20.3.09

flagship ecológico-comercial


Já vi circulando em emails e twitters a campanha da WWF contra o aquecimento global. A idéia, muito simples, é que o mundo todo desligue as luzes por uma hora num determinado momento já combinado. Pra economizar sei lá quanto. A coisa toda, claro, é simbólica. Vale mais pela atenção e pelo engajamento das pessoas.
Em sua página, a instituição lança a campanha e faz a contagem regressiva. Há um pequeno quadro de avisos pedindo que as pessoas mudem seus hábitos por um planeta mais sustentável. No mesmo site, oferecem o Kit Hora do Planeta: uma camiseta feita de pet, uma lanterninha, um adesivo e uma ficha de inscrição. É uma marca, a Hora do Planeta. Cinquenta mangos. Por bugigangas. A serem compradas via internet. Na boa. É uma patifaria. Pois, se por um lado é importante e útil que o aquecimento global perca status de lenda e vire uma preocupação mundial, o discurso ecologicamente responsável muito rapidamente entra no bom e velho esquema capitalista. No melhor estilo publicitário. O percurso dos links, imagens e frases vão criando um texto. Superficial, mas de fácil aderência. Você sabe que precisa fazer algo. Sabe que faz parte do planeta. Precisa mudar pequenos atos. Gastar menos energia. Reciclar. As roupas continuam descoladas, valem enquanto mensageiras. São uniformes. Compre seu kit. A gente nem percebe a inserção. Do aproveitamento do consumo num ato afirmativo. Do computador ligado em detrimento da lâmpada. Da construção da aldeia global, conectada e consciente, mantendo uma roda comercial de natureza similar àquela que as dondocas no shopping giram. Na verdade, é a justificativa pras nossas ações o que a gente recicla.
O efeito colateral, de quebra, é a faxina de consciência. Você participa, faz o que está a seu alcance. Usa uma camiseta bonita feita de garrafa pet, cola o desivo no carro e vai pro escritório. Outra inserção. Atos de sustentabilidade e preservação no meio de um cotidiano normal. Pequenos atos que viram grandes símbolos. Que superam, por exemplo, as latinhas de cerveja que você tomou na sexta feira e jogou no lixo mais próximo. Ninguém diminui o número de cervejas só para gastar menos latinhas. Ou evita de tomar água no bebedouro porque os copinhos são de plástico. Ser efetivamente consciente é chato e difícil (pra não dizer impraticável).
Aí tem mais. A fetichização do discurso ecológico. É cool defender a natureza. Amar os animais, etc. Eu circulei também, podem ver, que as espécies mais queridas estão ameaçadas. Isso, meninos, chama-se apelo. Pretende mobilizar todo mundo que tenha um coração e fossas lacrimais. Não tem nada a ver com conscientização. Mas funciona. Várias espécies em extinção já viraram bichinhos de pelúcia[/peixe palhaço], documentário com voz do Antonio Fagundes [/pinguim imperador], desenho animado[/uma pá], lancheira de criança [/a mesma pá]. E a gente só consegue se interessar por esses animais quando eles sofrem alguma atropomorfização. Olhos, rosto, corpos expressivos. Voz, falas, verbalizações. Sentimentos humanos. Quando entre nós e eles existe um filtro discursivo que nos enternece. Se você, zapeando a discovery, vê um panda, acha que são a coisa mais linda e se compadece de só existirem 20 no mundo, então você já os identifica como ícones da natureza ameaçada. Reconhecimento de marca. Discurso bem sucedido. Há várias espécies de pererecas e insetos ameaçadas. Não amo nenhuma delas. Aliás, tenho fobia. Mas sei que devem ser prezervadas. Sei que o carro que eu uso, os móveis de madeira da minha casa e o plástico bolha que embalou meus livros na mudança, quase todo meu rastro contribui em alguma escala, ainda que pequena, pra que suas existências sejam dificultadas.
O que me deixa puta é o tino oportunista da coisa. Forjar o engajamento na emotividade e no estilinho de vida da classe média, que já adora expurgar suas culpas, e ainda lucrar com isso é cara de pau demais pro meu gosto. E, num nível um pouco mais impalpável, lembro de uma história. Num acampamento dos sem-teto, um amigo viu um barraco construído engenhosamente com painéis de publicidade. E ficou elogiando a "noção arquitetônica" das pessoas de lá. E eu com o coração rasgado de ver tanta gente miserável. Constatando minha impotência. Depois disso, me convenci. Que, por vontade de ajudar o outro, a gente acaba criando mecanismos de aproximação e identificação. E com isso, fetichizando sua tentativa de sobrevivência.

