malícia nos olhos dos outros. Até tirar a campanha do ar, ela ja fez mais sucesso do que uma mais normal.

Dani. Verdade. Fé cristã é uma coisa, fé católica é outra. Eu tento tomar cuidado com isso, mas escapou um lapso do texto mesmo, já corrigi.
No mais, adoraria que vc se sentisse a vontade pra comentar o que quiser. Concordar não é obrigatório na casa. Adoro conversar, adoro debates e sou fascinada pelo assunto. À minha maneira.
Beijos, Dani.

Daniela disse...

Ok, entao vamos lá.

Um dos pontos com os quais eu discordo do movimento feminista é essa defesa acirrada do aborto. E eu me considero feminista, claro está.

Só pra dizer de onde eu falo.

E vamos ao ponto. As igrejas cristas em geral, fora a Católica, também defendem o direito à vida e se mostram contrárias ao aborto em nao-importa-o-caso.

Se a vida começa na concepcao ou nao, acho que muitos cristaos nao tem opiniao formada, ou mesmo jamais pararam pra pensar nisso. Mas acho que posso dizer que todos acreditam que perder um feto de duas semanas é perder um filho, nao importando se ele é só um monte de células se multiplicando.

Entao acho que sim, a maioria dos cristaos irá responder que um feto de 2 semanas é uma vida.

Por outro lado nao conheço nenhuma igreja crista que se mostre contra práticas contraceptivas , incluindo o DIU (que a igreja católica considera abortivo visto que nao impede a concepçao mas apenas a fixaçao do feto na parede uterina).

O que eu acho que todos os cristaos concordam, incluindo aí os católicos, é que "o corpo me pertence" é uma noçao muito burguesa de propriedade que se distancia da visao bíblica de "a Deus pertencem todas as coisas".

Em resumo: vc nao pode fazer tudo o que lhe der na telha pq a vida nao é sua, é uma dádiva de um ser superior a quem chamamos Deus.

Por isso é dificil pra cristaos concordarem com leis onde o aborto seja legalizado nao importando as circunstancias. Assim mesmo, a maioria das igrejas com as quais estou familiarizada tem certo histórico de luta pela liberdade religiosa e estado laico. Ou seja, eu nunca vou votar a favor num referendo que pergunte minha opiniao sobre aborto, vou fazer campanha contra como indivíduo, mas a minha igreja nao vai fazer pressao na mídia e nos jornais para ter sua prática de fé imposta a todos.

E ai eu me insiro. Eu nao sou a favor do aborto em qualquer caso. E acho que no caso de um estupro ou de uma anencefalia ou situaçao de risco para a mae, sequer me manifestaria contrariamente. Mas eu também acho que o aborto é algo que nao deve ser feito.

Isso dito, acho que minhas opinioes, respaldadas em minhas crenças metafísicas nao podem ser impostas a pessoas que nao professam as mesmas crenças.

E creio que muitos cristaos compartilham essa minha maneira de ver as coisas. É um assunto bastante delicado, mas definitivamente nao é uma bandeira para a maior parte das instituiçoes cristas, como é para a igreja católica.

Olhando por outro lado: discordo de tudo que se diz sobre a(s) igreja(s) ter que se adaptar aos novos tempos. Que se exija que ela nao se meta em assuntos de estado, assuntos de saúde pública, mas que ela renuncie suas crenças nao se pode esperar.

Se as religioes se pautam por livros que se creem sagrados, expressao da vontade de um ser superior, eu desconfiaria de uma religiao que vive mudando. Claro que no caso da igreja católica tudo se torna mais complicado porque ela nao é uma religiao, ela faz parte de todo uma identidade, principalmente em cidades pequeans e principalmente no nordeste.

Mas nas outras igrejas (com exceçao da presbiteriana, acho) crianças nao sao batizadas. Pessoas se batizam adultas, depois de conhecer os credos daquela igreja e ESCOLHER segui-los. Se ela passa a discordar desses credos que outrora aceitou ela deixa de fazer parte daquele grupo.

Acho sim que se carnavalizou um pouco a excomunhao, embora eu queira deixar claro que dela discordo e que em nenhuma outra igreja crista com que eu me sinta familiarizada, isso aconteceria.

