27.3.09

do meu jardim

Entre alguém que escreve e publica livros e as pessoas que compram ou emprestam seus livros há uma relação bastante clara: trata-se de escritor e leitores. Um e outros sabem, mais ou menos bem, a natureza da relação que daí se estabelece. Eu não acredito ter nada parecido com as pessoas que passam por aqui, que leem o que escrevo e eventualmente comentam o que leram. Eu me sinto meio que numa vitrine. Vou expondo várias coisas minhas. Vejam que não é uma questão de autenticidade, nem de privacidade. É uma questão de relevância. Há crônicas, há memórias, há opiniões, há contradições, há distorções, há de tudo aqui. Estou sempre bem à vontade.
Desde janeiro, entretanto, me ocorre encerrar o blog. Porque resolvi cismar - e eu faço muito disso - com a função que este espaço tem. Sei como manter um blog, porém não sei ao certo porque mantê-lo. Sei que pode ser divertido. Que conheci pessoas interessantes, queridas, admiráveis na blogosfera. E conversei sobre coisas que não converso mesmo com alguns amigos. Aprendi, fui convencida e mudei pontos de vista até. Bem legal mesmo. Isso tudo aconteceu por causa do blog.
Devo dizer contudo que às vezes é bem angustiante - é, sou dessas que se angustiam. Quando entro em assuntos que, pra mim, não são apenas objeto de interesse e curiosidade. Está claro que o aborto é um deles. Toda sorte de preconceitos e violências. Fenômenos que matam pessoas ou que as deixam morrer. Em nome das liberdades individuais de cada um. É bem ruim ser uma pessoa que sente muita raiva quando acha que está diante de injustiças. Meu pai acha justo que um criminoso de 14 anos possa ser preso e até condenado à morte. Eu não acho. Então passo mal de tanta raiva quando discuto com ele sobre isso. Não penso que um dos dois vá mudar de ideia. Embora eu realmente quisesse ser capaz de convence-lo. Mas nem é essa a questão. Me dá arrepios saber que enquanto essa linha de raciocínio existir, é mais fácil prender um batedor de carteira do que o Daniel Dantas. Ou que a ditadura ainda vai ser lembrada como um período em que era seguro andar nas ruas sem ser assaltado. A lógica da vingança. A norma se confunde com o natural. Eu já não acredito muito em causa e consequência. Acho que as coisas acontecem num fluxo de causa e complexidade. E a cara-metade da máxima alegre e motivadora "cada um faz sua parte" é a "nunca matei, nunca roubei, então não sou responsável pelo sofrimento de ninguém". Não confio em consciências plenamente tranquilas.
É imobilizador e cansativo ficar pensando na dimensão violenta de tudo. E um tanto inútil também. Não me disponho a ficar convencendo as pessoas de nada. Já fui a favor da pena de morte, já fui contra aborto, a favor da meritocracia, dos bons costumes, já fui machista e racista - jurando que não era. Certamente ainda sustento preconceitos. Mas ninguém teve que discutir comigo pra que eu reavaliasse minhas convicções - até porque elas estão em constante suspensão. Algumas simplesmente desmoronaram. É só prestar um pouco mais de atenção.

11 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

você não vai convencer ou ensinar um janjolão, ninguém vai. blog não é pra ensinar gente tonta. eu pensei muito em acabar com o meu blog também, até perceber como aquilo é meu; é uma vitrine, sim, mas a gente pode escolher um público, e ignorar quem não é alguém com quem a gente queira estabelecer um diálogo, quem não enriquece. fico bem mais à vontade no blog desde então e acho que ele ficou mais interessante também. cheguei a apagar um comentário; o cara voltou dizendo, Ahá!, eu ganhei, você teve que apagar. eu respondi que apaguei porque era idiota e não estou interessada em idiotas, xô daqui - e ele não era tão idiota que tivesse voltado. porque a gente não é paga pra blogar; tá na net, mas o espaço é nosso. então foda-se. você pode escrever pras pessoas que entendem o que você escreve e são capazes de dialogar com isso, e só pra elas. os outros não importam, simples assim. você nem precisa se esforçar muito, porque com o tempo é meio natural que só quem enriqueça freqüente aqui, e os manés vão percebendo que não é a praia deles.
por favor, aline, aconteça o que acontecer, não pare de blogar. seu blog tem se revelado o melhor de toda a blogosfera, ia deixar um buraco.

