11.3.09

do meu professor

Eu tive um professor na licenciatura, no curso de psicologia da educação. Ele é famoso, e muito polêmico também. Há quem odeie, há quem ame. Quase todos os meus amigos fizeram o curso dele, e poucos, muito poucos, simplesmente o ignoram. Passei boa parte do curso dele atônita, foi meio que uma epifania pra mim. Acho que nunca vou conseguir explicar de um jeito que não soe estúpido, mas ele realmente significou algo na minha vida. Daquelas pessoas que te fazem redefinir quase tudo. Odiei o J. várias vezes. O projeto de curso dele era muito provocador. Eram três etapas. Na primeira, dava um conteúdo de psicologia/psicanálise meio mastigado. E usava filmes e literatura pra provocar e depois analisar nossa reação. Por exemplo, uma vez ele ficou lendo um conto do André Sant'Anna, cujo narrador é um cara que é doido e come cocô. O texto é muito repetitivo. E ele recomeçava a cada vez que um aluno entrava atrasado. Ele fez sessenta alunos entrar numa de auto-análise, de inescapabilidade dos traumas de infância, dos desejos e etc. Vimos Nós que aqui estamos por vós esperamos, do Masagão. Depois, a gente começou a analisar os discursos auto-ajuda disfarçados em publicidades e outras mídias. Lembro muito do Sunscreen. Numa aula em que ele falou sobre o cientificismo ajudando os discursos mais alienantes. Numa vibe Vanila Sky. E pontuou que esse discurso cola porque é confortável, forja nossa emotividade e afasta qualquer aspecto polítco no cotidiano blablabla. E começou a desmontar tudo o que tinha convencido a gente a fazer até então, a nível de auto-conhecimento. E passou Na captura dos Friedman. Nesse dia eu saí chorando. Algumas vezes ele me emocionou muito. Quando leu Maria dos Prazeres, do Garcia Marquez. Durante 40 minutos, com a turma em absoluto silêncio. Um dos textos mais bonitos que eu conheço.
A segunda parte teve mais a ver com educação. Eu achava que o curso dele, além de teórico demais, era viajante. Mas não era. A gente entrou em psicologia da educação com textos muito bons. Lemos Lipovetsky, Hanna Arendt e Dubet. Deste último, um texto em que ele, sociólogo, experimenta o métier de professor de sétima série. O curso estava muito intenso nessa fase. J. falou bastante sobre subjetivação dos alunos, desritualização da sala de aula e produção do fracasso escolar. Nesse meio tempo, eu estava achando que professor é uma profissão impraticável. Fiquei frustrada, arrasada. Porque era a profissão que eu tinha escolhido entre todas as outras ever. Eu achava demais ser professor. E achava também que tinha sido uma cruzada até chegar ali e ele estragar tudo (eu disse que ia parecer bobo, mas foi tão importante, na época, porque minha vida pessoal estava em frangalhos, então essa seria a grande tábua de salvação).
Teve uma noite em que eu fui falar disso com ele. Que ele estava me deixando apavorada. Ele me respondeu contando um conto do Machado, Segunda vida. Sobre um cara que morre e ganha o direito de reencarnar sem perder a memória de sua vida passada. E o cara achando que ia arrasar e aproveitar ao máximo. Contando com sua sabedoria. Mas que nada. Por medo de cair, ele nunca sobe em árvores, e assim passa a vida. Aí eu comecei a entender melhor a dimensão mais transformadora do que o J. estava falando. Esse foi um dos maiores conselhos que eu já recebi. Ele foi a primeira pessoa que usou a literatura pra me dizer algo de aplicação urgente e imediata na minha vida. No meu jeito de lidar com ela. Responsabilidade, escolhas, erros. Ainda parece bobo, mas foi aí que várias coisas começaram pra mim.
Infelizmente, o curso não acabou como deveria. Os alunos se insurgiram na reta final e a alma dramática do J. determinou que as atividades estavam encerradas. Fiquei sem a última aula, que era sobre o livro A felicidade, desesperadamente do André Comte-Sponville. Arrumando minhas prateleiras, no fim de semana, reencontrei-o (o livro, não o Sponville nem o J.). E estou relendo, e dialogando novamente com tudo isso. Acho que virão outros posts sobre.

***

Foi por causa desse curso que eu conheci o Paulo. Ele era ex-aluno do J. E eu entrei pra um grupo de estudos chamado "sobrevivemos ao J.", que era formado por uma galera que precisava continuar os debates. Precisávamos. E quando eu percebi que queria mesmo ter um relacionamento sério com o Paulo, dei um bilhete pra ele com um trecho do Substância, do Guimarães Rosa: “Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?” Disse, e viu. O polvilho, coisa sem fim. Ela tinha respondido: - “Vou, demais.” Desatou um sorriso. Ele nem viu. Estavam lado a lado, olhavam para a frente. (...) Só o um-e-outra, um em-si juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor"... Que é o único jeito, em língua portuguesa, de pedir alguém em namoro.
Usando a literatura pra dizer as coisas mais relevantes, sempre, desde então.

Três anos e um bocado de meses atrás.

adendo: esses textos literários que ele trazia foram o ponto forte mesmo do curso. Até hoje, eu uso alguns deles como referência pras minhas escolhas. Mesmo. Viraram pontos de suporte meu. Faz pouco tempo que eu assumi isso. Que Guimarães, Machado, Adelia Prado não eram só fonte de experiências estéticas. Foi uma educação sentimental. A gente também leu um artista da fome do Kafka, pra falar do tal métier de professor. Tudo de bom.

6 pessoas pararam por aqui:

Anonymous disse...

Que post, arrasou! Depois que voltar ao Brasil, acho que vou lá na Educação e concluir minha licenciatura, e tentar a matéria do Prof. Júlio Aquino. Não o conheço. Ele é parente da profa. lá da História/contemporânea.
É isso, sayonara
ah! concordo, que os ´grandes´ , foram uma educação sentimental.
Da lista, ainda não li um artista da fome dO Kafka, mas tenho em casa hehehehehe....
bjs e sayonara
madoka

Tha disse...

Não é bobo

Tha disse...

E tb quero ser professora, e tb estou precisando de uma (re)educação sentimental... Acho que posso estar no meio dela... =P

Tha disse...

Se mo texto é bobo eu tb sou uma boba...

Daniela disse...

que inveja. eu nao tive durante a faculdade ninguém assim, que meio que determinasse minha vida a partir de ali.

a minha graduaçao foi meio pálida, em muitos sentidos...

aline disse...

Madoka...vai sim. O curso mudou muito, mas ainda é bom. Não sei se são parentes, tudo é possível nessa vida.
Sayonara. :)

Tha. Que legal q vc não achou bobo. As vezes eu tenho receio de fazer essas declarações mais rasgadas. E qto mais importante é o assunto pra mim, mais medo eu tenho de que os outros digam nhé pra ele. Bjos :)

Dani. Eu tiva, no total, uns 3 ou 4 professores desse nível. Que falaram direto à alma, sabe? O resto foi resto. Mas é raro. Uma pena. Bjos

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