13.3.09

dos lados das coisas esféricas

Uma das principais coisas que o estudo das escolas literárias faz pelos alunos de ensino médio é a ênfase nas diferenças entre o romantismo e o realismo. O salto que é representar as personagens de maneira plana ou esférica. Ou, em outras palavras, personagens simples e personagens complexas. E a função social que a literatura tomou pra si com isso. É a única disciplina, na escola, que aborda e analisa formalmente a complexidade humana (quando não há filosofia e sociologia na grade). E aí dizemos aos alunos que eles precisam abandonar um pouco as noções estanques de bem e mal, certo e errado, luz e sombra, herói e vilão (oposições que já vinham sendo cristalizadas desde o barroco, mas agora confortavelmente separadas em personagens caricatas), para descobrir numa única personagem elementos que a aproximam dos dois pólos. No fundo, é uma meia verdade. Porque embora os caracteres de um romance "realista" sejam de fato mais complexos do que os de um romance "romântico", nós nunca deixamos de julgar e defini-los. Brás Cubas é formalmente um herói, já que ocupa o lugar central da narrativa. Mas é um anti-herói. Sua complexidade não implica forçosamente em um quinhão de bondade e outro de maldade, mas em idiossincrasias que o tornam menos tedioso e previsível.
As vezes eu tenho a impressão de que somos personagens realistas aos olhos de leitores românticos. Evidentemente, no mundo real as pessoas são contraditórias, complexas, incompletas, mutáveis. E mesmo assim, nosso julgamento tende a separar o lado bom e o lado ruim de cada coisa ou pessoa. E desconsiderar o lado ruim quando o lado bom vale a pena parece ser uma atitude madura e ponderada. Eu não entendo muito a lógica dos lados - embora eu também me sirva desse tipo de raciocínio fácil vez ou outra - porque não conheço ninguém que possa ser separado em cubinhos elementares para ser compreendido. E tampouco conseguiria classificar facilmente a maioria dos cubinhos em categorias "bom" ou "ruim". Teimosia, é bom ou ruim? Pessimismo é bom ou ruim? Individualismo é bom ou ruim?
Além disso, é possível que as coisas boas e as coisas ruins de cada um estejam tão ligadas que uma determine a outra e, sem uma delas, a pessoa se torne algo completamente diferente. Se eu tentar aniquilar, por exemplo, o grande cubinho da irritabilidade que existe em mim, é possível que meu ceticismo, meu perfeccionismo, meu senso de responsabilidade e até minha arrogância sejam afetados. Deosmilivre perder tantos cubinhos assim.

6 pessoas pararam por aqui:

Marcus disse...

Grande texto.

Quando a gente fica querendo consertar demais pequenas coisinhas, acaba deixando de ser quem a gente é.

aline disse...

Obrigada. Eu concordo. Não acho que as pessoas devam ser estáticas. Mas a personalidade e a trajetória das pessoas são tão complexas e tão conectadas. Gosto de pensar nesse tipo de coisa.

mary w disse...

nossa. otimo mesmo.

aline disse...

obrigada.

Daniele disse...

seu cubinho da irritabilidade na verdade eh uma bolinha: rola tão facilmente.... hahahaha ;)
beijo dani

aline disse...

hahahahhahahha

haha

ha

...

humpf.

=P

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