Desculpa, isso virou um post

beijos

Marjorie disse...

"o que faz as pessoas se filiarem a uma instituição que conserva a mentalidade desde a Idade Média (embora ela tenha abolido algumas práticas medievais porque queimar gente em praça pública pega mal demais)? Várias pessoas, de perspectivas muito distintas, disseram que a maioria dos católicos provavelmente discorda da excomunhão. O catolicismo dessa suposta maioria, então, é algo que elas constróem mais ou menos sozinhas, colocando à prova de suas consciências individuais quais valores e práticas valem a pena ser seguidos".

You nailed it, girl. Acho uma coisa tão nonsense isso. Porque é todo um pacote. Por exemplo: acho bacana que existam as católicas pelo direito de decidir, porque, no fundo, é isso: respeitar as decisões dos outros, sem querer impor seus valores religiosos sobre elas. Mas, ao mesmo tempo, eu imagino: como é que uma pessoa com sensibilidade para entender isso pode se dizer católica? Porque este rótulo está carregado destes valores. Misóginos, excludentes, retrógrados. Ao dizer-se católico, você está corroborando. Não tem essa de "meu" catolicismo.

Daniela disse...

Line,

Eu acho que você tem uma visao algo distorcida de qual é o PARA QUE de uma igreja crista. Nao posso falar sobre budismo, hinduísmo ou mesmo islã porque nao conheço essas religioes a fundo.

Sobre igrejas cristas te digo que:

igrejas cristas nao tem como objetivo "dar conta da multiplicade humana", no sentido de que se é humano, cedo ou tarde eu aceito. Nem passa perto disso.


O livro pelo qual as igrejas cristas se pautam advoga transformar. Receber sim, nao aceitar.

Os cristaos sao ensinados a RECEBER as pessoas que vivem fora dos seus princípios, mas nunca a aceitar esses principios como certos, bons ou o que seja. Porque a mensagem do cristianismo é que existe uma vida melhor que se pauta por princípios mais elevados, mais puros e nobres, de um ser superior que revelou a sua vontade.

Eu sei que fala muito contra o cristianismo gente que prega o ódio a homossexuais, que é feroz quando trata de questoes como aborto e etc.

O povo cristao nunca devia ser feroz, rancoroso ou raivoso (e sei que é muitas vezes), porque a religiao que ele diz professar prega o amor, e a aceitaçao das pessoas (nao de suas práticas, anyway).

Eu sei que parece uma linha tênue. É tênue. Tanto é que muita gente cruza a linha e nao se dá conta.

E todos sao chamados a renunciar muitas coisas. Mas nunca seus princípios considerados imutáveis para atender ao avanço dos tempos, ou a qualquer outra demanda que nao seja a da regra de fé pela qual essa pessoa se pauta.

Sobre a questao de se pronunciar, concordo: só os católicos se pronunciam. Primeiro que eles sao os únicos que sao CHAMADOS a se pronunciar por uma imprensa que trata as demais religioes com descaso e inclusive desdém.

De qualquer forma acho que eles nao DEVERIAM se pronunciar. Nao como igreja, ao menos. Nao fazendo pressao como fazem. Enfim.

E eu nao creio num "além" :)

Eu creio em outras coisas...

Beijos, querida.

aline disse...

Marjorie, eu tbm fico nessa. De admirar os grupos que, de dentro, elaboram uma crítica, e ao mesmo tempo de lamentar que não dissidam de uma vez por todas. Certamente são boas e importantes as críticas que partem das pessoas incluídas. Mas eu, aqui de fora, acho que vale mais ver a instituição definhar do que mudar aos poucos e persistir.

Dani, não vejo em que minha noção dos objetivos do cristianismo está equivocada ou distorcida. A gente falou a mesmissima coisa. Que a igreja (e como vc pontuou, as cristãs de modo geral) não aceita as pessoas como elas são. Não dá conta da multiplicidade. Eu acho isso ruim. Você não. Eis o ponto em que a gente vai sempre esbarrar.