16 pessoas pararam por aqui:

mary w disse...

eu concordo com quase tudo, menos em falar mal do filme dos pinguins.
fetichizamos mesmo o Outro. e isso é algo pra pensar. se é possivel sensibilizaçao sem identificaçao.
e daí a campanha em si. isso da sensibilizaçao tb. parece q NUNCA passa dessa fase. nao chega nunca na fase da consciencia mesmo, de abrir mao de. fica sempre nessa coisa de tenha dó dos pandas e compre uma camiseta. fase de sensibilizaçao eterna.

aline disse...

Oi Mary
Eu gosto do filme dos pinguins, acho q eles até tentam seguir uma trilha diferente na narrativa. Mas não são isentos de tentativa de identificação. Acho que isento mesmo, só os documentários mudos :) Eu adoro quase tudo q o Cousteau fez.

É. Nunca passa de sensibilização pq atuação mesmo é complicado, chato e cansativo. Imagina, uma cidade que nem são paulo sem carro. Todo mundo sem material descartável na cozinha. Voltando aos engradados de vidro. Não rola. Então fica só no discurso consciente, mesmo. Acho que a frase "cada um faz sua parte" é a grande absolvição do século XXI.

lu disse...

mais um post excelente, só passei pra aplaudir.
você é minha filósofa não-filósofa favorita!
(meu desorientador vive falando que o capitalismo engoliu tudo, que a crítica a ele foi incorporada no seu funcionamento e agora a gente precisa criticar diferente. porque nada escapa.)
meu, você ia começar anos-luz na frente se um dia quiser estudar filosofia contemporânea a sério.
fica o apelo. o mundo precisa de boas filósofas :]
beijos!

aline disse...

eu tenho pensado muito nessa coisa toda. sei lá, o superentusiasmo dos movimentos afirmativos é meio irritante. odes à alegria e à união frente a problemas sérios de ordem mundial. mobilizando indivíduos e sendo patrocinados por empresas. é meio carne de vaca falar isso, ainda mais vindo de onde vim.
tipo o movimento we are the world. um monte de estrelas milionárias cantando pra salvar as criancinhas famintas da áfrica. hoje, quase 30 anos depois, a áfrica continua com miserável e as estrelas estão ainda mais milionárias e bem na fita. e o esquema, cada vez mais sofisticado, rende horrores. uóooooooo.

(meu, obrigada. eu ainda fico corada com elogios assim. beijos :)

Sarai disse...

eu concordo com 95% do que vc disse e com louvor.Só acho que a gente não tem muito o que fazer contra o capitalismo a não se esperar uma próxima revolução que mude o sistema.Algumas Ongs (algumas, pq muitas agem exatamente com vc falou por oportunismo)são ongs pow nem sempre tem apoio de governos ou recebem o suficiente para se manter e dinheiro não nasce em árvore(confesso que eu particularmente acho muito mais nobre vender do que pedir).Se vivemos no capitalismo e não podemos contra ele,então vamos usa-lo ao nosso favor,rir com ele,rir dele...
Nessa questão da mudança de hábito entra um outro fator que seria o investimento em tecnologias com base nessa idéia de sustentabilidade.Não é o papel das ongs.e também convenhamos não é todo mundo que está interessado.Já criaram uma tecnologia de carro movido a água,mas foi "abandonada" e "esquecida" (na verdade,omitida) porque tem interesses maiores por atrás disso.Há tecnologias a ser criadas que podem ruí até com próprio capitalismo.Então quem tem dinheiro pra investir em determinadas tecnologias não o faz pq especular no mercado trás rentabilidade muito mais rápido e mantém o capitalismo intacto(ou quase).
*
Ah,voltei no post do aborto para replicar e explicar o que me pediu!
;*

aline disse...

Verdade, Sara.
Nada mais divertido do que o capitalismo.

Nada mais bem-intencionado do que uma ong.

Nada mais sábio do que esperar pela Revolução e pelas novas tecnologias.

lu disse...

o que eu acho engraçado é que é carne de vaca mesmo, mas o povo não atualiza a leitura. todo o mundo parece entender, p ex., construção e poder produtivo, quando se fala disso, mas aí no discurso escapa muito fácil como a pessoa ainda conta com uma substância anterior, sabe? muito raro quem mantenha. as premissas implícitas continuam trabalhando e a pessoa se trai. você sabe. muita pouca gente sustenta isso e é coerente, precisa ser fodão. e você é, sou fã!
bjo

paulo disse...

Mas perai. Sara, não era vc, no outro post, que estava criticando *o capitalismo* por sua vocação lasciva e inconsequente? "O sexo se tornou uma questão de auto-afirmação aí entra o capitalismo que usa o sexo o desejo para lucrar".
Agora vc diz que é preciso usa-lo a nosso favor e rir dele? Uai.