Daniela disse...

Eu já mudei tanto tb. E nunca precisei ser convencida. Mudei observando mundo, prestando atençao. E sei que vou mudar muito ainda, desejo mudar muito ainda. Sempre ampliando meus horizontes e sendo mais tolerante, compassiva, democrática.

E isso de "passar mal de raiva", me identifico tanto. Aliás, quero deixar de passar mal. Mais serenidade é outra meta minha.

E nao fecha nao. Aprendo tanto com vc. Já disse que a sua inteligência sempre me surpreende. Pela sua juventude, pelo seu frescor, que vc já tenha tantas opinioes certeiras sobre o mundo e que fale delas assim com tanta propriedade, me encanta, realmente.

Beijo grande.

mary w disse...

mais ou menos isso q a lu falou mesmo. sempre vai haver stress mas a gente aprende a lidar e filtrar. tem discussoes q eu realmente nao embarco. pq se a pessoa não está no ponto da discussao q eu estou, nao estamos sequer olhando a mesma coisa. e a gente passa por momentos q descurte mesmo do negocio. e depois volta a curtir. anyway. é seu. isso é o ponto.

André Gonçalves disse...

você, a mary w e mais umas 3 ou 4 pessoas que leio no "blogdário" estão mudando algumas concepções minhas, me ajudando a fortalecer outras, me fazendo ter admiração e raiva e respeito e desprezo de coisas, pessoas, atirudes e gestos. o que não quer dizer nada, ja que tem horas que a gente descurte, mesmo. espero que fique muito tempo por aqui.

aline disse...

:****

pra cada um.

cris disse...

concordo muito com tudo q a lu e a mary falaram. blog é um exercício muito pessoal, aos poucos a gente acaba filtrando as pessoas com quem quer estabelecer um diálogo mais proveitoso. eu não discuto mais nada com mais ninguém. até porque nem tem me sobrado tempo pra isso, mesmo que eu quisesse muito. teu blog realmente é excelente. muitas vezes eu quis comentar, mas o cansaço me faz sentir como se eu estivesse lobotomizada. como naquele post sobre o julio groppa aquino. pirei com aquilo que vc escreveu, queria te perguntar mil coisas, mas eu ia acabar fazendo 'a chata', aí deixei pra lá. mas não pára de escrever não. vou ficar aqui com a bandeirinha torcendo pra vc continuar. bjs

aline disse...

pergunta o que vc quiser, cris. qdo quiser tbm. :)

:** e brigada.

Thanatos disse...

bem, blogs, por abertos que sejam, realmente são como vitrines. Só lê quem ama ou odeia. As pessoas que já compartilham de uma opinião e as que nunca aceitarão esse ponto de vista por algum motivo pessoal. O resto simplemente não lê e pronto. Mas o diálogo com essas primeiras pessoas vale bastante a pena.

Eu, pra me contradizer, aprendi um bom tanto com os blogs que eu lí, por mais que não concorde com tudo. Não sabia lhufas de gênero e tudo mais antes de ler o blog da lu. Ainda não tenho como dizer se isso muda alguma coisa no meu mundo prático, mas algum dia há de fazer uma diferença.

aline disse...

nem sei se rpecisa fazer diferença, tem coisa que é legal pensar e pronto.

ler porque odeia é uma coisa q eu acho curiosa. não consigo ler quem eu odeio, pq me dá siricutico. mas o post foi motivado por causa de uma inflexibilidade minha: nem tudo é só uma questão de opinão, pra mim. então, em determinados assuntos, eu enfureço. sem necessariamente odiar a pessoa q discroda de mim. é complicado.

Thanatos disse...

nem tudo é uma questão de opinião...
entendi então o dilema.

e essa coisa de ler o que odeia é bem fácil explicar. Geralmente é em relação à desejos pessoais. Inveja no fim das contas, pelos outros fazerem coisas que ele não se permite.

aline disse...

Eu acabei de ter um exemplo mais claro, aqui, de alguem que me lê e me odeia. Tá ilustradíssimo isso q vc explicou. :)

Legal ter vc por aqui. :*

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