Esse receber sem aceitar é, pra mim, sinônimo de intolerância. Porque diz expressamente que os pecadores não são aceitos por deus. E isso iguala um assassino, um gay, uma mulher que aborta e um ateu. Receber e exigir transformação é aniquilar a individualidade de cada um. Eu acredito que nós não temos essencia, que somos nossas ações (mais do que nossas palavras). Então pedir a uma mulher que não faça sexo com outra mulher é aniquilar um de seus traços constitutivos: sua orientação sexual. Acho isso violento. E vejo como desdobramento dessa crença a violência com que as pessoas mais fanáticas se manifestam. Porque elas veem no pecado do outro a destruição da humanidade. Só um exemplo. Na África, as crianças abandonadas são queimadas vivas por grupos evangélicos radicais. Sobretudo integrantes da Universal e suas variantes. Eles queimam essas crianças porque elas seriam filhas de prostitutas e adúlteras. Isso acontece no século XXI. Como eu disse, é um desdobramento da convicção do que é verdade e sagrado. O cristianismo é um grande eixo religioso, do qual efluem várias religiões, que costumam ser conservadoras e intolerantes. Não consigo aceitar o discurso de ums instituição que, direta ou indiretamente, provoque isso.

Quanto à Igreja Católica, embora ela seja rígida e relutante às mudanças, não é burra. Já relativizou suas certezas quando foi conveniente e já mudou quando achou necessário. No século XIX, os senhores podiam torturar, estuprar e matar um escravo sem que deixasse de ser considerado filho de deus. Aliás, a igreja católica (que também é cristã) ajudou a embasar os argumentos que autorizavam a escravização de indios e negros, que não teriam alma, e portanto eram como bestas.
A evolução dos costumes da civilização é inevitável. Felizmente, a gente tende mais à aceitação da diversidade, embora ainda tenhamos muitos, muitos casos de intolerância. Eu, mais do que muito cristão, defendo e pratico a igualdade entre as pessoas.

Beijos, meninas

Sarai disse...

a medida que fui lendo as idéias borbulhavam na minha cabeça.Confesso que estou um pouco alienada quanto a essa história do aborto e excomunhão mas exclui-la é um jeito tão imbecil e mesquinho de tentar "manter valores" que nem o próprio Deus aprovaria.A bíblia é clara ao condenar o adultério(nesse caso estupro) e mais clara ainda quando Jesus perdoa e salva do apedrejamento uma garota que foi pega no ato.
A bíblia também fala dos fariseus(que pode ser traduzidos como padres) que dão aos fiéis preceitos pesados e difíceis de cumprir sendo que Deus é manso e humilde de coração.tá escrito isso na bíblia mas ninguém se dá o trabalho de ler.
Por isso que fica fácil manipular um povo que acredita e procura entender e ter intimidade com Deus.
A igreja católica manipulava na idade média,porque pregava em latim,pra ninguém entender.
Deus é um ser muito mais complexo,supremo, maior e fascinante do que a religião.
Não dá pra limita-lo entre as 4 paredes da igreja.Quanto ao aborto eu sou contra porque aquela vida não tem culpa de como foi gerada.E entenderia se o bebe fosse encaminhado para adoção após o parto.Existem outras possibilidades que não o aborto

Sarai disse...

ah,ameiii essa foto e o conceito dela no blog.fico viajando nela..
;*

aline disse...

Oi Sara

Ser contra o aborto e achar que há outras soluções para o problema são coisas distintas e não relacionadas. Ou vc é contra o uso de carros porque há outros meios de transporte? Aborto é solução pra que acha que é solução. Entregar pra adoção, idem. Assumir a criação do filho, idem. O que não pode é um indivíduo querer decidir por outro.
No mais, estamos falando de uma menina de 9 anos. Achar que ela poderia levar uma gravidez, dois partos e enfrentar o risco de morte é pedir um pouco demais, não?


De qual foto vc tá falando? A doc abeçalho?