Outra coisa: a wwf COM CERTEZA não sofre de falta de verbas. Vc falou isso de brincadeirinha, né? HAHAHAHAHAHAHHAHA

Carro movido a água só vai permitir mais carros. Esse tipo de nova tecnologia não vai mudar hábito nenhum, pelo contrário, vai permitir que a gente não abra mão do conforto. Vinte carros hoje poluem menos do que um Cadillac. Não é essa a questão.

Sarai disse...

em nenhum momento me declarei contra ou a favor do capitalismo, em nenhum momento eu disse o que é certo ou errado e sim de que se trata de causas e
conseqüências
que é no que eu acredito,sacou a diferença? Eu não sei se vc percebeu,mas citei 2 fontes naquele coment,uma sexóloga e um documentário,Falei de dados estudados por outrem (e não de
achologia minha)que servem de base para outra tese no qual acredito.É
completamente diferente de julgar ou simplesmente criticar, não acha?Mas uma coisa há de se convir, me considero participante do capitalismo,acho que querendo ou não todos nós somos,não é?

*
Só a título de exemplificação:
Se o tino oportunista das coisas deixa a autora desse texto puta,a mim a percepção dele me faz rir dele, simplesmente porque me julgo capaz de discernir e escolher recusar aquele discurso que tenta me prender pela emoção.Mesmo que eu o ache bonitinho(rir com ele).E quando divulgo a minha percepção a outros que não conseguem enxergar o tino oportunista eu não estou usando ele ao meu favor?0.o

*
Eu não vou discutir o mérito do impacto de carros na sociedade por não ter nada a ver com o enfoque que eu quis dá.Me referir a fontes alternativas da energia.Sobre isso eu já discuti exaustivamente na aula de macro-economia e esse assunto não cabe aqui nesse espaço minúsculo a discussão sobre.
*
Com certeza eu não estava em mente a WWF.Tanto que concordei com louvor com a Aline inclusive ratificando nesse comentário de cima que "muitas agem assim.." e falei de outras "algumas..."
*

minha mania de tentar ser sucinta nunca dá certo,né?

té!
;**

aline disse...

"em nenhum momento me declarei contra ou a favor do capitalismo". Nobody does. O caso não é esse.

"Eu não sei se vc percebeu,mas citei 2 fontes naquele coment,uma sexóloga e um documentário,Falei de dados estudados por outrem (e não de
achologia minha)que servem de base para outra tese no qual acredito." Percebi sim. E a tese na qual vc acredita é embasada, preconceituosa e moralista, ué.


completamente diferente de julgar ou simplesmente criticar, não acha?" Não, não acho.

"me considero participante do capitalismo,acho que querendo ou não todos nós somos,não é?" Com certeza.

"E quando divulgo a minha percepção a outros que não conseguem enxergar o tino oportunista eu não estou usando ele ao meu favor?" Não, não. To ganhando nada com isso.

"Me referir a fontes alternativas da energia." Pauo tbm. E levou o argumento adiante. Aqui no blog, que é o espaço onde a discussão se dá entre nós, interlocutores.

"Com certeza eu não estava em mente a WWF". Mas era quem eu tinha em mente. Alias, o post é sobre ela.

Sarai disse...

Eu nem ia falar mais nada.Insinuar que sou preconceituosa e moralista,é o fim!Mas tudo bem já que vc não me conhece dá pra relevar.Eu só voltei pq o Paulo me questionou e por educação me senti obrigada a responder.
*
Eu sei que o caso não é esse,o Paulo que levantou a questão tentando achar algo de contraditório no que eu disse.Foi o que deu a entender.
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Preconceito seria se tivesse me baseado por algo irracional o que não é o caso.E só pra ratificar isso eu ponho aqui algo que vc pode achar no wikipédia:
"Necessário também salientar, que há uma diferença substancial entre ter opinião ou formular um "conceito ", (e não "pré-conceito") sobre qualquer assunto e o preconceito em si. Eu posso, por exemplo, afirmar "preferir" negros a brancos (embora não abjete os últimos) sem que com isso esteja sendo "preconceituoso". O conceito, também, pode ser formulado com base em experiência reais e não apenas em opiniões."
É uma definição que existem tb em outros dicionários.
*
O mesmo vale para o moralismo.Em nenhum momento eu me propus a impor um modo de vida baseado em puritanismo, preconceito ou intolerância em prol da aparência.
Cada um vive como melhor lhe for conveniente e lhe apraz.Desde que entenda que para cada ação há uma conseqüência(ponto).Inclusive tem uma vertente de moralistas ditos "esclarecidos" que quando se sentem atacados ou incomodados com uma opinião contrária,tende a tachar os outros de moralistas.
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O que escrevi a título de exemplo, foi a título de exemplo,mesmo que não concorde com o que foi exemplificado,a lógica de pensamento ficou entendida.
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Sim,eu sei que paulo tb se referia ao mesmo assunto,só que ele foi por uma vertente,que seria o impacto na sociedade e diretamente a população,as pessoas e eu me referi ao impacto na economia.O assuntos interligados sim,mas não foi o meu foco.
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Eu sei,reconheço o símbolo da WWF,eu percebi que vc falou dele e o meu comentário não foi para confrontar e questionar isso,eu simplesmente falei sobre as outras,para lembrar que não dá pra generalizar.
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Enfim,se toda vez que eu voltar aqui for pra explicar o que disse anteriormente vai ficar cansativo e muito longe do que seja expor idéias,dados e seus significados.
Então vou economizar um pouco nos comentários daqui pra frente,tá?

aline disse...