Abraço

Sarai disse...

como eu tinha dito,eu estava mesmo alienada quanto ao caso.não sabia se tratar de uma guria de 9 anos.(shame)
Eu posso ser contra o uso de carros por ser um meio poluente E por haver meios alternativos a ele,não posso?(não uma coisa ou outra e sim a soma de uma coisa E outra)E você?Seria a favor de um homicídio(por achar a morte justa) ou da pena de morte?Vc acha mesmo que o ser humano é capaz de julgar(na caso da pena de morte) com total imparcialidade sempre?Se vc tivesse um filho hoje,seria capaz de estrangular ou jogar um martelo em sua cabeça após o nascimento pq ,ops,a camisinha furou e vc n se sente preparada para cria-lo?
No caso da garota de 9 anos é uma criança.Sem estrutura para aguentar uma outra criança no seu corpo que dirá 2.Nesse caso eu seria a favor do aborto pelo risco de morte(e idade)mas não pelo estupro,entende?O mundo está cheio de ongs preocupadas de desde a extinção do mico leão dourado até a proteção das formigas voadoras.Então porque não se preocupar com essas vidas? ou criar uma ong que encaminhe os bbs indesejados(seja por estupro ou irresponsabilidade)as famílias que n podem ter filhos e desejam adotar?Na verdade não sei se vc é contra ou a favor da legalização do aborto indiscriminadamente mas a minha posição não é radical e religiosamente cega e sim porque já estudei sobre o assunto.E há coisas que não são divulgadas na grande mídia sobre o aborto e até dados que são cruéis e aterrorizantes.
*
Éééé,essa fto do cabeçalho com a frase jusqu'ici tout va bien ^^
:*

aline disse...

Sim, vc pode ser contra o carro e nunca ter um por causa dos poluentes. E vc vai impedir seu vizinho de ter um tbm? Vai furar os pneus e obriga-lo a andar de onibus? É disto que eu estou falando, da liberdade de escolha de cada um. Que existe pra quase tudo.
Eu pressentia que o tema "pena de morte" logo viria à tona. Sou contra. Absolutamente contra. E quanto ao aborto, sou irrestritamente a favor. São coisas tão diferentes. Nenhum dos dois é "homicídio". Esse é um termo jurídico que se aplica a uma situação específica. Podemos dizer, no entanto, que os dois lidam com morte. Mas entre a morte de um feto e de um condenado, há muita, muita, muita coisa. Não acho que a comparação seja válida.
Quanto ao aborto, eu já escrevi tanto sobre isso, aqui. Tem uma tag só pra isso, no canto superior, à esquerda. Já comentei vários dos argumentos que vc apresenta (não que eu estaja com preguiça de escrever tudo de novo, mas acho que está mais organizado e claro nos posts)...
Agora, se eu acertaria meu filho com um martelo (??) depois de nascer porque "ops, a camisinha furou" (??????????) não faz sentido. Matar um recém nascido não é, absolutamente não é a mesma coisa que um aborto. Por favor.
Outra coisa. Cuidado com a minimização do estupro e da gestação resultante do estupro. Violência sexual é mais do que motivo pra abortar. Gerar a criança só porque existem ongs que vão cuidar dela depois é irreal. Em primeiro lugar, porque as ongs existem em função das crianças abandonadas e não o contrário. Em segundo lugar, a quantidade de casais que de fato adotam uma criança é muito menor do que de crianças abandonadas. Parir e abandonar com certeza não é a solução pra um mundo melhor.
Eu não me pauto na grande mídia pra nada, Sara. Que dirá pra formar minha opinião quanto a um assunto delicado como o aborto. Certamente há fatos cruéis e aterrorizantes. Sempre há. Em tudo neste mundo, não é só com o aborto não.


Também amo a foto. :)

bjo

Sarai disse...

Vamos colocar de uma outra forma então essa questão do carro.Um outro exemplo.Eu sou a favor da reciclagem e pratico,mas não obrigo meu vizinho nem a pensar muito menos a fazer o mesmo.Mas quando se trata de governo ele não pode tomar uma decisão com base no histórico de vida querer e preceitos de cada um.A questão não é de certo/errado e sim causas e conseqüências do que a não reciclagem gera para o país, o mundo e as próximas gerações.O mesmo c/ o carro,posso ser contra o uso do carro e nem por isso sair por aí jogando pedra em vc que é a favor.Mas se o meu país decidir que é melhor abolir, temos que abandonar as nossas convicções e necessidades individualistas e pensar nos benefícios para todos,entende?Ultrapassa a questão individual.O aborto é uma questão de saúde pública.O pensamento individualista faz a gente pensar no aqui e agora,mas e depois?Não sei se consigo me fazer entender,acho esse espaço muito pequeno pra falar muito.E minha tentativa de ser concisa pode parecer que estou querendo minimizar as coisas,como no caso do estrupro do qual vc citou.De forma nenhuma seria relapsa a tamanha violência,ainda mais pq n se resume ao estupro em si mas as causas sociais quem envolve isso.levo isso muuuito a sério,assim como o aborto que é conseqüência do tipo de sociedade e modo de vida que levamos(por favor falo aqui ainda de causas/ conseqüências e não certo/errado)
.A minha comparação com o bb recem nascido te digo que é querente pq a única diferença entre um feto recem nascindado,um bb de 9 meses,de mim, de vc,um condenado da justiça e de um senhor de 90 anos é o tempo e a nutrição. Inclusive pessoas como o ginecologista cientista,defensor do aborto conceituadíssimo Elsimar coutinho(aquele que defende que a mulher não precisa menstruar e criou algo nesse sentido)tanto sabem disso que preferem sair de fininho nessa questão..
quanto ao homicídio,estava com uma questão diferente em mente do qual eu já esqueci então fica para uma outra oportunidade.
Enfim,não estou tentando te convencer a mudar de idéia,só não quis deixar a impressão de que minha opinião é baseado em algo infundado,entende?
E como eu gosto de uma polêmica,voltarei aqui!
;**

aline disse...

Acho que vc e fez entender muito bem. Então. Entramos na esfera governamental. Qdo vc diz que o governo proibe o uso do carro pensando nas consequências, nas gerações futuras, faz sentido (e veja como, ainda assim, uma coisa dessas soa irreal pra gente). Mas pensando em qual benefício das futuras gerações o aborto permanece proibido, considerando que sua interdição legal foi baseada em valores religiosos e conservadores? É sim uma questão de saúde pública e não de mortalidade infantil. A maior problema do aborto hoje é o número de mulheres que morrem ou se machucam gravemente tentando abortar. Como eu disse em algum post, mais de um milhão (estima-se que são até 3 milhões) por ano. Um quarto delas morre. Eu acho alarmante. O governo continua contra o aborto, continua criminalizando as mulheres. E elas vão coninuar morrendo. Não morreriam se pudessem contar com o sistema de saúde regular pra fazer isso, e não os açougues ou as práticas caseiras.
Acho que entre um feto e eu, vc, um condenado e um velho de 90 anos há mais do que tempo e nutrição. Não somos árvores. A biologia é apenas um dos traços que nos constitui. Eu não defendo o aborto baseada em argumentos puramente biológicos. Nós somos pessoas, com subjetividade, identidade, contexto, passado, etc etc. Até um recém nascido tem isso a mais do que um feto. De alguma forma, o recém nascido já tem laços afetivos com a mãe. Tem um mundo, intermediado por ela, que o aceita. Eu acho que a maternidade se constrói também - e principalmente - na esfera social e afetiva. Tanto, que temos isso de mãe adotiva. Mãe de consideração. Não é meramente um acontecimento biológico. Uma gravidez indesejada funciona de uma maneira completamente diferente. A mulher não aceita o processo cultural que a torna mãe. E tenta bloquear os processos biológicos que dizem o contrário. Não quer a gestação, não quer o parto, não quer criar uma criança nem abandoná-la. Não quer ser mãe. E eu acho que o direito de escolha da mulher supera o direito à vida de um feto. Porque ela já é uma pessoa. Já tem um espaço constituído no mundo e condições de julgar se quer, se pode ou não ter um filho. E eu acho que o governo deveria ao menos dar espaço pra que a decisão seja dela. E nao colocá-la na cadeia ou deixa-la morrer de infecção porque a constituição diz que o feto tem direito à vida. De novo, por que mesmo o governo é contra? Os princípios que sustentam essa interdição são ruins. Proteger uma vida suposta em detrimento uma que já existe *plenamente* (maior diferença entre mulher e feto). Obrigar a mulher a arcar com todas consequências de uma gestação no bom e velho "fez, agora paga".Acho essa mentalidade carregada de muito ressentimento, de ódio mesmo. Contra mulheres que não queiram cumprir sua função por excelência, a de genitora. É o raciocínio de homens conservadores.