Sabe qual o traço cultural que mais me irrita no brasil? a maioria das pessoas que são machistas, racistas, sexistas, moralistas morrem jurando que são liberais, justas e racionais. Um pouco por covardia, muito por falta de lucidez, mesmo. Não me importa quem vc é, Sara. Me importa o que vc escreve, sobretudo na minha caixa de comments. Se o q vc escreve está encharcado de moralismo, vc é moralista.

Enquanto vc vier aqui, no meu blog, e escrever e defender as calamidades que vc escreveu e defendeu, eu vou responder e pontuar. Se não gosta, sinta-se a vontade para não comentar e não frequentar o blog. Livre, leve e desobrigada de aturar as chatices que eu escrevo. Pode ser até um alívio pra vc.

Aqui, dada a natureza polêmica dos posts, decanta-se com facilidade a as oppiniões contrárias e o discurso moralista. Há quem condene o aborto por motivos consideráveis. Tem conversa com esses. Mas eu já disse: preconceito, machismo, vitimação, moralismo, não. Aqui não.

No mais, acho que te falta alguma consistência nos conceitos. Quer saber qual é a naturezaa do preconceito mesmo? Ao invés de ler a wikipédia e os dicionários, leia a série de posts do Liberal, Libertário, Libertino. Quer saber o que é moralismo e machismo, leia a Marjorie Rodrigues e o É bom pra quem gosta. Eles não estão no meu blogroll por acaso. São provas de que a blogosfera pode fazer a gente pensar, se questionar, entender a si mesmo, e talvez até melhorar. Coisa que eu, aqui, creio não conseguir. Ninguém lamenta mais do que eu.

lu disse...

nossa, ninguém consegue mais que você!
só não dá pra fazer milagre, houhouhou. que o mundo é cheio de janjolão.
:*

marjorierodrigues disse...

Concordo com a mary w na coisa da fase da sensibilização eterna. E, na ECa, esse discurso da criatividade arquitetônica IMPERA. Teve um aluno que até fez uma exposição de fotos baseada nisso. Acho que teve bolsa para o projeto também. Em suas fotos, só apareciam pessoas felizes ao lado dos seus barracos que desafiam a gravidade.

Além da ode à criatividade arquitetônica com sucata (sem questionar que, porra, seria preferível que eles sequer tivessem a chance de desenvolver tal criatividade), isso tb tem uma coisa que me incomoda muito -- que é o reforço mito do brasileiro que sorri de ABSOLUTAMENTE TUDO. Que ri em meio à adversidade, etc e tal.

Só o que aparece na mídia é isso. O pobre que sorri, que faz samba, que faz festa, apesar dos apesares. O pobre que reclama é amargo, é raivoso... É FEIO. Acho que deriva desse mito também o fato das pessoas dizerem que não temos senso de humor, quando reclamamos de machismo, homofobia e racismo na cultura pop, por exemplo. Tipo: como assim vc não ri da própria desgraça?

Acho que essa de rir da própria desgraça só é virtude até o ponto em que vira uma imposição.

Enfim, divaguei demais, rs.

aline disse...

Pois é Marjorie. Eu conversei muito com esse amigo depis, e ele percebeu a cagada. Mas é típico do movimento estudantil da usp, da politização média dos alunos de lá. Geralmente, eu queria matar um ou dois a grito.

Jurandir Paulo disse...

Perfeito, Aline. Tenho asco por hipocrisias, é o que vejo na ação de grifes como a da WWF. A Coca-Cola coloca o símbolo do ursinho panda em sua publicidade e tudo fica politicamente correto. Tem um exemplo aqui pertinho bem interessante. A Fetranspor, a federação da máfia dos donos de ônibus, que compra prefeitos e vereadores por atacado, para entupir a cidade de ônibus e impedir verdadeiros projetos de transporte de massa, tem também o seu programa de preservação ambiental. Fazem doações de mudas para reflorestamento, tiram fotos e aparecem na imprensa como empresa “verde”. Só que a mesma máfia impediu com sua força todos os projetos na assembléia para melhorar o sistema de transportes, e nunca permitiram com seu lobby a criação de uma CPI, como foi proposto, para investigar suas doações a parlamentares, inclusive para a mídia.

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