Não entendi o que vc quis dizer exatamente com "o aborto é conseqüência do tipo de sociedade e modo de vida que levamos". Minha primeira intuição é que vc acha o aborto uma solução mais fácil pro problema, tipo "O pensamento individualista faz a gente pensar no aqui e agora, mas e depois?". É isso mesmo? Vou esperar vc voltar e explicar antes de fazer comentários intermináveis sobre essa idéia.

Eu sei que vc não está tentando me convencer.

Até breve, beijos.


ps. eu não conheço o Elsimar Coutinho, só de orelhada. Por enquanto, nem tchuns pra ele.

aline disse...

Meu, não vem me dizer que o governo proíbe o aborto pensando no bem-estar futuro das mulheres. Nem que há pessoas que sustentam o argumento porque acham que elas - as mulheres - vão sofrer mais depois. Peloamor. Paternalismo e vitimização: não trabalho.

E eu não tenho disposição pra argumentar com quem julga os motivos alheios, taxando as mulheres. "Elas pensam no aqui e agora quando querem se livrar do peso da responsabilidade e das mudanças que causariam nela e no parceiro.Mas o depois se caracteriza nas conseqüências." Heim? Se livrar do peso da responsabilidade? Você não tem como dizer uma coisa dessas. Resumir assim. O pensamento geral. Como irresponsabilidade e leviandade. Isso é preconceito. É moralismo. Não lido com essas balizas, Sara.

Qdo eu digo que um recém nascido tem um vínculo afetivo com a mãe e que isso já é mais do que um feto não desejado, eu to dizendo justamente que todo o processo social e afetivo se deu de maneira positiva, desde o começo da gestação. O recém nascido geralmente já tem isso a seu favor. Meses de aceitação. Não se subjetivou sozinho, mas alguém tratou de lhe dar uma história, um nome, um espaço no mundo. É mais sutil do que células.

"Aí vc está ferindo os princípios da justiça,da educação e da pedagogia". Se pra vc, proibir o aborto é uma questão de justiça, tbm não há interface pro diálogo. Serão dois monólogos. By the way, justiça é uma instituição, uma abstração, uma criação humana, é mutável, relativa, questionável, e no Brasil, altamente comprável. Não sei o que a educação e a pedagogia estão fazendo aí, juntas.

Menina de 6 anos atirada pela janela não é aborto. Não dá pra comparar sem inserir moralismo e pré-julgamentos.

"a legalização agravaria ainda mais o sistema precário de saúde, as clandestinas continuariam existindo e as mortes também." A razão pra não permitir o aborto não pode ser a precariedade do sistema público de saúde. Vc estava clamando a justiça, a educação e a harmonia social, e agora vem com falta de leitos e material esterilizado? Não dá, né? Também há partos feitos em casa e mortes decorrentes dele. A persistência da clandestinidade, que seria um caso a ser muito bem estudado pq poderia contar, por exemplo, com o preconceito e moralismo intransponível das pessoas do país como principal fator, também não é motivo para não descriminalizar ou permitir.

Acredite, anarquia é muito diferente disso que eu estou falando. Muito.


"a própria repressão do sexo gerou ao longo do tempo uma reação que leva ao extremo oposto.O sexo se tornou uma questão de auto-afirmação aí entra o capitalismo que usa o sexo o desejo para lucrar". Dizer que o aborto é consequência de promiscuidade é duplo preconceito e moralismo: contra quem quer abortar e contra quem é liberado sexualmente.

Eu podia ter resumido, Sara. O que vc diz está impregnado de moralismo e preconceito. Aí não dá. Pra mim, não dá.

paulo disse...

Claro que as mulheres vão sofrer de sindrome do pânico e depressão no pós-aborto.
Será que tem a ver com discriminação, culpa e moralismo religioso? Ou será que os corpos femininos tem genes anti-aborto que desenvolvem todo tipo de doença e sofrimento quando detectam um aborto provocado?

lu disse...

(nossa
a sara conseguiu escrever a coisa mais moralista, preconceituosa e machista que eu li em bastante tempo.)

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